Alguns trechos do livro "Verdadeira Espiritualidade", de Francis A. Schaeffer:
Prefácio:
'Este livro está sendo publicado depois de vários outros, mas, em certo sentido, deveria ter sido meu primeiro. Sem o material que aqui se encontra não haveria hoje o L’Abri. Em 1951 e 1952 enfrentei uma crise espiritual em minha vida. Eu tinha voltado do agnosticismo e me tornado cristão muitos anos antes. Em seguida havia sido pastor por dez anos nos Estados Unidos, e então, durante alguns anos, Edith, minha esposa, e eu trabalhamos na Europa. Durante esses anos, pesava-me a responsabilidade de representar a posição cristã histórica e a pureza da igreja visível. Aos poucos, no entanto, constatei um problema – o problema da realidade. Ele tinha duas partes: primeiro, tive a impressão de que, para muitos daqueles que sustentavam a posição ortodoxa, faltava a realidade nas coisas que a Bíblia claramente dizia que deveriam ser o resultado do cristianismo. Segundo, gradualmente crescia em mim que minha própria realidade era menor do que deveria ser nos primeiros tempos antes de me tornar cristão. Reconheci sinceramente que eu precisava voltar e repensar toda a minha posição. Morávamos em Champèry na época; eu disse a Edith que, por bem da honestidade, precisava mesmo percorrer o caminho de volta a meu agnosticismo para repensar todo o assunto. Reconheço que foi um período difícil para ela e que ela orou muito por mim durante aqueles dias. Eu saía a caminhar nas montanhas quando o tempo estava bom, e quando chovia andava de um lado a outro do celeiro do velho chalé em que morávamos. Eu caminhava, orava e meditava naquilo que as Escrituras ensinavam, ao mesmo tempo em que revia minhas próprias razões para ser cristão. Ao repensar esses meus motivos de ser cristão, vi novamente que havia razões totalmente suficientes para saber que o Deus infinito-pessoal existe, e que o cristianismo é verdade. Indo adiante, vi algo mais que fazia profunda diferença na minha vida. Examinei o que a Bíblia dizia com respeito à realidade como cristão. Gradualmente fui vendo que o problema era que, com todos os ensinamentos que eu havia recebido depois de me tornar cristão, tinha ouvido muito pouco sobre o que a Bíblia diz quanto ao sentido da obra concluída de Cristo para nossa vida presente. Aos poucos o sol raiou e a canção soou. Interessante é que, embora eu não tivesse escrito poesia nenhuma durante muitos anos, naquela época de alegria e canto descobri que a poesia fluía de novo – a poesia da convicção, da afirmação da vida, da gratidão e do louvor. Admito que a poesia não tenha sido das melhores, mas expressou a música no meu coração que era maravilhosa para mim. Esta foi, e é, a base verdadeira de L’Abri. Ensinar as respostas cristãs históricas e responder com honestidade às perguntas sinceras são duas coisas cruciais, mas foi dessas lutas que veio a realidade, sem a qual um trabalho incisivo como L’Abri jamais teria sido possível. Eu e nós todos só podemos sentir gratidão. Esses princípios que elaborei em Champèry foram apresentados pela primeira vez como palestras em um acampamento bíblico realizado em um velho celeiro em Dakota, EUA. Foi em julho de 1953. Eles foram feitos em restos de papéis no porão da casa do pastor. O Senhor deu-nos algo muito especial a partir dessas mensagens, e ainda me encontro hoje com pessoas que, quando jovens, tiveram seus pensamentos e suas vidas ali transformadas. Depois que L’Abri começou em 1955, preguei essas mesmas mensagens em Huémoz. Mais tarde foram elaboradas em forma mais desenvolvida e completa na Pensilvânia, em outubro e novembro de 1963. Apresentei-as novamente em Huémoz no fim do inverno e começo da primavera de 1964. Essa foi sua forma final, e a forma na qual foram gravadas nas fitas de L’Abri. O Senhor vem usando as gravações de um modo que nos comove profundamente, não só com aqueles que tiveram problemas espirituais, como em casos de muitos que também tinham necessidades psicológicas. Oramos para que a forma escrita desses estudos seja tão útil quanto as fitas gravadas têm sido em várias partes do mundo.' [Francis A. Schaeffer, Huémoz, Suíça, maio/1971]
