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10 junho 2026

Aprendizado piedoso 244

Alguns trechos do livro VI de "Confissões", de Agostinho de Hipona, que parecem relevantes para o contexto do Aconselhamento Bíblico, quando o autor relata sua interação com Ambrósio [Ministro da Palavra em Milão]:

'[3]. Eu ainda não gemia em minhas orações pedindo que me ajudasses. Mas meu espírito estava totalmente concentrado na aprendizagem e, impaciente, desejava uma discussão. Considerava Ambrósio um homem feliz, pelos critérios do mundo, que tem as grandes pessoas em alta estima. Apenas seu celibato me parecia um problema difícil. Mas eu não podia imaginar, por não ter tido sua experiência, que esperança havia em seu íntimo, que lutas ele travava contra a tentação que atacava suas qualidades superiores ou que conforto nas adversidades ou que doces alegrias teu pão proporcionava à boca oculta de seu espírito. Ele tampouco conhecia as marés de meus sentimentos, ou as profundezas do meu perigo. Pois eu não podia perguntar-lhe o que queria como queria, por ser excluído de seus ouvidos e de sua conversa por multidões de pessoas ocupadas, de cujas fraquezas ele {Ambrósio} cuidava. Quando não estava ocupado com gente nessas condições, no pouco tempo que lhe restava, ou ele estava revigorando seu corpo com o alimento absolutamente indispensável, ou sua mente estava lendo. Durante a leitura, seus olhos deslizavam sobre as páginas, e seu coração procurava o sentido, mas sua voz e língua permaneciam em repouso. Muitas vezes quando aparecíamos (pois ninguém era proibido de entrar, e não era seu costume exigir que quem aparecesse fosse anunciado), nós o víamos lendo em silêncio, nunca de outra forma. Ficávamos lá sentados por um longo tempo (pois quem ousaria perturbar alguém tão concentrado?), depois tendíamos a ir embora, imaginando que, naquele breve espaço de tempo que ele conseguia, longe da grande confusão das outras atividades, para revigorar sua mente, ele não queria ser perturbado. E talvez temendo que, se o autor tratava obscuramente de algum assunto que ele devia explicar a algum de seus ouvintes mais atentos ou confusos, ou de algum assunto que discutia algumas das questões mais difíceis, se ele gastasse seu tempo para outras coisas, não poderia consultar todos os volumes desejados. Mas a preservação de sua voz (que um breve discurso enfraquecia) talvez fosse a razão mais verdadeira de sua leitura silenciosa. Fosse qual fosse sua intenção, com certeza num homem como ele ela era boa.
[4]. Eu, porém, certamente não tinha nenhuma oportunidade de perguntar o que queria àquele teu santo oráculo {Ambrósio}, seu coração, a não ser que o assunto pudesse ser resolvido numa resposta breve. Mas as paixões que eu tinha dentro de mim para derramar sobre ele exigiam todo o seu tempo livre, e nunca o consegui.' [Confissões VI.3,4

10 junho 2025

Livro: "Confissões" [X]

Alguns trechos do livro X de "Confissões", de Agostinho de Hipona:

'1. Senhor, tu que me conheces, permite-me conhecer-te; permite-me que te conheça “plenamente, da mesma forma como sou plenamente conhecido” (1Co 13.12). Poder de minha alma, entra nela e prepara-a para ti, a fim de que tu possas possuí-la e preservá-la “sem mancha nem ruga” (Ef 5.27). Essa é a minha esperança. “Por isso, eu falo” (Sl 116.10), e essa esperança me anima quando me alegro com razão. Em relação a outras coisas desta vida, quanto mais choramos por elas, tanto menos elas merecem nosso pranto, e quanto mais elas merecem nosso pranto, tanto menos choramos por elas. Pois eis que “tu desejas a verdade no íntimo; e no coração me ensinas a sabedoria” (Sl 51.6). Isso eu gostaria de fazer em meu coração confessando-me diante de ti; e nos meus escritos, diante de muitas testemunhas
2. E o que há em mim, ó Senhor, que eu poderia esconder de ti, mesmo se não o confessasse? O abismo da consciência humana está “exposto diante dos olhos daquele a quem devemos prestar contas” (Hb 4.13). Eu poderia te esconder de mim, mas não me esconder de ti. Agora, porém, uma vez que meus gemidos atestam que estou insatisfeito comigo mesmo, tu brilhas e és amável, amado e desejado, para que eu me envergonhe de mim mesmo, renuncie a mim mesmo e escolha a ti, pois não posso agradar nem a ti nem a mim se em ti não estiver. Diante de ti, portanto, ó Senhor, eu me exponho tal como sou, e já disse com que proveito me confesso diante de ti. Não o faço com palavras e sons da carne, mas com as palavras expressas por minha alma e com o grito do meu pensamento que teus ouvidos conhecem. Pois quando sou perverso, então confessar-me a ti nada mais é do que sentir-me insatisfeito comigo mesmo. Mas quando sou realmente santo, isso significa simplesmente que não estou atribuindo minha virtude a mim mesmo, porque tu, ó Senhor, que abençoas o pio, primeiro o justificas quando ele ainda é ímpio. Minha confissão, portanto, ó meu Deus, é feita aos teus olhos em silêncio, mas não realmente em silêncio. Quanto ao som das palavras, é uma confissão silenciosa; mas em relação ao que sinto, ela clama em altos brados. Pois, aos ouvidos dos homens, eu não digo nada certo que tu já não tenhas ouvido de mim; tampouco tu ouves coisa alguma de mim que já não me tenhas dito. 
3. Por que me interessa que os homens leiam minhas confissões, como se eles pudessem “curar todas as minhas doenças” (Sl 103.3)? As pessoas têm curiosidade em relação à vida alheia, mas não se preocupam com a correção de suas falhas. Por que querem me ouvir dizer o que sou, aqueles que não querem ouvir de ti o que eles são?' [Confissões X.1-3]

'5. Mas que lucro visam os que desejam ouvir minhas confissões? Querem alegrar-se comigo quando ficam sabendo como, por tua graça, eu me aproximo de ti? Querem orar por mim quando ficam sabendo como ando distante por minha própria culpa? A essas pessoas vou me revelar. Pois não é um fruto desprezível, ó Senhor meu Deus, que muitos por mim te rendam graças e outros tantos orem por mim. Que a mentalidade fraternal ame em mim o que, segundo teus ensinamentos, deve ser amado, e lamente o que, segundo eles, deve ser lamentado. Que me acolha uma mentalidade fraternal, não a dos estrangeiros, que têm lábios mentirosos e que, com a mão direita erguida, juram falsamente” (Sl 144.11), mas uma mentalidade fraternal que, quando me aprova, se alegra comigo e, quando me desaprova, se entristece por mim; porque, aprovando ou desaprovando, ela me ama. A essas pessoas eu me revelarei: elas encontrarão conforto em minhas boas obras e lamentarão meus erros. Minhas boas obras provêm de ti, são dádivas tuas. Meus erros são falhas minhas e teu julgamento. Que essas pessoas respirem fundo diante daquelas e lamentem estas. Que hinos e lamentos, brotando do coração de meus irmãos, os “incensários” (Ap 8.3), subam à tua presença. E tu, ó Senhor, recebe com agrado o incenso de teu santo templo. “Tem misericórdia de mim, ó Deus, por teu amor, por tua grande compaixão” (Sl 51.1). Não me abandones de modo algum; antes, aperfeiçoa minhas imperfeições
6. Esse é o fruto das confissões do que sou, não do que fui: confessar isso não apenas diante de ti, em segredoexultando com tremor” (Sl 2.11), provando uma dor secreta imbuída de esperança; mas confessar também aos ouvidos dos filhos dos homens que acreditam, que compartilham minha alegria e são meus parceiros na imortalidade, meus concidadãos e colegas peregrinos, que partiram antes de mim ou que seguirão mais tarde, meus companheiros de viagem. Esses são teus servos, meus irmãos, que tu quiseste que fossem teus filhos; meus senhores, que me mandaste servir se eu quiser viver contigo e em ti. Mas essa tua Palavra teria pouco valor para mim se tivesse sido uma ordem proferida apenas com palavras, sem ser antecipada por tua intervenção. Isso portanto eu o faço por palavras e ações, sob as tuas asas. Em grande risco incorreria, se minha alma não se abrigasse sob tuas asas e se minha fraqueza não te fosse conhecida. Eu não me basto, mas meu Pai sempre vive, e meu Defensor me basta. Pois aquele por quem fui gerado e por quem sou defendido é o mesmo: e tu mesmo és todo o meu bem; tu, Onipotente, que estás comigo. Sim, desde antes de eu estar contigo. A essas pessoas, portanto, que tu me mandaste servir eu revelarei não o que fui, mas o que sou agora, o que continuarei sendo. Mas “nem eu julgo a mim mesmo” (1Co 4.3). Assim é que eu gostaria de ser ouvido.' [Confissões X.5-6]

'[...] Mas o que eu amo quando te amo? Não é a beleza dos corpos, nem a bela harmonia do tempo, nem o brilho da luz, tão agradável aos olhos, nem as suaves melodias de vários tipos de canções, nem a fragrância das flores e perfumes e especiarias, nem o maná e o mel, nem os membros tão bem-vindos num amoroso abraço. Não amo nada disso quando amo meu Deus. No entanto, gosto de uma espécie de luz, melodia, fragrância, alimento e abraço, quando amo meu Deus: a luz, a melodia, a fragrância, o alimento, o abraço do homem interior. Ali brilha aquela luz sobre minha alma, que o espaço não pode conter; ali soa o que o tempo não nos rouba; ali rescende o que a brisa não dispersa; ali se saboreia o alimento que, consumido, não diminui sua porção; ali está o abraço que nenhuma saciedade separa. Isso é o que eu amo quando amo meu Deus.' [Confissões X.8]

