Alguns trechos do livro VI de "Confissões", de Agostinho de Hipona, que parecem relevantes para o contexto do Aconselhamento Bíblico, quando o autor relata sua interação com Ambrósio [Ministro da Palavra em Milão]:
'[3]. Eu
ainda não gemia em minhas orações pedindo que me ajudasses. Mas meu
espírito estava totalmente concentrado na aprendizagem e, impaciente,
desejava uma discussão. Considerava Ambrósio um homem feliz, pelos critérios do mundo, que tem as grandes pessoas em alta estima. Apenas seu celibato me parecia um problema difícil. Mas
eu não podia imaginar, por não ter tido sua experiência, que esperança
havia em seu íntimo, que lutas ele travava contra a tentação que atacava
suas qualidades superiores ou que conforto nas adversidades ou que
doces alegrias teu pão proporcionava à boca oculta de seu espírito. Ele tampouco conhecia as marés de meus sentimentos, ou as profundezas do meu perigo. Pois eu não podia perguntar-lhe o que queria como queria, por ser excluído de seus ouvidos e de sua conversa por multidões de pessoas ocupadas, de cujas fraquezas ele {Ambrósio} cuidava.
Quando não estava ocupado com gente nessas condições, no pouco tempo
que lhe restava, ou ele estava revigorando seu corpo com o alimento
absolutamente indispensável, ou sua mente estava lendo. Durante a
leitura, seus olhos deslizavam sobre as páginas, e seu coração procurava
o sentido, mas sua voz e língua permaneciam em repouso. Muitas vezes
quando aparecíamos (pois ninguém era proibido de entrar, e não era seu costume exigir que quem aparecesse fosse anunciado), nós o víamos lendo em silêncio, nunca de outra forma. Ficávamos lá sentados por um longo tempo (pois quem ousaria perturbar alguém tão concentrado?),
depois tendíamos a ir embora, imaginando que, naquele breve espaço de
tempo que ele conseguia, longe da grande confusão das outras atividades,
para revigorar sua mente, ele não queria ser perturbado. E talvez
temendo que, se o autor tratava obscuramente de algum assunto que ele
devia explicar a algum de seus ouvintes mais atentos ou confusos, ou de
algum assunto que discutia algumas das questões mais difíceis, se ele
gastasse seu tempo para outras coisas, não poderia consultar todos os
volumes desejados. Mas a preservação de sua voz (que um breve discurso enfraquecia) talvez fosse a razão mais verdadeira de sua leitura silenciosa. Fosse qual fosse sua intenção, com certeza num homem como ele ela era boa.
[4]. Eu, porém, certamente não tinha nenhuma oportunidade de perguntar o
que queria àquele teu santo oráculo {Ambrósio}, seu coração, a não ser que o
assunto pudesse ser resolvido numa resposta breve. Mas as paixões que eu
tinha dentro de mim para derramar sobre ele exigiam todo o seu tempo
livre, e nunca o consegui.' [Confissões VI.3,4]