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'[...] Em primeiro lugar, com respeito a Deus: eu devo amar a Deus o suficiente para estar satisfeito, porque do contrário até nossos desejos naturais e corretos nos levam à revolta contra Deus. Deus nos fez com desejos corretos, mas se não houver um contentamento correto da minha parte, até aí estou em revolta contra Deus, e é claro que a revolta é todo o problema central do pecado. Quando me falta a devida satisfação, ou é porque esqueci que Deus é Deus, ou então parei de me submeter a ele. Estamos falando sobre um teste prático para julgar se estamos cobiçando contra Deus. Uma disposição calma e um coração que esteja agradecendo em qualquer circunstância é o teste real da extensão até a qual chega nosso amor para com Deus naquele momento. Gostaria de compartilhar umas palavras fortes da Bíblia para nos lembrarmos de que esse é o próprio padrão de Deus para os cristãos: “Mas a impudicícia e toda sorte de impurezas ou cobiça nem sequer se nomeiem entre vós, como convém a santos; nem conversação torpe, nem palavras vãs ou chocarrices, coisas essas inconvenientes; antes, pelo contrário, ações de graças” (Ef 5.3-4). As “ações de graças”, portanto, estão em contraste com toda a lista negra que vem acima. Efésios 5.20 é ainda mais incisivo: “Dando sempre graças por tudo a nosso Deus e Pai, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo”. Até onde vão “todas as coisas” que devemos agradecer? Essas mesmas “todas as coisas” são mencionadas no livro de Romanos (8.28): “Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito”. E não é uma espécie de mágica – o Deus infinito e pessoal promete que fará com que tudo funcione junto para o bem do cristão. Aqui aprendo que, se sou cristão verdadeiro, “todas as coisas” cooperam para o meu bem. Não serão todas as coisas com exceção do sofrimento; não serão todas as coisas exceto a batalha. Nós colocamos as palavras “todas as coisas” de Romanos 8.28 rodeadas de todas as coisas. Prestamos honra a Deus e ao trabalho acabado de Cristo quando lançamos esse círculo em volta do todo; “todas as coisas cooperam juntas para o bem no caso daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito”. Mas até onde lançamos a expressão “todas as coisas” sobre todas as coisas, ela leva consigo também o “todas as coisas” de Efésios 5.20: “Dando sempre graças por tudo [todas as coisas] a nosso Deus e Pai [...].” Não podemos separar esses dois versículos. O “todas as coisas” de Efésios 5.20 é tão amplo como o “todas as coisas” de Romanos 8.28. Precisa ser dar graças por todas as coisas – esse é o padrão de Deus.'
'[...] Em Filipenses 4.6 lemos assim: “Não andeis ansiosos de coisa alguma; em tudo, porém, sejam conhecidas, diante de Deus, as vossas petições, pela oração e pela súplica, com ações de graças”. “Não andeis ansiosos de coisa alguma” aqui significa: não seja vencido pela ansiedade em coisa alguma, pela preocupação em coisa alguma, mas por meio da oração e súplica com ações de graças, deixe que seus pedidos sejam conhecidos por Deus. Naturalmente, essa é uma afirmação com respeito à oração em contraste com a preocupação, mas, ao mesmo tempo, traz consigo a ordem direta de se agradecer a Deus enquanto se ora por “todas as coisas”. Ou poderemos ver Colossenses 2.7: “Nele radicados e edificados e confirmados na fé, tal como fostes instruídos, crescendo em ações de graças”.'
'[...] Encontramos ainda em Colossenses 3.15: “Seja a paz de Cristo o árbitro em vosso coração, à qual, também, fostes chamados em um só corpo; e sede agradecidos”. E o versículo 17: “[...] tudo o que fizerdes, seja em palavra, seja em ação, fazei-o em nome do Senhor Jesus, dando por ele graças a Deus Pai”. E novamente em Colossenses 4.2: “Perseverai em oração, vigiando com ações de graças”. Essas palavras sobre dar graças, em certo sentido, são palavras difíceis. São lindas, mas não nos dão espaço para nos movermos – “todas as coisas” são todas as coisas.'