'[...] Perguntei ao mar e às profundezas e aos seres rastejantes, e eles responderam: “Nós não somos o teu Deus. Procure acima de nós”. Perguntei ao ar fugaz, e todo o ar com seus habitantes me respondeu: “Anaxímenes se enganou; eu não sou Deus”. Perguntei aos céus, ao sol, à lua e às estrelas. “Nós não somos o Deus que tu procuras”. E eu repliquei a todas as coisas que cercam a porta de minha carne: “Vocês me falaram do meu Deus afirmando que não são ele. Digam-me alguma coisa a respeito dele”. E elas todas em uníssono clamaram: “Ele nos criou”.[...] Mas o melhor é o ser interior, pois é a ele, que preside e julga, que são levadas todas as mensagens físicas, da terra e do céu e de tudo o que neles existe. E todas as coisas responderam: “Nós não somos Deus, mas ele nos criou”. Disso meu homem interior tinha conhecimento graças ao ministério do homem exterior. Eu, o homem interior, sabia disso. Eu, o intelecto, por meio dos sentidos do corpo, perguntei a toda a estrutura do mundo acerca de meu Deus. E ela me respondeu: “Eu não sou ele, mas ele me criou”.' [Confissões X.9]

'15. Grande é o poder da memória, extremamente grande, ó meu Deus; um espaço vasto e sem limites! Quem jamais sondou suas profundezas! No entanto, esse é o poder de minha mente e ele pertence à minha natureza. Nem eu mesmo compreendo tudo o que sou. Por isso, a mente é limitada demais para conter a si mesma. E onde deveria estar o que ela não consegue conter? Está fora dela, não dentro dela? Como então ela não compreende a si mesma? Uma estupenda admiração me surpreende. Sou tomado de assombro. Os homens saem por aí para admirar as alturas das montanhas, a vastidão do oceano e as órbitas das estrelas, e passam ao largo de si mesmos. Eles não se admiram de que, quando falei de todas essas coisas, eu não as via com meus olhos; contudo, eu não poderia ter falado delas se de fato não visse as montanhas, os vagalhões, os rios, as estrelas que tinha visto, e aquele oceano que acredito existir, dentro de minha memória, e todas essas coisas entremeadas pelos mesmos vastos espaços como se eu as visse fora de mim. Todavia, ao vê-las eu não as arrastei para dentro de mim, quando com meus olhos as contemplei. Elas em si mesmas não estão comigo; estão apenas suas imagens. No entanto, eu sei por meio de qual sentido do corpo cada uma delas ficou gravada em mim.' [Confissões X.15]

'26. Grande é o poder da memória! É uma coisa tremenda, ó meu Deus, uma multiplicidade profunda e sem limites. E essa coisa é a mente, e isso sou eu mesmo. O que sou eu, ó meu Deus? Qual é minha natureza? Uma vida multiforme, multifacetada e extremamente imensa. Contemplem-se as planícies, as grutas e as cavernas da memória, inumeráveis e inumeravelmente repletas de inúmeras espécies de coisas, seja por meio de imagens, como no caso de todos os corpos, seja por meio da presença real, como no caso das artes, ou seja, por meio de certas noções ou impressões, como no caso dos sentimentos da mente, que, até mesmo enquanto a mente não os experimenta, a memória retém, enquanto qualquer coisa que está na memória também está na mentesobre tudo isso eu passo correndo, voando; mergulho aqui e ali, atingindo o nível máximo possível, e a coisa não tem fim. Tão grande é o poder da memória, tão grande é o poder da vida, mesmo na vida mortal do homem. Que devo então fazer, ó tu, minha verdadeira vida, meu Deus? Irei além desse meu poder que se chama memória: sim, irei além dele, para poder me aproximar de ti, ó doce Luz. Que me dizes tu? Tu, que resides acima de mim, bem vês que, com minha mente, estou subindo em direção a ti, que resides acima de mim. Sim, agora irei além desse meu poder que se chama memória, levado pelo desejo de alcançar a ti, lá onde tu podes ser alcançado; e agarrar-me a ti, lá onde isso é possível. Pois até os animais e as aves têm memória; caso contrário, eles não conseguiriam voltar para suas tocas e ninhos, tampouco fazer muitas outras coisas que costumam fazer.' [Confissões X.26]

'34. Mas por que “a verdade gera o ódio” e aquele teu servidor, que prega a verdade, torna-se inimigo dos homens, se prezar uma vida feliz nada mais é do que alegrar-se com a verdade? Será que o amor à verdade leva os que amam alguma outra coisa diferente dela a desejar que essa outra coisa seja a verdade que eles amam? Pelo fato de não estarem dispostos a ser enganados, eles não estão dispostos a se convencer de que foram enganados. Por isso, odeiam a verdade, por causa dessa outra coisa que eles amaram em vez da verdade. Eles gostam da verdade quando ela traz luz; mas a odeiam quando ela os censura. Pois, uma vez que não querem ser enganados e, no entanto, estão dispostos a enganar, eles a amam quando ela se revela a eles e a odeiam quando ela os mostra às claras. Por isso ela os castigará, de modo que eles, que não gostariam de ser mostrados por ela, sejam mostrados à revelia, ao mesmo tempo que ela a eles não se mostra. É assim, é assim, é exatamente assim mesmo que a mente humana atua: tão cega e doente, tão vil e grosseira, ela quer permanecer escondida, mas não quer que coisa alguma dela se esconda. Mas, como castigo, o contrário lhe acontece: ela não pode esconder-se da verdade, mas dela a verdade se esconde. Todavia, mesmo nesse estado miserável, a alma humana prefere alegrar-se com verdades a alegrar-se com mentiras. Feliz será então quando, livre de qualquer obstáculo, ela se alegrar naquela única Verdade, pela qual todas as coisas são verdadeiras.' [Confissões X.34]

'38. Tarde demais eu te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova! Tarde demais eu te amei! E eis que tu estavas dentro de mim, enquanto eu estava fora; era lá fora que te procurava. Criatura deformada, mergulhei de cabeça nesses objetos de beleza que tu criaste. Tu estavas comigo, mas eu não estava contigo. Elas me detiveram longe de ti, essas coisas belas que, se não estivessem em ti, simplesmente não existiriam. Tu me chamaste, gritaste e rompeste minha surdez. Tu reluziste, brilhaste e aniquilaste minha cegueira. Tu espalhaste doces perfumes, e eu os inalei e suspirei por ti. Degustei, e senti fome e sede. Tu me tocaste, e eu senti um desejo ardente de tua paz. 
39. Quando com todo o meu ser eu me agarrar a ti, não haverá mais nem tristeza nem labuta. Minha vida será plena, repleta de ti. Mas agora, uma vez que aquele que tu enches também elevas, por não estar repleto de ti, eu sou um peso para mim mesmo. Alegrias lamentáveis lutam contra tristezas alegres; de que lado está a vitória eu não sei. Ai de mim!Ouve, SENHOR, e tem misericórdia de mim” (Sl 30.10). Ai de mim! Vê que não escondo minhas feridas. Tu és o médico, eu o paciente. Tu és misericordioso, eu miserável.Não é pesado o labor do homem na terra?” (Jó 7.1). Quem deseja problemas e dificuldades? Tu ordenaste que os homens suportassem essas situações, não que as amassem. Ninguém ama o que suporta, embora goste do fato de suportar. Pois embora alguém se alegre com o fato de saber suportar, todo mundo preferiria não ter de suportar nada. Na adversidade, eu anseio pela prosperidade; na prosperidade, temo a adversidade. Não existe um lugar intermediário entre essas duas situações, onde a vida do homem não seja um “pesado labor”? Muitas vezes a prosperidade neste mundo traz infelicidade por causa do medo da adversidade e da corrupção da alegria. Há também infelicidade causada pelo desejo ardente de prosperidade porque a adversidade em si é uma coisa cruel e ameaça destruir a resignação. “Não é pesado o labor do homem na terra”, sem trégua alguma? 
40. E toda a minha esperança está depositada exclusivamente em ti, minha imensa misericórdia. Concede-me o que me ordenas e ordena-me o que quiseres.' [Confissões X.38-40]

'[...] Também ouvi alguém [Apóstolo Paulo] dizer: “Aprendi a adaptar-me a toda e qualquer circunstância. Sei o que é passar necessidade e sei o que é ter fartura. Aprendi o segredo de viver contente em toda e qualquer situação, seja bem alimentado, seja com fome, tendo muito, ou passando necessidade. Tudo posso naquele que me fortalece” (Fp 4.11-13). Ali está um soldado do exército celeste, não o pó que somos nós. Mas lembra-te, Senhor, “que somos pó” e que tu criaste o homem do pó (Sl 103.14; cf. Gn 3.19) e que ele “estava perdido e foi achado” (Lc 15.32). Ele não poderia, por si só, fazer isso. Pois mesmo aquele [Apóstolo Paulo] que eu tanto amei ao ouvi-lo dizer, isso graças ao sopro de tua inspiração, era feito do mesmo pó.Tudo posso”, diz ele, “naquele que me fortalece”. Fortalece-me para que eu também possa. Concede-me o que me ordenas e ordena-me o que quiseres.' [Confissões X.45]

'[...] Naquele imenso armazém de minha memória, investiguei algumas coisas, depositei outras e outras retirei. Ainda não era eu mesmo que fazia aquilo, nem eras tu, pois tu és a luz permanente, que eu consultava sobre todas essas coisas, querendo saber se elas existiam, o que eram e como deviam ser avaliadas. E eu te ouvia dirigindo-me e governando-me. Faço isso com frequênciao que me dá prazere, na medida em que minhas obrigações me permitem, esse tipo de prazer é meu refúgio. Em nenhuma dessas coisas que recapitulo consultando a ti consigo encontrar algum lugar seguro para minha alma, exceto em ti. Em ti meus dispersos anseios podem se reunir, e nada, de mim, de ti se afasta. Às vezes tu me deixas entrar no ponto mais profundo do ser, e eu provo um sentimento raro, extraordinário, que me eleva para uma estranha doçura que se em mim fosse perfeita eu não saberia dizer o que nela não pertence à vida futura. Mas sob a carga de minhas pobres obrigações, volto a afundar-me em atividades inferiores e sou empurrado de volta para o hábito anterior. Sinto-me então preso. Choro muito; contudo, permaneço firmemente preso. Tal é o peso de um mau hábito que nos prende ao chão. Aqui posso permanecer, mas não é o que eu quero; lá eu queria permanecer, mas não consigo. De um e de outro jeito sinto-me infeliz.' [Confissões X.65]

