A palavra anomalia, segundo os dicionários de etimologia, é proveniente do latim anomalia, que por sua vez é originária do grego, tratando-se de um substantivo abstrato derivado de anomalos ("irregular" ou "desigual"), que é uma junção de an ("não") + homalos ("igual" ou "uniforme"). A palavra homalos vem de homos ("mesmo"), que tem raízes no proto-indo-europeu, trazendo a ideia de "unidade", "juntos", "como um só". Na década de 1570, a palavra anomalia era usada para se referir a "desigualdade", na década de 1660 passou a significar "desvio da regra comum", e a partir de 1722 passou a ser usada para descrever "algo anormal ou irregular".
No livro "O Glorioso Gênio da química", a água (H2O) é descrita como um das obras primas da Criação, e as propriedades desta substância que é "vital para a vida" são descritas como imprescindíveis para a existência e a manutenção das diversas criaturas que Deus criou e sustenta, em Sua providência. Em uma análise química comparativa com outras substâncias (exemplo: H2S), as propriedades da água são inesperadas, ou seja, são consideradas anomalias. Algumas destas propriedades anômalas são a sua alta temperatura de ebulição, alta capacidade calorífica, alta constante dielétrica, e o máximo de densidade da água líquida em 4ºC, o que faz o gelo (sólida da água) flutuar no líquido. Caso o(a) leitor(a) tenha interesse em se aprofundar nesse assunto, pode encontrar mais detalhes no livro, ou na quinta aula da série "A Maravilhosa Beleza da Criação".
Outro exemplo, proveniente da química, são os gases. Quando se estuda este assunto, primeiro são apresentados os "gases ideais", que não existem na natureza, mas apenas em modelos e formalismos matemáticos relativamente simples, como P.V=n.R.T, incluindo pressão (P), volume (V), número de mols (n), constante dos gases (R) e temperatura (T). Na sequência deste assunto, costuma-se estudar os "desvios da idealidade" que levam à compreensão dos "gases reais", ou seja, aquelas substâncias que existem, de fato, na natureza, como oxigênio, nitrogênio e tantos outros. Desta forma, os "desvios da idealidade" descritos nos "gases reais" são apresentados como anomalias do comportamento "ideal" dos gases.
Muitos outros exemplos poderiam ser fornecidos na química e em outras ciências, em geral, mas para o propósito deste texto bastam estes dois exemplos para afirmar que aquilo que nós não compreendemos muito bem, por causa da tremenda complexidade de determinados fenômenos e das nossa limitações cognitivas, nós costumamos denominar de anomalia. Um comportamento chamado de anômalo pode ser apenas um fenômeno sobre o qual nós não conhecemos a totalidade dos fatos e mecanismos envolvidos, ou seja, sobre o qual nós não temos toda a descrição explicativa e racional, de acordo com a metodologia científica, por exemplo.
O texto "Trazendo ordem ao caos" traz uma discussão sobre a teoria do caos, relatando a história de uma palestra curiosamente intitulada "Previsibilidade: o bater das asas de uma borboleta no Brasil pode desencadear um tornado no Texas?", proferida pelo conhecido cientista Edward N. Lorenz, que estava interessado em previsão meteorológica. Neste contexto, ele define que caos é "quando o presente determina o futuro, mas o presente aproximado não determina aproximadamente o futuro".
Estas evidências, dentre outras, nos levam a crer que, muitas vezes, quando chamamos um fenômeno de anomalia, podemos apenas estar nos referindo a um padrão fenomenológico do qual não possuímos o completo domínio da compreensão cognitiva. Sendo assim, ao invés de reconhecer a nossa ignorância circunstancial na compreensão daquele determinado fenômeno, nós chamamos de anomalia, apenas para não reconhecer, pelo menos publicamente, nossa ignorância da verdade dos fatos. Muitas vezes, movidos por arrogância e soberba, para nossa ignorância não ser exposta, usamos a justificativa da anomalia como uma desculpa. Precisamos nos arrepender disso também, e buscar mais humildade no reconhecimento da nossas limitações e da nossa pequenez, como criaturas finitas.
Portanto, se nós, seres humanos, não temos todo o conhecimento e a sabedoria para conhecer os detalhes das anomalias, para então pararmos de chama-las assim, quem é que tem este conhecimento total e irrestrito? O apóstolo Paulo, em uma doxologia encontrada no final do décimo primeiro capítulo da carta aos Romanos, responde: "Ó profundidade da riqueza, tanto da sabedoria como do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis, os seus caminhos! Quem, pois, conheceu a mente do Senhor? Ou quem foi o seu conselheiro? Ou quem primeiro deu a ele para que lhe venha a ser restituído? Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém!"
Para Deus, portanto, no que diz respeito à Sua soberania e presciência sobre todas as coisas, não existem anomalias, pois Ele é onisciente, onipresente e onipotente!
Para nós, humanos, qual seria, portanto, a maior de todas as anomalias encontradas neste mundo? Certamente poderíamos dizer que é o Senhor Jesus Cristo, que "subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus; antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz" (ver Fp 2:5-11).
No que, então, o Senhor Jesus poderia ser considerado como uma anomalia (incomum ou irregular), tendo vivido também como ser humano neste mundo caído? O autor aos Hebreus nos responde: "Tendo, pois, a Jesus, o Filho de Deus, como grande sumo sacerdote que penetrou os céus, conservemos firmes a nossa confissão. Porque não temos sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas; antes, foi ele tentado em todas as coisas, à nossa semelhança, mas sem pecado" (ver Hb 4:14-16).
Jesus foi "tentado em todas as coisa, à nossa semelhança, mas sem pecado"... é exatamente nisso que Ele é incomum e completamente diferente de nós! Vamos considerar, portanto, que apenas Ele é uma anomalia neste mundo caído, ao contrário de nós, que ainda estamos submetidos aos efeitos do pecado.
Contudo, esta verdade gloriosa não para por aí... Além de Jesus ser uma anomalia quando à "cometer pecados", uma vez que Ele nunca cometeu nenhum, Ele também é uma anomalia quanto à "perdoar pecados", pois "...Cristo, quando nós ainda éramos fracos, morreu a seu tempo pelos ímpios. Dificilmente, alguém morreria por um justo; pois poderá ser que pelo bom alguém se anime a morrer. Mas Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores" (ver Rm 5:6-8).
Jesus Cristo, na cruz do Calvário, "anomalamente" morreu por nós, sendo nós ainda pecadores! Nenhum ser humano, como nós, seria capaz de fazer isso em favor de outros seres humanos pecadores... só o Deus-homem, Emanuel, seria capaz de fazê-lo... e, de fato, o fez! Graças a Deus por isso!
Louvado seja o onisciente, misericordioso e "anômalo" Redentor Jesus Cristo!
A Ele, somente, seja toda a honra e a glória por nossa salvação, eternamente!