'[...] Acho que podemos ver tudo isso em sua própria perspectiva se nos voltarmos a Romanos 1.21: “Porquanto, tendo conhecimento de Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças; antes, se tornaram nulos em seus próprios raciocínios, obscurecendo-se-lhes o coração insensato”. Esse é o ponto central: eles não lhe deram graças. Em lugar de dar graças, eles “se tornaram nulos em seus próprios raciocínios, obscurecendo-se-lhes o coração insensato”. Professando-se sábios, tornaram-se tolos. O início da rebelião dos homens contra Deus foi, e é, a falta de um coração agradecido. Não tinham os corações apropriados, agradecidos – vendo a si próprios como criaturas diante do Criador, sendo dobrados, não só nos joelhos, mas em seus corações rebeldes. A rebelião é a recusa proposital de ser criatura diante do Criador, a ponto de ser agradecido. O amor precisa trazer consigo um “muito obrigado” que não seja superficial ou “oficial”, mas um “muito obrigado” dito na mente e com a voz ao Senhor. Como veremos adiante, isso não deve ser confundido com deixar de se opor àquilo que é cruel no mundo como se encontra hoje, antes, significa ter um coração agradecido para com o Deus que existe.'
'[...] Se o contentamento e as ações de graças desaparecem, não estamos amando a Deus como deveríamos, e o desejo apropriado tornou-se cobiça contra Deus. Essa área interior é o primeiro ponto de perda da espiritualidade verdadeira. A exterior é sempre apenas resultado disso.'
'[...] Assim, em Gálatas 2.19-20 novamente: “Estou crucificado com Cristo [...]”. Então vem uma quebra no versículo. Na minha própria Bíblia, marquei-a com duas pequenas linhas, para que essa quebra aparecesse bem para mim, mesmo em uma leitura rápida: “Estou crucificado com Cristo (pausa); logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim; e esse viver que, agora, tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim”. Então, embora haja uma negativa, ela flui para a parte positiva, e parar na negativa é perder todo o sentido. A vida cristã verdadeira não é uma vida externa nem uma vida de ideias, de negativas básicas; não é detestar a vida, como costumamos fazer quando estamos ficando desanimados ou com outros problemas psicológicos. A negativa cristã não é uma negativa niilista; existe uma negativa bíblica verdadeira; mas a vida cristã não para com uma negativa. Há vida verdadeira no presente bem como no futuro.'
'[...] Como ilustração, lemos a negativa em Gálatas 5.15: “Se vós, porém, vos mordeis e devorais uns aos outros, vede que não sejais mutuamente destruídos”. Ele está falando de pessoas crentes. É uma negativa. Mas existe o ponto positivo (v. 14): “[...] toda a lei se cumpre em um só preceito, a saber: Amarás o teu próximo como a ti mesmo”. E há o positivo nos versículos 22 e 23 do mesmo capítulo: “[...] o fruto do Espírito é: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio. Contra estas coisas não há lei”. Então o contexto nos leva do lado negativo ao positivo em nossas considerações da vida cristã.'
'[...] Mas com certeza tem aplicação, especialmente à mentalidade-das-coisas e à mentalidade-do-sucesso do século 21. Estamos cercados por um mundo que a nada nega, a nada diz “não”. Quando essa mentalidade é a que nos rodeia, em que tudo é julgado pela sua grandeza e sucesso, deve ser difícil ouvir de repente que na vida cristã haverá esse forte aspecto negativo de dizer “não” às coisas e “não” ao eu e isso pode parecer difícil. E se não sentirmos que seja difícil, não estamos realmente deixando que esse aspecto nos fale. Em nossa cultura, frequentemente nos dizem que não devemos dizer “não” aos nossos filhos. Em nossa sociedade, muitas vezes, equaciona-se a repressão com a maldade. É uma sociedade que em nada se refreia, a não ser talvez para ganhar mais em outra área. Evita-se o conceito de um verdadeiro não tanto quanto possível.'