'68. Mas o verdadeiro Mediador, que tu em tua secreta misericórdia mostraste aos humildes e enviaste àqueles que, seguindo o exemplo dele, também puderam aprender a mesma humildade, aquele “mediador entre Deus e os homens: o homem Cristo Jesus” (1Tm 2.5), apareceu entre os pecadores mortais e o Justo Imortal [Deus]; mortal com os homens, justo com Deus; para que, com o salário da justiça que é a vida e a paz, ele pudesse por meio de uma justiça vinculada a Deus esvaziar a morte dos pecadores, agora justificados, morte que ele quis compartilhar com eles. Por isso ele foi mostrado aos santos de outrora; para que assim eles pudessem ser salvos por meio da fé em sua futura Paixão, como nós fomos salvos por meio da fé na sua Paixão já passada. Pois, como homem, ele foi um mediador; mas, como a Palavra, não ocupou nenhuma posição entre Deus e o homem, porque era igual a Deus, e Deus igual a ele, e juntos eram um único Deus
69. Como tu nos amaste, bom Pai, tu que não poupaste teupróprio Filho, mas o entregaste por todos nós” (Rm 8.32). Como nos amaste tu, que, em nosso benefício, não consideraste queo ser igual a Deus era algo a que devias apegar-te”, mas te humilhaste e foste “obediente até a morte, e morte de cruz!” (Fp 2.6,8). Esse Deus, que é único, está isento da morte entre os mortos e pode dar sua vida, pois tem “autoridade para dá-la e para retomá-la” (Jo 10.18), em nosso benefício, sendo ao mesmo tempo o Vencedor e a Vítima e, portanto, Vencedor por ser Vítima; em nosso benefício, sendo o Sacerdote e o Sacrifício e, portanto, o Sacerdote por ser o Sacrifício; tornando-nos teus filhos mais que teus servos, por ter ele nascido de ti e por nos servir. Com razão, portanto, nele deposito minha firme esperança de que tucurarás todas as minhas doenças” (Sl 103.3), por Aquele queestá à direita de Deus, e também intercede por nós” (Rm 8.34). Se não fosse assim, eu deveria cair no desespero. Pois muitas e grandes são as fraquezas, muitas e grandes; mas teu remédio é mais poderoso. Poderíamos pensar que tua Palavra distanciou-se de qualquer contato com os homens e perder a esperança de nos salvar, mas “a Palavra tornou-se carne e viveu entre nós” (Jo 1.14).' [Confissões X.68-69]

'70. Atemorizado por meus pecados e pelo peso de minha miséria, eu sentia o coração deprimido e tinha planejado retirar-me para o deserto, mas tu me proibiste e me fortaleceste, dizendo: “Cristo morreu por todos para que aqueles que vivem já não vivam mais para si mesmos, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou” (2Co 5.15). Vê, Senhor, eu “entrego a ti as minhas preocupações”, para que possa viver (Sl 55.22), e pondero coisas maravilhosas baseando-me em tua lei. Tu conheces minha carência de sabedoria e minhas enfermidades. Ensina-me e cura-me. Teu Filho unigênito, no qual “estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento” (Cl 2.3), me redimiu com seu sangue. Que os orgulhosos não me critiquem, porque estou meditando sobre a minha salvação, que como, e bebo, e compartilho. Pois eu, sendo pobre, desejo satisfazer-me dele, em comunhão com os que comem e se sentem satisfeitos; “aqueles que buscam o SENHOR o louvarão!” (Sl 22.26).' [Confissões X.70]

04 junho 2025

Livro: "Confissões" [VIII e IX]

Alguns trechos dos livros VIII e IX de "Confissões", de Agostinho de Hipona, particularmente os trechos que relatam o estágio definitivo da sua conversão, destacando-se a magnífica providência de Deus ao usar amigos [Alípio, Nebrídio, Verecundo] que estavam ao seu redor, ou que faziam parte da sua vida, além de sua mãe [Mônica], que se alegrou pela conversão de Agostinho:

'Depois, nesse renhido combate interior, que eu havia travado com minha alma, no quarto do meu coração, com a angústia estampada na cara, fui procurar Alípio. “O que nos aflige?”, exclamei. “O que é isso? Que foi que você ouviu? Os incultos se insurgem e ‘o Reino dos céus é tomado à força’ (Mt 11.12), e nós, com toda a nossa erudição e o coração vazio, chafurdamos na carne e no sangue. Será que temos vergonha de ir adiante porque outros nos precederam, e não temos vergonha de não fazer absolutamente nada?”. Proferi algumas palavras nesse sentido, e minha mente febril afastou-me de Alípio, que ficou em silêncio olhando-me assustado. Não era meu hábito usar aquele tom. Minha testa, as bochechas, os olhos, a cor e o tom da voz expressavam meu pensamento mais que as palavras. Nosso alojamento tinha um pequeno jardim que podíamos usar como todo o resto da casa, pois o dono dela, nosso anfitrião, não morava lá. Para aquele jardim fugi às pressas levado pelo tumulto que me oprimia o peito. Ali ninguém podia entravar a acalorada disputa que eu travava comigo mesmo, até que ela terminasse como tu sabias que terminaria, mas eu não. Eu só sabia que estava salutarmente perturbado, morrendo para viver. Sabia o que de mal havia em mim, mas não sabia o que de bom estava prestes a me acontecer. Fui para o jardim, e Alípio me seguiu. A presença dele não diminuiria minha privacidade, e ele não poderia me abandonar quando eu estava tão perturbado. Sentamo-nos no ponto mais distante da casa. Meu espírito estava perturbado.' [Confissões VIII.19]

'Doente na alma e atormentado estava eu, e me acusava mais duramente do que de costume, debatendo-me até romper todas as amarras que, embora já fracas, ainda me prendiam. E tu, ó Senhor, com tua rigorosa misericórdia, me pressionavas no fundo da alma, redobrando as chicotadas do medo e da vergonha para que eu não desistisse, e assim aquela tênue amarra que sobrava recuperasse sua resistência e me prendesse ainda mais.' [Confissões VIII.25]

'29. Assim eu falava e chorava, no mais amargo sentimento de contrição, quando eis que, de repente, provindo de uma casa na vizinhança, ouço uma voz, como a de um menino ou menina, não sei, cantando e repetindo muitas vezes: “Pegue e leia. Pegue e leia. Imediatamente meu rosto se alterou, e eu comecei a pensar, concentrando-me ao máximo, se as crianças costumavam, em alguma de suas brincadeiras, cantar aquelas palavras. Não consegui lembrar-me de ter jamais ouvido algo semelhante. Então, controlando a torrente de lágrimas, levantei-me, interpretando aquilo como nada menos do que uma ordem de Deus, de abrir o livro e ler a primeira passagem que descobrisse ao acaso. Eu, na verdade, tinha ouvido dizer sobre Antão que, entrando na igreja durante a leitura do Evangelho, havia recebido o seguinte conselho, como se estivesse sendo lido e dirigido a ele pessoalmente: “Vá, venda os seus bens e dê o dinheiro aos pobres, e você terá um tesouro nos céus. Depois, venha e siga-me” (Mt 19.21). Ao receber essa orientação, ele imediatamente se converteu a ti. Voltei ansioso para o local onde Alípio estava sentado, pois lá havia deixado o volume do apóstolo. Peguei-o, abri e li em silêncio a primeira passagem que caiu sob meu olhar:Não em orgias e bebedeiras, não em imoralidade sexual e depravação, não em desavença e inveja. Ao contrário, revistam-se do Senhor Jesus Cristo, e não fiquem premeditando como satisfazer os desejos da carne” (Rm 13.13-14). Não precisei continuar a leitura, nem era necessário: imediatamente, ao final dessa frase, como se eu tivesse sido exposto a uma luz serena que invadia meu coração, todas as negras sombras da dúvida desapareceram
30. Em seguida, fechei o livro usando um dedo ou outra coisa qualquer para marcar a página, e calmamente revelei a Alípio o que havia lido. O que aconteceu no seu íntimo, sem que eu o soubesse, ele me mostrou. Pediu-me para ler o que eu havia lido, e eu lhe mostrei. Ele leu e prosseguiu na leitura, e eu não sabia o que vinha em seguida. Era isto: “Aceitem o que é fraco na fé” (Rm 14.1), que ele aplicou a si mesmo e o revelou a mim. E com esse conselho ele se fortaleceu. Com boa resolução e propósito, correspondendo ao máximo ao seu caráter, que sempre foi muito diferente e melhor do que o meu, sem nenhum turbulento adiamento, juntou-se a mim. Em seguida, fomos procurar minha mãe [Mônica]. Contamos-lhe o que acontecera. Ela se rejubilou. Relatamos em que ordem os fatos se sucederam. Ela exultou triunfante e bendizendo a ti...' [Confissões VIII.29-30]

'Verecundo ficou seriamente perturbado com minha felicidade. Preso a vínculos inflexíveis, ele viu que deveria separar-se de mim. Ele mesmo não era cristão, mas sua mulher o era. No entanto, com mais firmeza do que qualquer outra cadeia, ele estava preso e impedido de empreender a viagem que eu agora iniciava. Pois, como ele [Verecundo] mesmo declarou, não se tornaria cristão em nenhuma outra situação que não fosse aquela para ele então impossível. Todavia, generosamente, ele nos ofereceu sua casa de campo, enquanto ficássemos por lá. Tu, ó Senhor, o recompensarás “na ressurreição dos justos” (Lc 14.14), vendo que já lhe deste o quinhão dos justos. Pois, quando eu já estava ausente, em Roma, ele foi acometido de uma enfermidade física, durante a qual se fez cristão, um de teus fiéis, e depois deixou esta vida.Deus teve misericórdia dele, e não somente dele, mas também de mim” (Fp 2.27), evitando que a lembrança da extrema bondade de meu amigo, sem poder vê-lo participando do teu rebanho, fosse para mim uma tortura intolerável. Graças a ti, meu Deus, nós somos teus. Tuas sugestões e teu consolo nos dizem que tu, fiel em tuas promessas, agora recompensas Verecundo pela casa de campo de Cassicíaco que ele nos cedeu para repousarmos em ti, longe da febre deste mundo, com o eterno frescor do teu paraíso. Pois tu lhe perdoaste os pecados cometidos neste mundo lá naquela dadivosa montanha, a montanha onde flui leite, a tua montanha...' [Confissões IX.5]

'Naquela época Verecundo sofria, mas Nebrídio se alegrava. Pois embora ele [Nebrídio] também, não sendo ainda cristão, houvesse caído naquele abismo do mais pernicioso erro que o levava a crer que o corpo de teu Filho era um fantasma, agora emergia dele adotando a mesma crença que nós. Mesmo que ainda não fosse iniciado nos sacramentos da tua Igreja, ele era o mais ardente perseguidor da verdade. Logo após nossa conversão e regeneração pelo teu batismo, Nebrídio tornou-se um membro fiel da Igreja [...] e, servindo-te em perfeita castidade e continência entre sua gente na África, promoveu a conversão de toda a sua família; em seguida, foi libertado por ti de seu corpo e agora vive no seio de Abraão. O que quer que esse seio signifique, lá está Nebrídio, meu caro amigo e teu filho, ó Senhor, antes liberto, agora adotivo. Lá está ele. Pois que outro lugar existe para uma alma assim? Naquele lugar está ele sobre o qual tantas perguntas dirigiu a mim, pobre ser humano inexperiente. Agora ele não mais aproxima seus ouvidos de minha boca, mas achega sua boca espiritual à tua Fonte, bebendo sabedoria no grau máximo possível de acordo com sua sede, infinitamente feliz. Mas não acho que essa fonte de sabedoria o deixe tão inebriado a ponto de ele se esquecer de mim, sabendo que tu, Senhor, que és sua bebida, te preocupas conosco. Assim, lá estava eu então consolando Verecundo, que, sem perder a amizade, lamentava que minha conversão tivesse aquelas consequências. Eu o aconselhei a aceitar a fé, respeitando sua condição de homem casado; e esperava que Nebrídio seguisse meus passos, o que ele estava muito prestes a fazer. E assim, de repente, aqueles dias finalmente se foram.' [Confissões IX.6]

'7. Chegou o dia em que eu, de fato, me livraria do cargo de professor de retórica, do qual mentalmente já me livrara. E aconteceu. Tu resgataste minha língua de onde já havias resgatado o coração. Eu te agradeci em júbilo, e me retirei com toda a minha família para a casa de campo [Cassicíaco]. O que lá realizei em matéria de textos escritos, agora que estava registrado a teu serviço (embora, nesse intervalo, minha respiração ainda fosse ofegante devido aos esforços feitos na escola do orgulho), é atestado por meus livros, bem como pelos debates travados com outros ou comigo mesmo diante de ti. Prova disso são minhas cartas a Nebrídio, que na época estava ausente. E quando terei tempo para relatar os grandes benefícios que recebemos naquela época, especialmente agora quando corro em direção a graças mais importantes? Guardo na memória, e para mim é agradável, ó Senhor, confessar a ti com que estímulos interiores tu me subjugaste; e como tu me tornaste humilde, “aplanando montes e colinas” de ambiciosos sonhos (Is 40.4), fazendo “veredas retas” e “nivelando estradas acidentadas” (Lc 3.4-5); e como tu subjugaste também Alípio, meu irmão de coração, que aceitou o nome de teu Unigênito, nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, nome que antes ele não queria ver incluído em nossos escritos. Ele então preferia que estes tivessem o cheiro dos altaneiros cedros das escolas, já despedaçados pelo Senhor, e não o aroma das ervas sadias da Igreja, o antídoto contra serpentes. 
8. Ah, com que clamores eu falava contigo, meu Deus, quando lia os salmos de Davi, aqueles piedosos poemas e cantos de devoção, que não dão margem alguma para o orgulho! Eu ainda era um catecúmeno, um noviço no teu verdadeiro amor. Repousava naquela casa de campo [Cassicíaco] junto com Alípio, outro catecúmeno. Minha mãe [Mônica] sempre estava junto a nós, em trajes de mulher, mas com sua fé viril, com aquela paz tranquila da idade e a plenitude do amor materno e da piedade cristã. Ah, que clamores eu dirigia a ti naqueles salmos! Como eles me inflamavam e me incutiam ardentes desejos de cantá-los, se possível, pelo mundo inteiro, contra o orgulho da humanidade. Todavia, no mundo inteiro eles são cantados, e “nada escapa ao seu calor” (Sl 19.6). Com que potentes e amargos lamentos eu me indignava contra os maniqueístas! E ao mesmo tempo sentia pena deles [compaixão/misericórdia]. Não conheciam os sacramentos, os verdadeiros remédios, e esbravejavam como loucos contra o antídoto que poderia curá-los de sua loucura.' [Confissões IX.7-8]

'23. Aproximando-se agora o dia de sua [Mônica] partida deste mundo (o dia que tu conhecias, nós não), creio que por determinação de teus secretos desígnios que assim o quiseram, aconteceu que ela e eu estávamos a sós, debruçados a uma janela que se abria para o jardim da casa onde nos hospedávamos em Óstia. Ali, longe das multidões, nos refazíamos do cansaço de uma longa jornada, preparando-nos para seguir viagem. Numa conversa a sós, muito agradável, esquecendo-nos “das coisas que ficaram para trás e avançando para as que estão adiante” (Fp 3.13), discutíamos na presença da Verdade, que és tu, como é a vida eterna dos santos, que “olho nenhum viu, ouvido nenhum ouviu, mente nenhuma imaginou” (1Co 2.9). Muito se abria a boca de nosso coração, querendo beber da água corrente de tua fonte, “a fonte da vida” (Sl 36.9), que és tu. Queríamos ser aspergidos segundo nossa capacidade com algum poder especial para podermos meditar sobre um mistério tão grande
24. Depois nossa conversa atingiu um nível tão elevado que nem mesmo o maior prazer dos sentidos físicos, naquela luz pura, cotejada com a doçura daquela vida por vir parecia não merecer comparação nem sequer menção. Transportados por um sentimento superior, elevamo-nos até a essência do ser, ultrapassando aos poucos todas as coisas físicas, atingindo até o próprio céu, de onde nos chega o brilho da lua, do sol e das estrelas. Sim, pairávamos ainda mais alto em nossa meditação, conversa e admiração de tuas obras. E chegamos à nossa mente e a ultrapassamos, para que pudéssemos atingir aquela região da inesgotável abundância, onde tu apascentas Israel com o alimento da verdade, onde a vida é “a Sabedoria, artífice do mundo” (Sb 7.21, BJ) e do que existiu e do que existirá.' [Confissões IX.23-24]

'26. Essas coisas eu ia dizendo, embora não exatamente desse jeito e com essas mesmas palavras. Mas tu sabes, Senhor, que naquele dia quando falávamos disso, e este mundo com todas as suas delícias tornou-se, durante a conversa, desprezível aos nossos olhos, minha mãe [Mônica] disse: “Filho, de minha parte já não tenho nenhum prazer nesta vida. Não sei por que ainda continuo aqui, agora que minhas esperanças neste mundo foram satisfeitas. Havia uma coisa que me fazia querer ficar por mais um tempo nesta vida: poder ver você como cristão [...] antes de minha morte. Meu Deus me concedeu essa graça e do modo mais que generoso, pois agora vejo você desprezando a felicidade terrena, transformando-se num servo dele. O que estou fazendo aqui?”. 
27. Não me lembro que resposta eu dei a essas coisas que ela [Mônica] disse. Pois não mais que cinco dias após isso, ela contraiu uma febre muito alta. Durante a enfermidade, perdeu a consciência e, por um breve espaço de tempo, afastou-se deste mundo visível. Reunimo-nos às pressas a seu redor. Ela recuperou os sentidos. Olhando para mim e meu irmão junto a ela, perguntou-nos: “Onde estava eu?”. E depois, fitando-nos, impressionada com nosso silêncio, disse: “Aqui vocês devem enterrar sua mãe”. Mantive meu silêncio e parei de chorar. Mas meu irmão disse alguma coisa, desejando-lhe uma sorte melhor: que ela não viesse a morrer numa terra estranha, mas sim em seu próprio país. Ao que ela, com expressão ansiosa, fixando nele seus olhos, pois ele ainda valorizava essas coisas, e depois olhando para mim, disse: “Veja só o que ele diz!”. E logo em seguida, dirigiu-se a nós dois: “Enterrem este corpo em qualquer lugar. Que isso não seja de modo algum motivo de preocupação para vocês [...]”. Depois de expressar esse desejo com as palavras que conseguiu proferir, ela se calou, sentindo o recrudescimento da dor da enfermidade.' [Confissões IX.26-27]

'[...] Também ouvi contar mais tarde que, quando já estávamos em Óstia, um dia, durante minha ausência, com confiança maternal ela [Mônica] conversou com alguns amigos sobre seu desprezo por esta vida e sobre a bênção da morte. Quando eles, assombrados com essa coragem que tu havias concedido a uma mulher, perguntaram se não tinha medo de deixar seu corpo tão longe de sua cidade natal, ela respondeu: “Nada se situa longe de Deus. E não se deve temer que no fim do mundo ele não consiga reconhecer de onde nos deve ressuscitar”. No nono dia de sua enfermidade, aos 56 anos de vida, quando eu tinha 33, aquela alma santa e religiosa foi libertada de seu corpo.' [Confissões IX.28]