'[...] É claro que esse ambiente – de não dizer “não” – combina bem com a nossa disposição natural individual, visto que, desde a queda do homem, nosso desejo é não nos negar nada. Realmente fazemos todo o possível, quer no sentido filosófico ou no sentido prático, para nos colocar no centro do universo. É onde por natureza queremos viver. E essa disposição natural se ajusta bem ao ambiente que nos cerca no século 21. Foi esse o ponto crucial da queda. Quando Satanás disse a Eva: “É certo que não morrereis [...] sereis como Deus”, ela quis ser igual a Deus (Gn 3.4-5). Ela não quis dizer “não” à fruta que era agradável aos olhos, mesmo após Deus já lhe ter dito que dissesse “não” e ter avisado das consequências – e disso decorreu tudo o mais. Ela se colocou no centro do universo; quis ser igual a Deus.'
'[...] Eis a maravilha das maravilhas, a maravilha dos séculos. Aqui está a verdadeira perspectiva, na qual a conversa se centra em um único tópico: a Pessoa, que é Deus, iria morrer. É aquele de quem se fala no versículo 35: “Este é o meu Filho, o meu eleito; a ele ouvi”; “sua partida, que ele estava para cumprir em Jerusalém” (v. 31). Aqui Deus, como homem verdadeiro após a encarnação, vem como Cordeiro de Deus para tirar o pecado do mundo. Não é falso o verso poético que diz: “Cristo, o poderoso Criador, morreu”.'
'[...] Observemos que isso constitui o cerne da mensagem cristã. Seu centro não é a vida de Cristo, nem seus milagres, e sim, a sua morte. Toda a teologia liberal de hoje, vendo o problema do homem como metafísico, colocaria a solução no conceito de uma encarnação. Não que acreditassem em uma encarnação verdadeira, mas no conceito da encarnação. Mas a resposta bíblica não está situada aí. O nascimento [de Cristo] é o ponto necessário para se abrir o caminho à resposta, mas a resposta é a morte do Senhor Jesus Cristo.'
'[...] Observemos que isso constitui o cerne da mensagem cristã. Seu centro não é a vida de Cristo, nem seus milagres, e sim, a sua morte. Toda a teologia liberal de hoje, vendo o problema do homem como metafísico, colocaria a solução no conceito de uma encarnação. Não que acreditassem em uma encarnação verdadeira, mas no conceito da encarnação. Mas a resposta bíblica não está situada aí. O nascimento [de Cristo] é o ponto necessário para se abrir o caminho à resposta, mas a resposta é a morte do Senhor Jesus Cristo. Em Êxodo 12, na Páscoa (que prevê a vinda de Jesus) o Cordeiro Pascal morre. Em Gênesis 3.15, em que a primeira promessa da vinda do Messias é dada, já somos avisados de que o Messias, quando vier, será ferido. Ele esmagará Satanás, mas ele será ferido no processo. Em Gênesis 3.21, como é vestido o homem depois de ter pecado? Com peles, que exigem o derramamento de sangue. Em Gênesis 22 lemos sobre o grande evento que mostra a compreensão de Abraão com respeito ao Messias que viria. Seu filho tem de ser colocado sobre o altar, como sacrifício – e então um cordeiro é fornecido, dando assim dupla imagem de substituição. Em Isaías 53, essa grande profecia pronunciada setecentos anos antes da vinda de Jesus, qual é o ponto central do assunto? São palavras assim: “traspassado”, “moído”, “como cordeiro foi levado ao matadouro”, “cortado da terra dos viventes”, “derramou a sua alma na morte”. Essas palavras atravessam os séculos na profecia, e chegamos a João Batista que fala: “Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”. É o assunto de milhares de anos de profecia. O centro da mensagem cristã é a morte redentora de Jesus Cristo. O próprio Jesus Cristo centra sua fala no mesmo ponto, quando, em João 3, diz a Nicodemos: “E do modo por que Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do homem seja levantado”. Se compararmos isso com a afirmação em João 12.32-33, será vista a referência específica à morte de Cristo que está próxima.'