'[...] Deitado sozinho em meu leito, lembrei-me da verdade daqueles versos do teu Ambrósio. Pois tu és:
O Criador de todas as coisas, o Senhor, 
O Soberano das alturas 
Que, vestindo o dia de luz, derramaste 
Uma suave sonolência sobre a noite, 
Para que em nossos membros a força 
Do trabalho fosse renovada, 
E reanimados fossem os corações desalentados e abatidos, 
E as tristezas fossem suavizadas.
[Confissões IX.32]

'[...] Dei vazão às lágrimas antes reprimidas: podiam agora extravasar à vontade. Nelas repousou meu coração; nelas ele encontrou descanso, pois quem as ouvia eram teus ouvidos, não os ouvidos dos homens, que teriam interpretado meu choro com desdém. E agora, Senhor, a ti o confesso por escrito. Que leia isso quem quiser e como quiser. Se alguém encontra pecado nisso, no fato de eu chorar a morte de minha mãe [Mônica] por uma pequena fração de uma hora (a mãe que por um breve espaço de tempo esteve morta a meus olhos, aquela que por muitos anos chorou por mim para que eu vivesse aos teus olhos), que essa pessoa chore por meus pecados diante de ti, o Pai de todos os irmãos do teu Cristo.' [Confissões IX.33]

31 maio 2025

Livro: "Confissões" [VI e VII]

Alguns trechos dos livros VI e VII de "Confissões", de Agostinho de Hipona:

'[3]. Eu ainda não gemia em minhas orações pedindo que me ajudasses. Mas meu espírito estava totalmente concentrado na aprendizagem e, impaciente, desejava uma discussão. Considerava Ambrósio um homem feliz, pelos critérios do mundo, que tem as grandes pessoas em alta estima. Apenas seu celibato me parecia um problema difícil. Mas eu não podia imaginar, por não ter tido sua experiência, que esperança havia em seu íntimo, que lutas ele travava contra a tentação que atacava suas qualidades superiores ou que conforto nas adversidades ou que doces alegrias teu pão proporcionava à boca oculta de seu espírito. Ele tampouco conhecia as marés de meus sentimentos, ou as profundezas do meu perigo. Pois eu não podia perguntar-lhe o que queria como queria, por ser excluído de seus ouvidos e de sua conversa por multidões de pessoas ocupadas, de cujas fraquezas ele {Ambrósiocuidava. Quando não estava ocupado com gente nessas condições, no pouco tempo que lhe restava, ou ele estava revigorando seu corpo com o alimento absolutamente indispensável, ou sua mente estava lendo. Durante a leitura, seus olhos deslizavam sobre as páginas, e seu coração procurava o sentido, mas sua voz e língua permaneciam em repouso. Muitas vezes quando aparecíamos (pois ninguém era proibido de entrar, e não era seu costume exigir que quem aparecesse fosse anunciado), nós o víamos lendo em silêncio, nunca de outra forma. Ficávamos lá sentados por um longo tempo (pois quem ousaria perturbar alguém tão concentrado?), depois tendíamos a ir embora, imaginando que, naquele breve espaço de tempo que ele conseguia, longe da grande confusão das outras atividades, para revigorar sua mente, ele não queria ser perturbado. E talvez temendo que, se o autor tratava obscuramente de algum assunto que ele devia explicar a algum de seus ouvintes mais atentos ou confusos, ou de algum assunto que discutia algumas das questões mais difíceis, se ele gastasse seu tempo para outras coisas, não poderia consultar todos os volumes desejados. Mas a preservação de sua voz (que um breve discurso enfraquecia) talvez fosse a razão mais verdadeira de sua leitura silenciosa. Fosse qual fosse sua intenção, com certeza num homem como ele ela era boa.
[4]. Eu, porém, certamente não tinha nenhuma oportunidade de perguntar o que queria àquele teu santo oráculo {Ambrósio}, seu coração, a não ser que o assunto pudesse ser resolvido numa resposta breve. Mas as paixões que eu tinha dentro de mim para derramar sobre ele exigiam todo o seu tempo livre, e nunca o consegui.' [Confissões VI.3,4
<***Os trechos destacados acima parecem ser relevantes para o contexto do Aconselhamento Bíblico, considerando-se que Ambrósio era o Ministro da Palavra em Milão***>
 
'Tu, então, ó Senhor, pouco a pouco, com tua mão delicadíssima e cheia de misericórdia, tocando e recompondo o meu coração, me persuadiste, levando-me a considerar o número infinito de coisas em que acreditava sem tê-las visto e sem estar presente quando aconteceram, como tantos fatos da história secular, tantos relatos de lugares e de cidades que eu não tinha visto; tantos amigos, tantos médicos, tantos outros homens; se não acreditássemos nisso, nada poderíamos fazer nesta vida; enfim, com que inabalável certeza eu sabia dizer de que pai e mãe eu tinha nascido, coisa que eu não podia saber, se não acreditasse no que ouvira contar; levando-me a considerar tudo isso, tu me convenceste de que não os que acreditavam nos teus Livros (que tu estabeleceste com tão grande autoridade entre todas as nações), mas sim os que neles não acreditavam deviam ser censurados; não mereciam ser ouvidos os que me diziam: “Como você sabe que aquelas Escrituras foram concedidas à humanidade pelo Espírito do único verdadeiro Deus?”. Pois exatamente essa verdade era a que mais merecia crédito, uma vez que nenhum espírito litigioso de questionamentos blasfemos, dentre os inúmeros que eu tinha lido nos textos contraditórios de filósofos, podia arrancar de mim esta crença: “Que tu existes” (embora eu não soubesse o que poderias ser) e “Que o governo das coisas humanas te pertence”.' [Confissões VI.7]

'[...] Nisso eu acreditava, às vezes de modo mais intenso, às vezes menos; mas sempre acreditei que tu existes e te preocupas conosco, embora não soubesse o que pensar de tua essência e do que conduzia ou reconduzia a ti. Eu era então demasiado fraco para descobrir a verdade mediante o raciocínio puro: exatamente por isso precisava da autoridade das Sagradas Escrituras. Eu agora havia começado a crer que tu nunca terias conferido uma autoridade tão insuperável a essa Escritura em todas as partes do mundo, se não tivesses a intenção de, com isso, levar as pessoas a crerem em ti e a te procurar. Na verdade agora aquelas coisas que antes pareciam estranhas nas Escrituras, que geralmente me ofendiam, depois de ouvir muitas delas explicadas de modo satisfatório, eu as atribuía à profundidade dos mistérios. Agora a autoridade das Escrituras me parecia mais venerável e mais digna de fé, no sentido de que, embora sua leitura estivesse disponível para todos, ela reservava a majestade de seus mistérios no âmbito de seu significado mais profundo, descendo ao nível de todos na imensa simplicidade de suas palavras e humildade de seu estilo, mas exigindo a máxima aplicação de pessoas sérias. Assim ela pode acolher a todos em seu amplo seio e, através de passagens estreitas, conduzir alguns poucos em direção a ti, em maior número, porém, do que aconteceria se ela não pairasse no alto amparada por tão elevada autoridade; tampouco abrigaria multidões em seu seio se não fosse por sua santa humildade. Sobre isso eu meditava, e tu estavas comigo. Eu suspirava, e tu me ouvias. Eu vacilava, e tu me conduzias. Eu vagava pela ampla estrada do mundo, e tu não me abandonavas.' [Confissões VI.8]

'Agora, ó meu Socorro, tu me havias libertado daquelas cadeias, e eu indagava: “De onde provém o mal?”, sem achar nenhuma resposta. Mas tu não permitias que, devido a alguma das minhas hesitações mentais, eu fosse levado para longe da fé segundo a qual acreditava não só que tu existes, mas também que tua substância é imutável; que tu cuidas de nós e julgarás os homens; que em Cristo, teu Filho e nosso Senhor, e nas Sagradas Escrituras, impostas pela autoridade da Igreja [...], tu havias estabelecido o caminho da salvação da humanidade, visando aquela vida que haverá depois da morte. Com essas verdades seguras e irremovíveis estabelecidas em minha mente, eu indagava ansioso: “De onde provém o mal?”. Que tormentos extravasavam do meu coração, que gemidos, ó meu Deus! Mas até mesmo a isso teus ouvidos estavam abertos, e eu não sabia. E quando em silêncio buscava, aqueles sofrimentos silenciosos de minha alma soavam como altos brados implorando a tua misericórdia. Tu sabes o que eu sofri, e ninguém sabia. [...] No entanto, tudo aquilo subia chegando à tua escuta, tudo aquilo que bramia nos gemidos do meu coração. E meus desejos estavam diante de ti, e a luz dos meus olhos não estava comigo: pois ela estava dentro de mim, e eu estava do lado de fora. E ela não se concentrava em lugar algum, mas eu estava concentrado em coisas contidas num lugar definido, onde não encontrava lugar nenhum para meu descanso. [...] Essas coisas resultavam de minha ferida, pois tu humilhaste o soberbo como alguém que está ferido. Minha arrogância me separava de ti. Sim, minha cara inchada de orgulho fechava-me os olhos.' [Confissões VII.11]

'Mas tu, Senhor,reinarás para sempre” (Sl 102.12); contudo, não te manténs eternamente zangado conosco, porque te compadeces de nosso pó e cinza. Foi do agrado dos teus olhos corrigir minhas deformidades. Com estímulos interiores tu me despertaste para que me sentisse pouco à vontade enquanto não te mostrasses à minha visão interior. Assim, com a mão secreta do teu medicamento, o inchaço diminuiu, e a vista turvada e obscurecida da minha mente, com os unguentos ardidos de tristezas salutares, ia dia a dia sendo curada.' [Confissões VII.12]

'E tu, querendo primeiro me mostrar como “Deus se opõe aos orgulhosos, mas concede graça aos humildes” (Tg 4.6; 1Pe 5.5) e com que grande ato de tua misericórdia tu tinhas traçado para os homens o caminho da humildade, quando tua Palavra se fez carne e habitou entre os homens, providenciaste para mim, por meio de alguém inflado do mais extraordinário orgulho, certos livros dos platônicos, traduzidos do grego para o latim. Neles eu li, não realmente com estas mesmas palavras, mas com este mesmo sentido, reforçado por muitos e diferentes argumentos, que “No princípio era aquele que é a Palavra. Ele estava com Deus, e era Deus. Ele estava com Deus no princípio. Todas as coisas foram feitas por intermédio dele; sem ele, nada do que existe teria sido feito. Nele estava a vida, e esta vida era a luz dos homens. A luz brilha nas trevas, e as trevas não a derrotaram” (Jo 1.1-5). E li que a alma humana, mesmo não sendo ela mesma a luz, dá “testemunho da luz” (v. 8), mas “a Palavra”, sendo Deus, era “a verdadeira luz, que ilumina todos os homens” (v. 9). “Aquele que é a Palavra estava no mundo, e o mundo foi feito por intermédio dele, mas o mundo não o reconheceu” (v. 10). “Veio para o que era seu, mas os seus não o receberam. Contudo, aos que o receberam, aos que creram em seu nome, deu-lhes o direito de se tornarem filhos de Deus” (v. 11-12).' [Confissões VII.13]

'Sendo assim admoestado por aqueles livros para voltar-me para dentro de mim mesmo, entrei no mais fundo de minha alma, tendo a ti como guia. Isso eu consegui porque vieste em meu socorro. Entrei e vi com os olhos da alma, acima de meus próprios olhos e acima de minha mente, a Luz Imutável. Não esta luz comum, que toda carne contempla, nem como se fosse uma luz mais forte da mesma natureza, como se seu brilho fosse muitas vezes multiplicado e com sua grandeza enchesse todo o espaço. Não era assim a luz que vi: era diferente, totalmente diferente de todas as outras. Tampouco pairava sobre minha alma como óleo sobre água, nem como o céu sobre a terra. Mas acima de minha mente, porque a mim me criou; e abaixo dela porque por ela eu fui criado. Quem conhece a verdade sabe o que é essa luz; e quem a conhece conhece a eternidade. O amor a conhece. Ó Verdade que és Eternidade! Ó Amor que és Verdade! Ó Eternidade que és Amor! Tu és meu Deus, por ti suspiro noite e dia. Quando pela primeira vez te conheci, tu me elevaste para que eu pudesse ver que havia coisas que eu poderia vir a enxergar, mas que ainda não via. Tu reduziste a fraqueza de minha visão despejando sobre mim teus mais intensos raios de luz, e eu tremi de amor e assombro [...] E eu ouvi: “Sim, realmente EU SOU O QUE SOU” (Êx 3.14). E ouvi como ouve o coração, e não havia espaço para dúvidas. Eu mais facilmente duvidaria de que estou vivo do que da inexistência da Verdade, “claramente vista por meio das coisas criadas” (Rm 1.20).' [Confissões VII.16]

'“Aquele que é a Palavra tornou-se carne” (Jo 1.14), para que a tua sabedoria, por meio da qual criaste todas as coisas, pudesse fornecer o leite para nossa condição infantil. Pois eu não ainda era humilde o suficiente para aprovar o Senhor Jesus Cristo, nem sabia para onde nos levaria a sua fraqueza. Pois tua Palavra, a eterna Verdade, muito acima das partes da tua criação, eleva os que diante dela se humilham. Mas neste mundo inferior ela construiu para si mesma, usando nossa argila, uma humilde morada, para poder humilhar e conquistar para si aqueles que estivessem dispostos a sujeitar-se a ela, curando-os de sua soberba e fomentando neles o amor, para que eles não avançassem mais em sua autoconfiança, mas, pelo contrário, aceitassem sua própria fraqueza, vendo a seus pés a Divindade humilhada vestindo nossas “roupas de pele” (Gn 3.21), e, exaustos, pudessem entregar-se a ela, para que ela os levantasse.' [Confissões VII.24]

'Mas depois de ler aqueles livros dos platônicos, e tendo assim aprendido a investigar a verdade incorpórea, eu vi “os atributos divinos de Deus, compreendidos por meio das coisas criadas” (Rm 1.20). Mesmo repelido, eu percebia aquilo que, por entre as trevas de minha mente, não me era permitido contemplar, tendo certeza de que tu existias e eras infinito, mas não estavas difuso num espaço, finito ou infinito; e que tu realmente sempre és quem és sem jamais mudar, sem variar em parte alguma, nem em movimento algum; e que todas as outras coisas derivam de ti é um fato provado apenas por esta causa segura: elas existem. Dessas coisas eu tinha certeza, mesmo estando inseguro demais para deleitar-me contigo. Eu tagarelava como se fosse um entendido no assunto, mas se não procurasse o caminho em Cristo, nosso Salvador, provavelmente eu não teria sido instruído, mas destruído. Pois, a essa altura, totalmente imerso em meu próprio castigo, eu havia começado a querer parecer sábio; mas, em vez de me encher de remorso, meu conhecimento me enchia de orgulho. Onde estava aquela edificação do amor a Deus construída sobre o fundamento da humildade, ou quando deveriam aqueles livros [dos platônicos] me ensinar isso? Eu creio que tu quiseste que eu me debruçasse sobre eles, antes de estudar as tuas Escrituras, para que ficasse impresso em minha memória o modo como eles me afetaram e para que, depois, quando eu fosse dominado pelas tuas Escrituras e quando minhas feridas fossem tratadas por tuas mãos que curam, eu pudesse distinguir entre a presunção e a contrição; distinguir entre aqueles que viam para onde deviam ir, mas sem enxergar o caminho, e o caminho que conduzia não apenas a contemplar o país abençoado, mas também a morar nele. Pois se eu primeiro me formasse em tuas Sagradas Escrituras, e se tu, em minha familiarização no uso delas, as tivesses tornado atraentes para mim, e se eu, em seguida, me tivesse debruçado sobre aqueles outros volumes [livros dos platônicos], eles talvez tivessem me afastado do sólido chão da piedade; ou então, se eu tivesse continuado naquela estrutura mental que tinha adquirido neles, poderia ter pensado que ela fora adquirida apenas por meio dos estudos daqueles livros.' [Confissões VII.26]

'[...] Com enorme avidez eu me fixei, então, nos veneráveis escritos do teu Espírito, especialmente os do apóstolo Paulo. Em consequência disso, desapareceram para mim as dificuldades nos pontos em que outrora ele me parecia contradizer a si mesmo, e o texto de seu discurso parecia não concordar com os testemunhos da Lei e dos Profetas. Aqueles textos me pareceram ter sempre o mesmo aspecto, e eu aprendi a “exultar com tremor” (Sl 2.11). Assim comecei, e todas as outras verdades que tinha lido naqueles outros livros, eu as descobri aqui em meio aos louvores à tua graça. Quem a enxerga não deve orgulhar-se, “como se não fosse” uma dádiva, não apenas do que enxerga, mas também da capacidade de enxergar, pois “o que você tem que não tenha recebido?” (1Co 4.7). Por meio disso ele não apenas é exortado a contemplar a ti que és sempre o mesmo, mas também a curar-se e a agarrar-se a ti. Assim, quem não consegue te ver a distância pode, todavia, escolher aquele caminho que leva para ti, para te enxergar e te possuir. Pois “no íntimo do meu ser tenho prazer na Lei de Deus; mas vejo outra lei atuando nos membros do meu corpo, guerreando contra a lei da minha mente, tornando-me prisioneiro da lei do pecado que atua em meus membros” (Rm 7.22-23). [...] “Miserável homem que eu sou! Quem me libertará do corpo sujeito a esta morte? Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor!” (Rm 7.24), que tu geraste coeterno contigo mesmo,como o princípio do teu caminho” (Pv 8.22), em quem o príncipe deste mundo não achou nada digno da morte, e no entanto tu o entregaste à morte, e assim foi apagada a escrita que nos condenava. Isso não está nos escritos dos platônicos. Suas páginas não apresentam a imagem dessa piedade, “a escrita da dívida” (Cl 2.14), o sacrifício que te agrada de “um espírito quebrantado; um coração quebrantado e contrito” (Sl 51.17), a salvação do povo, “a Cidade Santa” (Ap 21.2), “o Espírito como garantia do que está por vir” (2Co 5.5). Nelas [nas páginas dos escritos dos platônicos] ninguém canta: “A minha alma descansa somente em Deus; dele vem a minha salvação. Somente ele é a rocha que me salva; ele é a minha torre segura! Jamais serei abalado!” (Sl 62.1-2). Nelas ninguém ouve o convite dele: “Venham a mim todos os que estão cansados e sobrecarregados” (Mt 11.28). Nelas se desdenham os ensinamentos de teu Filho por ele ser “manso e humilde de coração” (v. 29); “porque escondeste estas coisas dos sábios e cultos, e as revelaste aos pequeninos” (v. 25). [...] Essas coisas penetravam em meu coração de modo admirável, quando eu liao menor dos apóstolos” (1Co 15.9) e meditava sobre tuas obras, tremendo muitíssimo.' [Confissões VII.27]

28 maio 2025

Livro: "Confissões" [IV e V]

Alguns trechos dos livros IV e V de "Confissões", de Agostinho de Hipona:

'Não seja insensata, ó minha alma, nem deixe que o tumulto da loucura ao seu redor ensurdeça os ouvidos do seu coração. Ouça você também. A própria Palavra a chama de volta: ali está o lugar do descanso tranquilo, onde o amor não é abandonado, se ele mesmo não se abandona. [...] Mas eu não me afasto de modo algum, diz a Palavra de Deus. Fixe nela a sua morada, confie a ela tudo o que tem deste mundo, ó minha alma, pelo menos agora que está cansada de vaidades. Confie aos cuidados da Verdade tudo aquilo que recebeu da Verdade, e então nada perderá [...] As partes mortais serão reformadas e renovadas em você: não lhe depositarão no lugar para onde elas descem; mas elas ficarão firmemente unidas a você e subsistirão para todo o sempre diante de Deus, por meio da palavra dele, semente “imperecível, viva e permanente” (1Pe 1.23).' [Confissões IV.16]

'Se as coisas materiais lhe agradam, louve a Deus por elas e retribua seu agrado ao seu Criador, para evitar que essas coisas que lhe agradam desagradem a ele [Deus]. Se as almas lhe agradam, que elas sejam amadas em Deus: pois são mutáveis, mas nele são firmemente estabilizadas; caso contrário, elas passariam e desapareceriam. Que nele elas [as almas] sejam amadas. Você pode e deve dizer-lhes: A ele vamos amar, a ele vamos amar: ele criou todas estas coisas e não está tão distante daqui. Pois ele não as criou e depois foi embora; mas elas são dele e estão nele. Ele está onde se ama a verdade. Está dentro do próprio coração; porém, o coração se desgarrou dele. "Voltem para o seu coração, ó rebeldes" (Is 46.8), e apeguem-se àquele que os criou. Permaneçam com ele, e vocês terão firmeza. Descansem nele, e terão descanso. Para onde vocês querem ir em seus ásperos caminhos? Para onde? O bem que vocês amam vem dele; mas só é bom e agradável em relação a ele, e com justiça se tornará amargo se vocês amarem injustamente qualquer coisa que venha dele, se com isso ele for abandonado. Por que motivo então vocês ainda trilham esses caminhos difíceis e penosos? O descanso não está onde vocês o buscam. O que quer que vocês procurem não vão encontrá-lo onde estão procurando. Vocês buscam uma vida abençoada na terra da morte; ela não está ali. Pois como poderia haver uma vida abençoada onde não há vida?' [Confissões IV.18]

'“Mas nossa verdadeira vida veio ao nosso encontro, carregou a morte e a sufocou na abundância de sua própria vida: com aquela voz de trovão, ele nos chamou de volta para seu lugar secreto, de onde ele veio até nós, primeiro dentro do ventre da virgem onde ele se casou com a criação, nossa carne mortal, para que ela não temesse eternamente ser mortal, e depois disso ‘como um noivo que sai do seu aposento e se lança em sua carreira com a alegria de um herói’ (Sl 19.5). Pois ele não se deteve, mas correu chamando forte com palavras, feitos, morte, descida e ascensão; gritando forte a fim de que voltássemos para ele. Depois ele se afastou de nosso olhar a fim de que pudéssemos voltar para dentro do coração e ali encontrá-lo. Pois ele foi embora e eis que ele está aqui. Ele não permaneceria por muito tempo conosco, mas não nos deixou [...] E ‘Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores’ (1Tm 1.15). A ele minha alma se confessa dizendo-lhe: ‘Cura-me, pois pequei contra ti’ (Sl 41.4). Ó filhos dos homens, até quando vocês serão duros de coração? Mesmo agora, depois da descida da Vida para vocês, não irão se elevar e viver? Mas para onde se elevarão vocês que estão no alto e se pronunciam contra o céu? Desçam para poderem subir e ascender até Deus. Pois vocês, erguendo-se contra ele, decaíram”. Diga isso àquelas almas para que elas possam chorar passando “pelo vale de lágrimas” (Sl 84.6), elevando-as com você para Deus; pois pelo seu Espírito você lhes diz isso, se falar ardendo no fogo da caridade [amor ágape].' [Confissões IV.19]

'Aceita o sacrifício de minhas confissões pelo ministério da minha língua, tu que a originaste e a estimulaste a confessar teu nome. Cura todos os meus ossos, e “todo o meu ser exclamará: Quem se compara a ti, SENHOR?” (Sl 35.10). Pois aquele que te reconhece não te revela o que acontece em seu íntimo, visto que um coração fechado não impede a penetração do teu olhar, nem pode a insensibilidade do coração humano rechaçar tua mão: pois tu o dobras a teu bel-prazer no compadecimento ou na vingança, “e nada escapa ao teu calor” (Sl 19.6). Mas permite que minha alma te louve, para poder te amar; que ela confesse teus gestos de clemência, para poder te louvar. [...] De modo que nossa alma, abandonando seu cansaço, pode elevar-se a ti, apoiando-se nas coisas que tu criaste e passando em seguida para ti, que as criaste de modo tão maravilhoso. E ali, contigo, ela [nossa alma] encontra repouso e fortalecimento verdadeiro.' [Confissões V.1]

'[...] Os injustos acabam tropeçando em ti e justamente se machucando. Afastam-se de tua bondade e, tropeçando em tua justiça, vão caindo em seus caminhos escabrosos. Ignoram, na verdade, que tu estás em toda parte, tu que não podes ser encerrado por lugar nenhum! Somente tu estás perto, mesmo “dos que te abandonam” (Sl 73.27). Que eles voltem e te procurem, pois ao contrário deles que abandonaram seu Criador, tu não abandonaste a tua criação. Que eles se convertam e te procurem. Tu estás lá no coração daqueles que te reconhecem e se entregam a ti, e choram ao te abraçar depois de percorrer todos aqueles ásperos caminhos. Então tu suavemente lhes enxugas as lágrimas, e eles, chorando ainda mais, alegram-se ao chorar exatamente por ti, ó Senhor, não por um ser humano de carne e osso, mas por ti, Senhor, que os criaste, recriaste e fortaleceste. Mas onde estava eu quando não te via? Tu estavas diante de mim, mas de ti eu me afastara, e não me encontrava, e muito menos encontrava a ti.' [Confissões V.2]

'[...] De que me adiantava a máxima elegância do copeiro se eu tinha sede de uma bebida mais deliciosa? Meus ouvidos já estavam cheios de coisas como aquelas, que não me pareciam melhores só por serem apresentadas com palavras mais bonitas; nem mais verdadeiras, só por serem eloquentes; nem mais sábias, só porque o rosto do interlocutor era mais atrativo e a linguagem mais bela. [...] De ti, portanto, eu tinha agora aprendido que nada devia parecer expressar a verdade, só por causa da eloquência; nem, portanto, parecer expressar a falsidade, só por causa da elocução inarmônica; tampouco parecer verdadeira, só porque proferida rudemente; nem, portanto, parecer falsa, só por causa da rica linguagem. Eu tinha aprendido que a sabedoria e a insensatez são como o alimento sadio e o nocivo; como as frases enfeitadas e as toscas; como as vasilhas elegantes e as rústicas: os dois tipos de alimento podem ser servidos nos dois tipos de pratos.' [Confissões V.10]

'[...] Para Milão eu fui, para o bispo Ambrósio, conhecido no mundo inteiro como um dos melhores homens, teu devoto servo, cujo discurso eloquente naquela época distribuía com fartura a farinha do teu trigo, o contentamento de teu azeite e a moderadora intoxicação de teu vinho. Por ti fui levado para ele sem o saber, a fim de que, sabendo, eu fosse levado para ti. À minha chegada, aquele homem de Deus me recebeu como um pai, mostrando-me uma bondade digna de um bispo. Desde aquele momento passei a amá-lo, no início não de fato como um mestre da verdade (que eu absolutamente não esperava mais encontrar na tua Igreja), mas como uma pessoa bondosa para comigo. Atento, eu ouvia sua pregação ao povo, não com aquela atitude que lhe era devida, mas, por assim dizer, investigando sua eloquência. Queria saber se ela correspondia à sua fama; se era mais caudalosa ou menos fluente do que dela se dizia. Ouvia suas palavras com atenção, mas quanto ao assunto eu era como um observador indiferente e zombador. Dava-me prazer a suavidade do seu discurso, mais erudito, embora pelo estilo fosse menos cativante e harmonioso que o de Fausto [mestre dos maniqueístas]. Quanto ao assunto, porém, não havia comparação, pois um divagava entre ilusões maniqueístas, o outro ensinava a salvação da maneira mais sólida possível. Mas “a salvação está longe dos ímpios” (Sl 119.155); e eu era um deles na presença de Ambrósio. E, no entanto, pouco a pouco, sem o saber me aproximava dela cada vez mais.' [Confissões V.23]

'[...] Embora eu não me esforçasse para aprender o que ele [Ambrósio] dizia, querendo apenas ouvir como ele o dizia (pois apenas essa vã preocupação me havia sobrado, não tendo mais esperança de achar um caminho, disponível para o homem, que levasse a ti); mesmo assim, juntamente com as palavras que eu acolhia, também entravam em minha mente as próprias coisas que eu recusava. Eu não conseguia separar as duas coisas. E quando abri o coração para receber a eloquência de suas palavras, nele também entraram as verdades que ele dizia. Mas isso apenas pouco a pouco.' [Confissões V.24]

05 maio 2025

Livro: "Confissões" (Agostinho)

Alguns trechos iniciais do livro "Confissões", de Agostinho de Hipona:

'“Grande é o Senhor e digno de ser louvado; sua grandeza não tem limites; é impossível medir o seu entendimento” (Sl 145.3; 147.5). E tu queres que te louve o ser humano, mera partícula de tua criação; o homem que carrega consigo a mortalidade, o testemunho de seu pecado, o testemunho de que “Deus se opõe aos orgulhosos” (Tg 4.6; 1Pe 5.5). No entanto, o ser humano, mera partícula de tua criação, quer te louvar. Tu nos despertaste para o prazer de te louvar, pois nos criaste para ti, e o nosso coração não tem sossego enquanto não repousar em ti.' [Confissões I.1]

'E como invocarei meu Deus, meu Deus e Senhor, considerando que, quando o chamo, devo chamá-lo para mim mesmo? Que espaço há dentro de mim para que meu Deus possa entrar? Onde pode Deus entrar em mim, o Deus que criou o céu e a terra? Existe de fato, Senhor meu Deus, algo em mim que possa te conter? [...] Eu não poderia, portanto, ó meu Deus, absolutamente não poderia existir se tu não estivesses em mim. Ou melhor, se eu não estivesse em ti, a quem tudo pertence, para quem tudo existe e em quem tudo subsiste. É exatamente assim, Senhor, exatamente assim. Para onde irei te chamar, sendo que estou em ti? Ou de onde podes vir para entrar em mim? Pois aonde posso ir além do céu e da terra para que meu Deus possa entrar em mim, ele que disse: “Não sou eu aquele que enche os céus e a terra?” (Jr 23.24).' [Confissões I.2]

'Será que os céus e a terra te contêm, uma vez que tu os enches? Ou será que tu os enches e ainda extravasas, uma vez que eles não te contêm? E quando os céus e a terra estão cheios, onde é que derramas o que sobra de ti mesmo? Ou será que não tens nenhuma necessidade de que alguma coisa te contenha, tu que conténs todas as coisas, uma vez que, o que tu enches, o enches contendo-o? Pois os recipientes que enches não te limitam, uma vez que, mesmo que eles fossem quebrados, tu não serias derramado. E quando tu és derramado sobre nós, não és humilhado, mas nos elevas; tu não és dispersado, mas nos unificas. Mas tu que enches todas as coisas, é com teu Espírito que as enches? Ou, sendo que todas as coisas não conseguem te conter inteiramente, elas contêm parte de ti? E todas simultaneamente a mesma parte, ou cada uma sua própria parte, as maiores mais, as menores menos? E nesse caso uma parte de ti é maior, outra menor? Ou será que tu estás por inteiro em toda parte, embora nada te contenha totalmente?' [Confissões I.3] *{o que chama a atenção, neste trecho, é o grande número (9) de perguntas que Agostinho faz a Deus, de maneira racional, sincera e respeitosa}*

'Então que és tu, meu Deus? Que és, senão o Senhor Deus? “Pois quem é Deus além do SENHOR? E quem é rocha senão o nosso Deus?” (Sl 18.31). Altíssimo, boníssimo, poderosíssimo, onipotente ao extremo; misericordiosíssimo, mas extremamente justo; misteriosíssimo, mas sempre presente; belíssimo, mas extremamente forte; estável, mas incompreensível; imutável, mas mudando tudo; nunca novo, nunca velho; tudo renovando e envelhecendo os orgulhosos, que não se dão conta disso; sempre atuando, sempre em repouso; sempre acumulando, mas sem precisar de nada; sustentando, enchendo e sempre te espalhando; criando, nutrindo e amadurecendo; buscando, mas tendo tudo. Tu amas, mas sem paixão; és zeloso, sem ansiedade; arrependes-te, mas não te afliges; ficas irado, mas sereno; mudas tuas obras, mas teu propósito não muda; recebes de volta o que encontras, sem nunca tê-lo perdido; nunca estás necessitado, mas os lucros te alegram; jamais cobiças, mas cobras juros. Tu recebes mais que o devido, para que possas dever; e quem tem o que quer que seja que não seja teu? Tu pagas dívidas, sem nada dever; perdoas dívidas, sem nada perder. E o que acabei de dizer, meu Deus, minha vida, minha santa alegria? Ou que diz qualquer ser humano que fala de ti? Todavia, ai daquele que não fala, pois na verdade até os mais eloquentes são mudos.' [Confissões I.4] *{neste trecho, o que chama a atenção é o caráter profundamente devocional de como Agostinho se apresena a Deus}*

'Que eu possa descansar em ti! Que tu entres em meu coração e o inebries para que eu possa esquecer meus males e abraçar a ti, meu único bem! Que és tu para mim? Em tua compaixão, ensina-me a dizê-lo. [...] Ah, pelo amor de tua misericórdia, dize-me, ó Senhor meu Deus, o que és para mim. “Dize à minha alma: ‘Eu sou a tua salvação’” (Sl 35.3). Fala, então, para que eu possa ouvir. Eis, Senhor, meu coração voltado para ti; abre-lhe os ouvidos e dize à minha alma: “Eu sou a tua salvação”. Deixa-me seguir essas palavras e agarrar-me a ti. Não escondas tua face. Deixa-me morrer —; para que eu não morra — somente deixa-me ver tua face. [uma provavel alusão à experiência de Moisés com Deus, segundo o relato encontrado em Êxodo 33:17-23]' [Confissões I.5] *{aqui, neste trecho, o que chama a atenção é a confissão de Agostinho diante de Deus, fazendo jus ao nome do livro: "Confissões"}*


13 abril 2025

Confissões (Agostinho)

Há um pensamento, normalmente atribuído a Agostinho de Hipona na obra Confissões, que é tipicamente encontrado na seguinte forma: 
"As pessoas costumam amar a verdade quando esta as ilumina, porém tendem a odiá-la quando as confronta."

Um trecho interessante no Livro VI ('Agostinho aos trinta anos') de "Confissões" ilustra o pensamento de Agostinho a este respeito: 
2. Mônica e Ambrósio
"Um dia minha mãe [Mônica], como costumava fazer na África, levava bolo, pão e vinho para as sepulturas dos santos. E foi impedida pelo porteiro. Logo que soube ser proibição do bispo [Ambrósio], aceitou-a com tal docilidade e obediência, que eu mesmo me admirei de vê-la disposta a renunciar a um hábito, antes que discutir a proibição. Não tinha o espírito sufocado pela embriaguez, nem o amor do vinho a incitava ao ódio da verdade, como muitos homens e mulheres que, diante de exortações à sobriedade, experimentam a mesma náusea que sentem os bêbados diante de um copo de água. Quando levava a cesta com os alimentos rituais, para distribuir depois de tê-los provado, não bebia mais que um pequeno copo de vinho diluído em água, segundo seu paladar sóbrio, e o fazia principalmente para homenagear aos santos. E se havia muitas sepulturas de santos a honrar dessa maneira, ela levava sempre o mesmo copo, que depunha em cada túmulo, e com os presentes repartia pequenos goles desse vinho, não só muito aguado como também morno. E agia assim por devoção, e não por prazer pessoal. O bispo [Ambrósio], famoso pregador e pessoa piedosa, tinha proibido esses ritos, mesmo quando celebrados com sobriedade, não só para que não se oferecesse aos ébrios ocasião de se embebedarem, mas também pela semelhança com os 'parentais', ritos de superstição pagã. Ao tomar conhecimento da proibição, ela [Mônica] aceitou-a de boa vontade, e, ao invés do cesto cheio de frutos da terra, passou a levar à sepultura dos mártires um coração cheio dos mais puros sentimentos. Assim dava aos pobres aquilo que podia e celebrava nesses lugares a comunhão com o Corpo do Senhor, pois foi imitando-lhe a paixão que os mártires foram imolados e coroados. Mas parece-me, Senhor meu Deus (e conheces bem meus pensamentos secretos), que talvez minha mãe não houvesse aceitado tão facilmente o cerceamento de seus hábitos, se a proibição tivesse partido de outra pessoa que não fosse tão amada quanto Ambrósio. Ela [Mônica] o estimava sobretudo pela minha salvação, como ele [Ambrósio] a respeitava pela vida tão religiosa que ela levava, tão dedicada às boas obras e aos serviços da Igreja. Muitas vezes, ao encontrar-me, ele rompia em elogios a ela, e se congratulava comigo por ter semelhante mãe. Não sabia que filho era eu, cético a respeito de tudo e convicto de não poder encontrar o caminho da vida."

[P.S.: este trecho do texto, bem como qualquer outro, precisa ser compreendido no contexto da obra (Confissões), e da época em que foi escrito pelo autor (Agostinho)]

22 janeiro 2025

Aprendizado piedoso 203

Sobre aflições:

"[...] precisamos de aflições para nos tornarmos humildes (Deuteronômio 8:2), para nos ensinarem o que significa o pecado (Sofonias 1:12) e para nos levar a Deus (Oséias 5:15)"
(Joel R. Beeke)

"A aflição é o pó de diamante no qual as jóias celestiais são polidas"

"Deus tem apenas um Filho sem pecado, mas nenhum sem aflição"
(frase frequentemente atribuída a Agostinho de Hipona)

"Nossa bela manhã está próxima, a estrela da manhã [Ap 22:16] está perto de nascer e não estamos a muitos quilômetros de casa. O que importa o entretenimento ruim nas enfumaçadas estalagens desta vida miserável? Não deveremos ficar aqui, e seremos muito bem recebidos por Aquele para quem vamos. (Carta 26)"
(Texto do dia 22/01 no devocional "Pensamentos Diários para o Ano", extraído das cartas de Samuel Rutherford)

07 dezembro 2021

Poesia "Tarde demais eu te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova!"

"Tarde demais eu te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova! Tarde demais eu te amei! E eis que tu estavas dentro de mim, enquanto eu estava fora; era lá fora que te procurava. Criatura deformada, mergulhei de cabeça nesses objetos de beleza que tu criaste. Tu estavas comigo, mas eu não estava contigo. Elas me detiveram longe de ti, essas coisas belas que, se não estivessem em ti, simplesmente não existiriam. Tu me chamaste, gritaste e rompeste minha surdez. Tu reluziste, brilhaste e aniquilaste minha cegueira. Tu espalhaste doces perfumes, e eu os inalei e suspirei por ti. Degustei, e senti fome e sede. Tu me tocaste, e eu senti um desejo ardente de tua paz."
(Agostinho de Hipona, Confissões, livro 10, seção 38)

Uma bela interpretação desta poesia pode ser encontrada na música "Tarde te amei", de Stênio Marcius: