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26 fevereiro 2025

Livro: "Amado Timóteo" (NÃO NEGLIGENCIE O AVIVAMENTO)

Trechos do capítulo 19 - "Não negligencie o avivamento" (Ray Ortlund, Jr.) - do livro "Amado Timóteo: uma coletânea de cartas ao pastor", editado por Thomas K. Ascol (versão e-book/kindle):

'[...] Espero que, pela fé, você esteja desfrutando de um senso do favor de Deus através da obra consumada de Cristo na cruz. Deixe o sorriso de Deus encorajá-lo, incentivá-lo e energizá-lo para o seu serviço. Radie esta graça aos outros - eles também precisam dela. Nós somos todos tão fracos e precisamos de forte encorajamento.'

'[...] Basicamente, há estas duas formas de se realizar o ministério pastoral. Eu sei que você continuará a esforçar-se para obter um ministério moldado à semelhança de Deus, qualquer que seja o custo. Se o objetivo fosse ser condescendente a fim de, meramente, se fazer agradável aos homens, o seu ministério seria mais fácil. Seus padrões incorretos seriam sempre a popularidade, tranquilidade, controle, paz a todo custo, seguindo sempre o caminho de menor resistência. Você então aspiraria o respaldado lugar de um "cara realmente legal", como disse um autor contemporâneo.'

'Porém, uma vez que você tenha determinado agradar a Deus em primeiro lugar e acima de todas as coisas, o seu caminho será muito difícil. Naturalmente, você quer ganhar o afeto das pessoas. Você ama pessoas e aprecia sua companhia, como realmente deveria. Você quer que elas o amem, por causa de Jesus. Paulo disse: "Assim como também eu procuro, em tudo, ser agradável a todos" (1Co 10.33). Que declaração arrebatadora de seu generoso desejo de ouvir, ajustar, ceder e adaptar-se! Paulo tentou fortemente não afastar as pessoas. Ele queria ganhar um ouvinte, por amor ao Senhor. Então, moldou suas estratégias de forma a voar sob os seus radares, desarmar os seus preceitos e ser agradável a elas. "Assim como também eu procuro, em tudo, ser agradável a todos". Você também seja assim, Timóteo, e isto está certo. jamais se torne um homem mesquinho, irritável e egoísta. Paulo não era. Seu ministério era tão aprazível que deliciava as pessoas, porque ele vivia como um servo à semelhança de Cristo, por amor ao evangelho.'

'Também é verdade que caso você, assim como Paulo, mire bem alto, a sua visão desafiará as pessoas. Você as motivará. Poderá fazê-las sentirem-se desconfortáveis. Elas podem até mesmo se sentir ameaçadas em determinados momentos. Você irá inevitavelmente (algumas vezes você nem perceberá que está fazendo isto) desafiar aspectos de sua igreja, os quais algumas pessoas prefeririam não tratar. Então, em sua caminhada com Deus, você assumirá riscos. Irá desconsiderar os seus próprios interesses em prol do avanço do evangelho. E em nenhuma outra área isto é mais verdadeiro que no avivamento.'

'Mencionei anteriormente as palestras de J.I. Packer, as quais ouvi quando ainda era um seminarista. E uma de suas frases simplesmente não me permitia relaxar: "não negligencie a dimensão de um avivamento em seu ministério". Você sabe, Timóteo, alguns homens negligenciam. Eles nem sequer pensam em termos de avivamento. Isto jamais lhes passa pela cabeça. Estão focados no sermão do próximo domingo e nas conferências missionárias do ano seguinte. O seu pensamento é limitado aos programas de sua igreja. Jamais lhes ocorre que o momento máximo de qualquer igreja é quando Deus manifesta sua presença como uma erupção. Seu poder e santidade cancela eventos no calendário da igreja e estabelece Ele próprio como o centro da fascinação reverente de uma igreja. Deus é maravilhosamente capaz de visitar o seu povo.'

'Sei que o seu coração também anseia por avivamentos. Juntos, estamos orando por um grande avanço do evangelho em nossa geração. Não estamos satisfeitos com a mediocridade atual da igreja evangélica. Não podemos suportar a existência, se o nome de Jesus não for honrado, amado, desejado e obedecido mais e mais, além de onde podemos enxergar. Anelamos por um espírito de arrependimento para quebrantar nossas igrejas superficiais e narcisistas, juntamente a um espírito de fé para enchê-las com o Espírito Santo. Oramos pelo privilégio de reviver o livro de Atos em nossos tempos - um derramamento maciço do Espírito, de forma que a Palavra atravesse como um raio, da igreja para o mundo, mudando a face de nossa geração, de acordo com as promessas da Palavra profética de Deus. Mas nem todos se sentem dessa forma. Alguns cristãos simplesmente não sentem aquele fogo intenso queimando em seus corações. E quando eles o encontram em outros, alguns não compreendem e talvez nem gostem. Você ficará surpreso, Timóteo, em como cristãos de bom coração, sinceros, podem resistir a um avivamento. Você irá ouvir suas defensivas: "O que você quer dizer quando fala que nós precisamos de um avivamento? Pastor, você está dizendo que nós não temos orado o bastante? Está dizendo que há alguma coisa errada conosco? Está dizendo que Deus não nos tem abençoado durante todos estes anos? Está invalidando tudo o que nós temos sido e feito? Isto implica que nós não temos o coração voltado para o evangelismo? O que você quer dizer, quando fala que nós precisamos de um avivamento? Nós já estávamos servindo ao Senhor muito antes de você aparecer aqui! E se você está pensando que vai mudar a nossa igreja, saiba que nós gostamos dela exatamente do jeito que está, e muito obrigado".'

'[1.] Em primeiro lugar, conduza o seu povo espiritualmente. Você não está lá apenas para dirigir os programas da igreja. Sabiamente organizados, tais artifícios institucionais têm o seu uso. [...] Algum tempo atrás, depois de um culto, uma irmã sábia, porém frustrada, se aproximou de seu pastor-professor - e eu enfatizo aqui o professor - com o seguinte pedido: "Pastor, leve-nos até Jesus!". Agora, Timóteo, este é o seu grande privilégio e responsabilidade. Domingo após domingo, leve o seu povo pela mão, por assim dizer; traga-os à presença do seu Senhor e os deixe lá. Use os cultos semanais para um envolvimento de mente e coração com o Deus vivo. Use a sua pregação para conduzir o povo através da Palavra ao Senhor revelado nela. Use a sua oração para demonstrar o quão real Deus é, através de Cristo, para nós pecadores. Não é seu trabalho proteger o povo do Deus vivo, mas sim trazê-lo à sua presença. Nossa tendência constante é de cair numa rotina religiosa apressada, correndo de uma atividade à outra, sem orar ou pensar naquilo que estamos fazendo. Então, se o Senhor realmente se manifesta, nós mesmos podemos ser pegos tão de surpresa que estragamos o momento [...]. Então eu insisto que você, Timóteo, lute e ore, a fim de que possa permanecer espiritualmente acordado. Onde quer que você esteja, esconda-se em Cristo, e conduza o povo a viver lá também. Coisas maravilhosas e surpreendentes podem acontecer quando nossas Bíblias e nossos corações estão completamente abertos diante de Deus.'

'[2.Em segundo lugar, pregue o evangelho esperançosamente. Através de Cristo e por causa de seu nome, você foi chamado para pregar a graça de Deus aos pecadores. Que alegria! E Ele está sempre pronto a derramar seu Espírito sobre você momento após momento, num frescor contínuo para o propósito da salvação. Que fonte! Martyn Lloyd-Jones concluiu suas preleções no Seminário Teológico de Westminster, em 1969, perguntando: "O que, então devemos fazer a este respeito? Há apenas uma conclusão óbvia. Busque-O! Busque-O! O que nós podemos fazer sem Ele? Busque-O! Busque-O sempre! Mas vá além de buscá-Lo; espere-O. Você espera que alguma coisa aconteça, quando se levanta para pregar no púlpito? Ou você simplesmente fala a si mesmo: 'Bem, eu já preparei o meu sermão, o qual explicarei agora; alguns deles irão gostar e outros não' ? Você está esperando que seu sermão seja o ponto decisivo na vida de alguém? Você está esperando que alguém tenha uma experiência máxima? É isto que a pregação deveria fazer. É isto que você encontra na Bíblia e na história subsequente da igreja. Busque o poder dEle, espere o poder dEle, anele o poder dEle." [D. Martyn Lloyd-Jones, "Pregação e Pregadores"].' 
'[...] A maior batalha em seu ministério será travada no seu interior, enquanto você luta para manter-se esperando a bênção de Deus, face aos seus próprios pecados e aos pecados dos outros. O único remédio contra o desespero no ministério é o evangelho. Continue pregando o evangelho para você mesmo em primeiro lugar. Continue lembrando a si mesmo de que Deus ama os pecadores, Deus trabalha com os pecadores. Encoraje a si mesmo sabendo que a Palavra do Senhor veio a Jonas "uma segunda vez" (Jn 3.1). E através de Jonas - até mesmo Jonas! - a palavra transformou uma cidade ímpia. Não somos você e eu tão inadequados e problemáticos como Jonas? Mas Aquele que nos enviou é "Deus clemente, e misericordioso, e tardio em irar-se, e grande em benignidade, e que te arrependes do mal" (Jn 4.2). Alguém disse incisivamente: "Deus não escolhe os capacitados; Ele capacita os escolhidos". Então, Timóteo, deixe que o mistério de Sua graça sustente as suas expectativas, face aos argumentos plausíveis para desistência de si mesmo e dos outros.'

'[3.Em terceiro lugar, aceite o sofrimento humildemente. Vamos encarar a realidade. Não são muitos os cristãos que ardem em aspirações espirituais heróicas. Muitos dos nossos melhores crentes tendem a ficar absorvidos com o churrasco do próximo fim de semana, a pescaria do mês que vem, ou a aposentadoria do próximo ano, muito semelhantes às preocupações do mundo. Como resultado disto, meu caro, você pode acabar sendo mal interpretado, temido e rejeitado por alguns cristãos. Exatamente por estar vivendo corajosamente para o Senhor, você pode ser visto como inimigo. E no fim das contas, de certa forma, você o é. Ao direcionar-se para o triunfo de Cristo somente, você está, mais do que pretendia ou imaginava, se colocando contra os ídolos que dominam o caráter de algumas igrejas.'
'[...] Frederick William Faber disse isto claramente em um de seus hinos: "Aprenda a perder com Deus" [poema "To Lose—With God" & hino "Workman of God, O Lose Not Heart"]***. Você sabe, do evangelho, que é a cruz que triunfa. É a morte que leva à vida. É a vergonha que leva à honra. É o sacrifício que herda abundância. Nos caminhos de Deus - quão estranhos, quão contraintuitivos são seus caminhos e experimentados apenas quando confiamos nEle, mais do que confiamos em nossos próprios instintos, auto-preservadores mas destrutivos - você tem uma razão para aceitar a adversidade com humildade. Sua humildade foi ordenada por Deus para penetrar as consciências e acordar os corações sonolentos. Ao seguir o Jesus crucificado, você se tornará um agente do avivamento para o Cristo ressurreto. Ele lhe dará esta certeza. Então, não perca o ânimo. Quando você está fraco, é que está forte.'

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*** Poem: "To Lose - With God"
(by Frederick William Faber)

Thrice blest is he to whom is given
The instinct that can tell
That God is on the field, when he
Is most invisible!

And blest is he who can divine
Where real right doth lie,
And dares to take the side that seems
Wrong to man's blindfold eye!

Then learn to scorn the praise of men!
O learn to lose—with God!
For Jesus won the world through shame,
And beckons thee his road.

And right is right, since God is God,
And right the day must win:
To doubt would be disloyalty,
To falter would be sin!
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Tradução: "Perder  com Deus"
(por Frederick William Faber)

Três vezes abençoado é aquele a quem é dado
O instinto que pode dizer
Que Deus está em campo, quando Ele
É mais invisível!

E abençoado é aquele que pode adivinhar
Onde a verdadeira justiça está,
E ousa tomar partido do lado que parece
Errado aos olhos vendados do homem!

Então aprenda a desprezar os elogios dos homens!
Ó, aprenda a perder — com Deus!
Pois Jesus venceu o mundo pela vergonha,
E acena para você em seu caminho.

E o certo é certo, já que Deus é Deus,
E o que é certo deve prevalecer no dia:
Duvidar seria deslealdade,
Cair seria pecado!
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13 fevereiro 2025

Livro: "Amado Timóteo" (INSTRUA OUTROS HOMENS)

Trechos do capítulo 17 - "Instrua outros homens" (Steve Martin) - do livro "Amado Timóteo: uma coletânea de cartas ao pastor", editado por Thomas K. Ascol (versão e-book/kindle):

'Por que instruir outros homens? Em primeiro lugar, algumas necessidades das igrejas cristãs só podem ser supridas quando instruímos outros homens. A necessidade urgente, em todas as gerações, é que sejam levantados homens piedosos para servirem em suas casas, na igreja local e no amplo trabalho do reino de Deus.'

'[...] A.W. Tozer diretamente disse: "Deus o Espírito Santo não enche os duvidosos". O clamor das igrejas ao redor do mundo é por homens, homens piedosos, homens que exerçam sua liderança tanto em suas casas quanto na igreja.'

'O Cabeça da igreja exclamou às multidões sedentas no dia do banquete, registrado em João 7.37-38: "Se alguém tem sede, venha a mim e beba. Quem crer em mim, como diz a Escritura. do seu interior fluirão rios de água viva". O verso 39 diz ao leitor que Jesus estava se referindo ao Espírito Santo, que ainda seria dado em sua plenitude no Pentecostes. Nosso Senhor estava dando uma ilustração mental da vida expansiva que o Espírito Santo iria criar dentro de cada coração regenerado. Ele não estava prometendo uma gota, copo ou balde de água viva do Espírito. Ele prometeu um rio! Certamente um coração tão extenso tem uma inundação para outros. Mais tarde, em João 10.10b, quando comparava o seu ministério - como o Bom Pastor de suas ovelhas - com o ministério dos mercenários, os fariseus e os saduceus, nosso Senhor disse: "Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância". A palavra abundância significa "mais que o necessário". Significa que você tem mais do que precisa. Homens que nasceram de novo têm a capacidade de olhar além de si próprios e dar aos outros. Homens que nasceram de novo e foram instruídos para serem bíblicos, canalizam suas vidas abundantes no leito [como de um rio] designado pela Palavra de Deus. A regeneração produz vida e energia. A Bíblia provê as diretrizes para aquilo que a pessoa regenerada deve ser e fazer. Homens que foram salvos e instruídos são uma poderosa fonte para o bem em sua igreja local.'

'[...] Em 2Timóteo 2.2, Paulo escreve: "E o que de minha parte ouviste através de muitas testemunhas, isso mesmo transmite a homens fiéis e também idôneos para instruir a outros". Nesta frase está contido o caráter de um ministério fiel: Homens discipulando homens que, em troca, discipulam outros homens. A tocha da verdade precisa ser passada adiante de geração em geração de cristãos, através dos homens, pela instrução fiel de discípulos.'

'[...] Se você ler os evangelhos, marcando as vezes que nosso Senhor esteve com os doze [Apóstolos], os três [Pedro, Tiago, João] ou até mesmo os setenta, é revelador o quão comprometido Ele estava em instruir aqueles homens como forma de continuar a expandir o seu ministério. Mas o exemplo do nosso Senhor não é o único no Novo Testamento. Considere Barnabé. Um verdadeiro "filho do encorajamento", como significa o seu nome, ele parecia ter um dom especial ao reconhecer homens em desenvolvimento e transformá-los em ferramentas úteis nas mãos do Salvador. Quando inicialmente as igrejas desconfiavam de Saulo de Tarso e de sua recente conversão, foi Barnabé quem o tomou sob sua proteção e concedeu-lhe credibilidade (cf. At 4.36-37; 8.1-3; 9.1-30; 13.1-13). Não demora muito no relato de Atos para que "Barnabé e Saulo" se tornem "Saulo e Barnabé" (cf. 13.2 e 13.13) ["Paulo e seus companheiros"]. Também é possível que você observe um dos homens instruídos por você, lhe exceder em utilidade ao Mestre. Lembre-se que isto não é uma ameaça, e sim um sinal das bênçãos divinas em seu ministério.' 

'O ministério discipulador de homens, exercido por Barnabé, não foi limitado a Paulo. Veja como ele ajudou João Marcos. Depois que Marcos desertou a primeira viagem missionária, Barnabé lhe deu outra oportunidade, ainda que isto significasse sua separação de Paulo. João Marcos foi salvo e mais tarde ajudou seu tio, Pedro, em seu ministério. Muitos estudiosos, como você sabe, acreditam que o evangelho de Marcos é, na verdade, o evangelho de Simão Pedro revisado por João Marcos, como seu secretário. Mais tarde, o próprio Paulo pediu ajuda a Marcos, aplaudindo a sua utilidade. Então, as treze cartas de Paulo e o "evangelho de Pedro" [Marcos] foram escritos por homens que, em determinado momento, forma vistos com desconfiança para o trabalho no ministério, mas que vieram a ser de valor inestimável após o discipulado com Barnabé. Em outras palavras, o Espírito Santo inspirou mais da metade do Novo Testamento de forma a ser escrito por homens que Barnabé havia discipulado!'

'Paulo também exemplifica o treinamento de outros homens. Os registros do Novo Testamento revelam que Paulo alistava homens onde quer que ele fosse, e a implicação disso deixa muito claro que ele os estava discipulando: Silas (At 15.40), Timóteo (At 16.1,3), Áquila e Priscila (At 18.18), Erasto (At 19.22; Rm 16.23), Sópatro, de Beréia (At 20.4), Aristarco e Secundo, de Tessalônica (At 20.4), Gaio, de Derbe (At 20.4), Tíquico e Trófimo, da Ásia (At 20.4) e Lucas, o médico (note as porções do livro, Atos dos Apóstolos, escrito por Lucas, em que ele usa "nós"). Paulo era um grande pregador do evangelho e professor das Escrituras, mas também era um grande discipulador de homens.'

'Então, quando Paulo admoesta Timóteo para que este discipule homens, em 2Timóteo 2.2, está apenas defendendo aquilo que ele próprio praticou. E, perceba também o conteúdo de seu discipulado: "O que de minha parte ouviste através de muitas testemunhas". Ele está se referindo ao evangelho. É isto que ele deve transmitir a outros. Independentemente de qualquer outra coisa que o discípulo possa saber, ele precisa ter um claro conhecimento do conteúdo do evangelho.'

'Tendo ele mesmo provado ser um servo fiel, Timóteo também foi incumbido de transmitir estas verdades do evangelho para "homens fiéis". É preciso ser alguém fiel. É preciso instruir homens fiéis. Timóteo deveria se assegurar de que a próxima geração de líderes na igreja seria composta de homens fiéis, que também permaneceriam dentro de padrões estabelecidos nas Escrituras. "Homens fiéis" eram homens que mantinham o padrão intacto, que não "aparavam as pontas" do padrão das palavras sãs. É fundamental que cada geração de pregadores receba o verdadeiro evangelho. Manter o evangelho inalterado e sem qualquer modificação nem diluição é muito difícil. Conquanto a palavra fiel possa parecer fora de moda e fraca, assim como a palavra bíblica submisso, isto não é verdade. É necessário que os homens a quem foi incumbida a comissão sagrada se mostrem fiéis (1Co 4.1-2). Pastores cristãos querem que a palavra "fiel" esteja escrita em suas lápides, e não as palavras "inovador", "criativo", ou ainda "ele superou seus limites". Estes termos são deixados para as biografias dos liberais, dos hereges e dos heterodoxos. Os pastores bíblicos querem ouvir o nosso Senhor dizer, no Dia do Julgamento: "Muito bem, servo bom e fiel!".'

'Alguns grupos da cristandade se orgulham de sua "sucessão apostólica". Bem, a verdadeira "sucessão apostólica" é a transmissão fiel do evangelho de um homem para outra geração de homens fiéis. A fidelidade destes homens é vista em sua fiel aderência à verdade do evangelho, assim como na sua fiel transmissão da verdade para uma outra geração de "homens fiéis e também idôneos para instruir a outros". As habilidades de ensino reportadas aqui não se referem necessariamente àqueles com aprendizado formal em métodos educacionais. Um claro entendimento da verdade e um desejo pessoal de pregar e ensinar a outros é o que está em vista. Um homem não precisa necessariamente ir a um seminário para receber estas verdades e tê-las firmemente escondidas em seu coração e mente. A "sucessão apostólica" de Deus é um homem fiel discipulando outro homem fiel no evangelho inalterado. Multiplicar homens fiéis é o método que Deus tem honrado através dos séculos. Antes do Novo Testamento ter sido completo, era especialmente crucial que a verdade do evangelho e os detalhes das Escrituras não se perdessem. A Palavra de Deus precisava se manter livre de qualquer erro. Ainda hoje, há validade neste processo. O evangelho ainda está sendo perdido pela infidelidade do homem. Impostores e charlatões ainda são uma praga na igreja, com seu evangelho "light" e sua jornada pelos caminhos da heresia. O preço por manter a verdade e manter a igreja na verdade é a vigilância perpétua em guardar o evangelho e confiá-lo a homens fiéis.'

REUNINDO HOMENS PARA O DISCIPULADO:
[1.] "ore" (Mt 9.35-38)
[2.] "plante amplamente" (Mt 11.28-30)
[3.] "identifique claramente" (Quais os "marcos bíblicos da fidelidade"? ***)
[4.] "teste-os" ("Aqueles que não aparecem para os treinos, também não jogam quando for pra valer!")
[5.] "desafie-os pessoalmente" ("pescadores de homens", Mt 4.19)
[6.] "identifique-os publicamente" ("As pessoas não deveriam ter de tentar adivinhar quem nomeou fulano para ser nosso professor")

*** Quais os "marcos bíblicos da fidelidade"?
'[...] Se você tiver uma única chance de derramar sua vida em alguns homens, quais você irá escolher? Escolher sem cuidado e erroneamente significa desperdiçar o seu precioso tempo. Cometa este erro algumas vezes e você corre o risco de desperdiçar a sua vida. Mantenha os "marcos bíblicos da fidelidade" diante de você, enquanto ora pelos seus homens. Quem parece estar verdadeiramente faminto e sedento pela justiça? Quem está regularmente pobre de espírito e buscando em primeiro lugar o reino de Deus e a sua justiça? Quem é fiel no pouco (Lc 16.10)? Quem tem um coração voltado para Deus e vontade de aprender? Quais homens perseguem a santidade? Quais homens cuidam da glória de Cristo? Quais homens são zelosos por Cristo em seu testemunho? Quais homens andam tão próximos de Cristo que sua vida transborda primeiramente sobre seus familiares, e depois, sobre os outros?'

INSTRUINDO OS HOMENS QUE VOCÊ REUNIU:
'Uma vez que Deus tenha dados os homens em quem você deve investir a sua vida, você precisa ser fiel para liderá-los e instruí-los. Em primeiro lugar, instrua-os através do exemplo. A encarnação do Senhor Jesus Cristo é uma grande razão para um exemplo piedoso como a base da instrução dos homens. Nosso Senhor não jogou sermões lá dos céus, e nem [jogou] um manual de amor sacrificial por Deus e pelos homens. Ele se tornou a ilustração viva, capaz de falar mais que dez mil palavras. Nosso Senhor conscientemente agiu de tal forma a deixar para seus discípulos, e a nós hoje, exemplos para seguir. João 13.1-5 é o grande exemplo do "maior amor". Pedro jamais poderia se esquecer do exemplo do nosso Senhor naquela noite, e ainda em outras vezes, de forma que ele exortava seus leitores a seguirem o exemplo específico de Cristo de sofrer com mansidão (1Pe 2.21-23) e de servir aos outros ao invés de dominar sobre eles (1Pe 5.1-5). O apóstolo Paulo ensinou muito em sua pedagogia sobre o papel de ser um exemplo. Ele usou a palavra traduzida como "exemplo" (modelo, padrão) para ilustrar verdades espirituais. Ele exortou Timóteo, mesmo sendo este bastante jovem, a ser um "exemplo" ao povo, na palavra, no procedimento, no amor, na fé e na pureza (1Tm 4.12). Admoestou os coríntios a lembrarem-se do tipo de exemplo que ele havia lhes dado e os desafiou a imitar seu padrão de fidelidade de vida (1Co 4.14-17; 10.31-11.1). Ele elogiou a igreja em Tessalônica por ser um exemplo às outras igrejas (1Ts 1.7) e mais tarde usou a si mesmo como um exemplo do princípio de que, se um homem não quer trabalhar por sua comida, ele também não deve ser ajudado pela igreja (2Ts 3.9-10). Alertou os filipenses a manterem o seu olhar fixo sobre aqueles que "andam segundo o modelo que tendes em nós" (Fp 3.17). Instruiu o jovem pastor Tito a ser um exemplo para os crentes em Creta (Tt 2.7). Usou uma forma argumentada da palavra exemplo, quando escreveu para Timóteo, dizendo-lhe que Jesus era o protótipo ou supremo exemplo que nós devemos seguir (1Tm 1.16). O poder de um exemplo não pode ser [suficientemente] exagerado. O antigo provérbio: "Eu não consigo ouvir o que você diz, porque as suas ações falam alto demais", ainda é verdadeiro nos dias de hoje. Se a sua vida e conduta repelem os outros, se sua vida fala uma mensagem diferente daquela proferida em seus sermões, se você não está de alguma forma personificando aquilo que professa e prega, não pode ensinar aos outros - com exceção da hipocrisia. Este tipo de pessoa é o que chamamos de alguém que não pratica o que fala. A Bíblia não ensina nem espera perfeição deste lado do céu, mas ela exalta a fidelidade. A fidelidade é o cumprimento da mordomia, bem como a conformidade com um código ou padrão. Se eu sou um pastor que não confia em Deus, se sou conhecido por estar sempre envolvido com muitas tarefas, se eu reclamo o tempo todo sobre as dificuldades da vida e do ministério, se não conduzo e amo minha família, então eu sou um péssimo exemplo e preciso me arrepender. Marryn Lloyd-Jones estava certo, quando disse que era pecado um pastor deixar de expressar sua confiança em Deus. Homens que obviamente conhecem a Deus e que estão seguindo avidamente o seu Filho e conscientemente dependem de seu Espírito e sua Palavra, serão atrativos aos outros e causarão impacto neles. Anelo produz mais anelo. Se você está com o coração pesado pelos perdidos, e testemunha, como estilo de vida, seus homens seguirão seu modelo. Se você colocar toda a sua vida diante da providência de Deus, no mesmo padrão de Romanos 8.28, seus homens seguirão seu modelo. Se você se arrependeu completamente de todos os seus pecados, seus homens seguirão seu modelo. Você não pode levar seus homens por caminhos que você mesmo não trilhou. E, se o Senhor o está ensinando, você precisa repassar estas lições aos seus homens.'

Sobre ensinar/discipular outros homens com a sã doutrina:
'Não negligencie uma arma fundamental no seu arsenal - bons livros. Os protestantes sempre foram os campeões na arte de ler e escrever (um espírito bereano), exatamente em razão da primazia da Palavra de Deus e do sacerdócio [universal] de todos os crentes. Ter a Bíblia e o grande legado dos escritos teológicos e devocionais dos protestantes e não usá-los é um verdadeiro pecado! Assegure-se de que seus homens leiam os melhores livros dos melhores autores. Depois da Bíblia, seus homens deveriam se tornar amantes dos melhores livros. Inicie introduzindo-os aos bons autores, os quais colocam "o pote de biscoitos onde qualquer criança possa alcança-lo". Até os que não sou bons leitores podem se tornar grandes leitores, quando são espiritualmente motivados e expostos a um bom material. [...] Você não concordará com tudo que cada um destes autores diz, mas sem ser excessivamente crítico, diga a seus homens onde você discorda e por quê. Isto irá ajudá-los a aprender mais sobre o discernimento, e a saber que nenhum homem, nem mesmo você, é perfeito.'

'[...] instrua-os falando a verdade em amor. Com isto, quero dizer que você deveria se tornar o encorajador deles quando precisarem de um, e seu exortador (ambos de forma gentil, porém firme), se houver necessidade de exortação. A admoestação de Paulo, em Efésios 4.15, "seguindo a verdade em amor", significa literalmente "verdadeando em amor". Nossos homens precisam viver a verdade irredutível e a sensibilidade delicada do amor. Você também precisa ser um homem que recebe bem a exortação e a admoestação, sem rebelar-se ou tornar-se defensivo. Você precisa ser um homem que recebe encorajamento, e não age como se sempre estivesse no controle de tudo.'

'[...] instrua seus homens tanto no fazer (com eles), quanto no delegar (para eles). [...] Leve-os com você para olharem e aprenderem. De preferência, nunca faça algo sozinho, mas sempre leve um de seus homens com você. Jesus fez isto. Paulo fez isto.'

'Jesus não era o tipo de teólogo que se protegia dentro de uma redoma. Ele não era o tipo de general que lidera todo o seu exército da retaguarda. Pastores bíblicos conduzem suas ovelhas aos pastos verdejantes e águas calmas, andando à sua frente e liderando-as. Da mesma forma devemos agir. Precisamos levá-los aonde queremos que eles cheguem. Não os mande testemunhar, mas leve-os para testemunhar. Não delegue simplesmente, leve-os junto de você. Não diga apenas para seus homens orarem, ore junto deles.'

'[...] instrua seus homens em diferentes estilos. As igrejas possuem muitos lugares onde os homens podem servir. Deixe que eles experimentem várias coisas diferentes, ainda se falharem, conduto, não permita que um homem constantemente falho permaneça sempre na mesma responsabilidade. Encontre-se com ele, converse sobre os motivos do fracasso. Dê-lhe outras coisas para fazer. Um homem pode não ter dons que o tornem um líder público; e este é o tipo de homem que fica mais nos bastidores. Mas se alguma vez ele tiver de conduzir uma reunião pública, irá admirar mais aquele homem que possui este dom de liderança [pública]. Da mesma forma, o homem com dons públicos deveria aprender a sentar-se nas "últimas cadeiras", e ministrar na quietude da obscuridade por algum tempo. Ele irá estimar muito mais aquele irmão cujos dons não são públicos, mas que são igualmente necessários para que todo o corpo [igreja] funcione bem.'


31 janeiro 2025

Livro: "Amado Timóteo" (PREGUE A PALAVRA)

Trechos do capítulo 15 - "Pregue a Palavra" (Roger Ellsworth) - do livro "Amado Timóteo: uma coletânea de cartas ao pastor", editado por Thomas K. Ascol (versão e-book/kindle):

'Para pregar bem, você precisa ser um homem de muita fé. Você precisa ser um bom crente. O seu povo precisa ser capaz de enxergar em suas pregações que o ensino das Escrituras é um deleite para a sua alma. Charles Spurgeon costumava dizer: "Irmãos, sejam grandes crentes. Pouca fé lhes trará a alma ao céu, mas muita fé trará o céu às suas almas" [citado por Ernest W. Bacon]. Aprenda a deleitar-se na Palavra de Deus, de tal forma que seja visível a todos que você possui o céu em sua alma. Você logo descobrirá que muitos de seus ouvinte desejarão o mesmo para si.'

'Recomendo para a sua cuidadosa consideração as palavras de Michael Horton: "Defendo o método histórico-remissor de pregação, o qual trata a Bíblia como a revelação dos acontecimentos da redenção, ao invés de guia de princípios eternos... Ao invés de tentar tornar a Bíblia relevante para o ocupado cristão contemporâneo, sugiro que deixemos que a Bíblia nos cative, condene, justifique e liberte. Precisamos de pregações mais focalizadas em Deus e naquilo que Ele fez, está fazendo e irá fazer na História, e menos em nós mesmos e em como nós podemos ser felizes com a ajuda de Deus" [An Interview with Michael Horton, n.8, The Discerning Reader, Baker Book House, 1995, 4].'

'Aconselho também que você considere cuidadosamente estas palavras de J.I. Packer: "A chave que abre o panorama bíblico é a percepção de que o verdadeiro assunto das Sagradas Escrituras não é o homem e sua religião, mas sim Deus e sua glória; e disto infere-se que Deus é o verdadeiro assunto de todos os textos, e precisa, portanto, ser o verdadeiro assunto de todo sermão expositivo" [J.I. Packer, Short Writing, 3:274-5].'

'Não é o bastante manter o tema da redenção sempre em vista. Precisamos falar sobre ela de tal forma que transmitamos ao nosso povo a glória e a grandeza da redenção. jamais devemos falar da redenção como se estivéssemos lendo nossa lista de compras. [J.I.] Packer escreveu sobre Martyn Lloyd-Jones: "[...] seu senso de realidade espiritual lhe informava que grandes coisas precisavam ser ditas de uma maneira que projetasse a grandeza delas" [J.I. Packer, Short Writing, 3:282].'

'Quando o seu sermão é produto de seu próprio e diligente estudo, ele traz consigo um selo de autenticidade, ou seja, a satisfação a você e a seus ouvintes, algo que os sermões de "atalho" nunca poderão trazer.'

'Um sermão não é apenas um comentário fluente em uma passagem das Escrituras. É, na verdade, a descoberta do tema principal de uma determinada passagem, e a demonstração de como aquela passagem desenvolve o tema. Eu sempre tento me fazer duas perguntas sobre a passagem das Escrituras com a qual eu estou lidando: "Sobre o que a passagem está falando?" e "O que ela diz sobre o assunto?". Minha resposta para a primeira pergunta é o meu tema, e minhas respostas para a segunda pergunta são os meus pontos e sub-pontos. J.I. Packer chegou ao âmago desta questão com as seguintes palavras: "Um sermão é uma declaração única; portanto ele deve ter um único tema, suas divisões (devem ser claramente marcadas, para ajudar o ouvinte a segui-las e lembrar-se delas) precisam trabalhar como as partes de um telescópio - cada divisão sucessiva... deve ser uma lente adicional para trazer o assunto de seu texto mais próximo, e torná-lo mais distinto." [J.I. Packer, Short Writing, 3:271].'

'[...] para pregar bem a Palavra de Deus você precisa utilizar uma linguagem que o seu povo seja capaz de compreender [...] Geoffrey Thomas observou: "A Palavra de Deus não é uma espada nas mãos de um artista de circo, para ser jogada para cima e depois pega, vez após vez, numa esplendorosa demonstração de habilidade, de forma que após vinte minutos o espetáculo acaba e a plateia vai para casa elogiando a qualidade do show. Esta espada se assemelha mais ao bisturi do cirurgião, e os médicos da Palavra precisam cortas profundamente." [Samuel T. Logan Jr., The Preacher and Preaching, Presbyterian and Reformed Publishing]. Só poderemos atingir profundamente o coração do ouvinte, se formos compreendidos. Ser compreendido é melhor do que ser impressionante.'

'Os maiores pregadores na história eram verdadeiros persuasores e litigantes. eles não tratavam de simplesmente jogar a verdade diante de seus ouvintes e dizer: "Aí está". Mas eles mostravam o quão vital ela [a verdade] era e instavam-lhes a aceitá-la. Eu sugiro uma leitura dos sermões de Charles Spurgeon e Martyn Lloyd-Jones para aprender a arte da persuasão. Em sua biografia de Martyn Lloyd-Jones, Iain Murray compartilha estas úteis palavras: "Expor não é simplesmente mostrar o sentido gramaticalmente correto de um versículo ou passagem, e sim demonstrar os princípios ou doutrinas que as palavras pretendem transmitir. A verdadeira pregação expositiva é, portanto, pregação doutrinária; é uma pregação que transmite verdades específicas de Deus para o homem. O pregador expositivo não é alguém que compartilha os seus estudos com os outros, e sim um embaixador e um mensageiro, transmitindo com autoridade a Palavra de Deus aos homens. Este tipo de pregação apresenta um texto, e então, utilizando aquele texto durante todo o discurso, há dedução, argumentação e persuasão, constituindo a mensagem que carrega a autoridade da própria Escritura." [Iain Murray, D. M. Lloyd-Jones, vol.2, Edimburgo: The Banner of Truth Trust, 1990, 261].'

'Deus prometeu que a sua Palavra não retornará vazia, mas fará aquilo que Lhe apraz (Is 55:10-11). Ele nos diz que a sua Palavra é "a espada do Espírito" (Ef 6:17). Ela é, na verdade, "viva, e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até ao ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas" (Hb 4:12). Além disso, ela é "apta para discernir os pensamentos e propósitos do coração" (Hb 4:12). Que ensinamentos maravilhosos são estes! Como seria penoso pregar sem eles! Mas com eles, podemos pregar com confiança. Pode até parecer que muitas vezes nossas pregações não estão atingindo qualquer objetivo - isto é, estão caindo em ouvidos surdos - mas estes versos [acima] nos asseguram de que este não é nosso caso. Deus realiza a sua vontade através da pregação bíblica. Ele a utiliza para colocar uma canção nos corações aflitos, coragem nos corações inconstantes, fé nos corações incrédulos e renovar a fé nos corações perdidos. Não podemos ver tudo isso acontecendo, mas acontece mesmo assim, e quando, finalmente, chegarmos à Sua presença, o Senhor se agradará em nos mostrar tudo o quanto Lhe aprouve fazer através de nossa pregação.'

'[...] Podemos pregar estes sermões sem nos dar conta da grandeza daquilo que estamos fazendo. O pregador precisa, portanto, estar constantemente se lembrando de que ele está, nas famosas palavras de Richard Baxter, "pregando como um moribundo para outros moribundos, sem a certeza de pregar novamente." [citado em Martyn Lloyd-Jones, Pregação e Pregadores].'

'[Roger Ellsworth] Quando preparo meus sermões, tento manter em mente um momento em particular, o qual ocorre todas as vezes que me coloco diante de minha congregação. Toda vez que assumo o meu lugar no púlpito, percebo aquele momento maravilhoso e ao mesmo tempo terrível (que costumo chamar "momento do rosto erguido"), quando o povo olha para cima em minha direção, com expectativa. É maravilhoso, porque eles estão me dizendo que estão prontos para ouvir a mensagem de Deus durante a próxima hora. Mas também é terrível, porque me faz perceber minha imensa responsabilidade. Lá no fundo, vejo o rosto daquele que geralmente frequenta os cultos, mas que ainda não conhece a Cristo e, imediatamente à sua frente, o rosto daquele que está sofrendo terrivelmente a perda de um ente amado. Lá adiante, vejo o rosto daquele adolescente que está tentando definir o que realmente importa em sua vida. À minha direita, no meio, vejo o rosto daquela pessoa que nunca esteve numa igreja antes, mas que decidiu vir para ver do que se tratam os cultos. E, bem na frente, vejo aquele membro fiel que tenta encontrar forças para prosseguir. Durante toda a semana estas pessoas ouvem o que as milhares de vozes da sociedade têm a dizer. Porém, agora, elas vieram à igreja para descobrir o que Deus tem a dizer. Eu fico lá, de pé, com seus olhos fitos em mim, e tremo ao me dar conta de que estou posicionado entre o céu e a terra. Sussurro uma oração para que Deus me ajude e, então, começo. Com a ajuda de Deus, o sermão toma vida e aqueles rostos continuam erguidos. Alguns concordam com a cabeça, e alguns olhos começam a brilhar. Quando deixo o púlpito, tenho certeza de que aquela era a mensagem de Deus e o momento dEle. Eu sei que aquelas pessoas ouviram do céu, e agradeço a Deus por Ele me ter feito um pregador.'

17 janeiro 2025

Livro: "Amado Timóteo" (CONTINUE ESTUDANDO)

Trechos do capítulo 12 - "Continue estudando" (Lingon Duncan) - do livro "Amado Timóteo: uma coletânea de cartas ao pastor", editado por Thomas K. Ascol (versão e-book/kindle):

A IMPORTÂNCIA DO ESTUDO
'Falando muito francamente, Timóteo, a maioria dos pastores evangélicos não lê ou estuda muito nestes dias, e a maior parte das igrejas não os encoraja a fazê-lo. Os membros da igreja e até mesmo pastores têm muita dificuldade em compreender quanto tempo é necessário para se preparar uma boa mensagem da Palavra de Deus, e, além disso, eles não conseguem enxergar a importância do pastor estudar outros assuntos além das pregações e devocionais. Há uma forte dose de anti-intelectualismo em nossos círculos de convivência e isto acaba por desencorajar qualquer homem disposto a fazer o trabalho árduo de desenvolver sua mente e expandir seus conhecimentos.'

'Mas exatamente porque o nosso povo está mergulhado num mar de informações triviais em nossos dias, eles precisam de um pastor com o verdadeiro conhecimento, muito discernimento e uma aptidão para ver a verdade. Este conhecimento precisa ser adquirido e estas qualidades cultivadas, porém ambos requerem que você se torne um estudante permanente. Este chamado para o estudo é, sem dúvida, completamente bíblico. A Bíblia enfatiza a importância de perseguir o verdadeiro conhecimento de modo geral aos sábios e de modo específico aos pastores. Provérbios 15.14 diz que "o coração sábio procura o conhecimento, mas a boca dos insensatos se apascenta de estultícia". Provérbios 18.15 reitera este princípio quando diz que "o coração do sábio adquire o conhecimento, e o ouvido dos sábios procura o saber". Provérbios 24.5 diz "Mais poder tem o sábio do que o forte, e o homem de conhecimento, mais do que o robusto"...[ver também Esdras 7.10Oséias 4.6; Malaquias 2.7]... Mas é nas epístolas pastorais que encontramos algumas das palavras de instrução e exortação mais diretas sobre o estudo ministerial. Paulo pôde dizer para Timóteo: "Procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade" (2Timóteo 2.15). Aqui nós temos uma diretriz apostólica a um jovem ministro para estudar com um empenho e esforço equivalentes ao de um incansável trabalhador braçal. O verdadeiro ministro é um trabalhador (Paulo realmente gosta desta metáfora!). Ele trabalha muito em sua tarefa O verdadeiro ministro deve trabalhar duramente, dedicando-se aos estudos, a fim de conhecer e pregar a verdade corretamente.'

'Além disso, Paulo dá a Timóteo um excelente exemplo de diligência nos estudos, através de suas próprias práticas e prioridades. Pense em seu extraordinário pedido, em 2Timóteo 4.13: "Quando vieres, traze a capa que deixei em Trôade, em casa de Carpo, bem como os livros, especialmente os pergaminhos". Pense neste pedido. Paulo está a apenas alguns meses da morte. Ele já havia escrito quase todas as cartas do Novo Testamento. Tem em seu passado toda uma vida de ministério. Apesar de tudo isso, o que ele quer fazer? Estudar! O inverno está se aproximando e Paulo pede sua capa, mas, ainda mais importante que isso, ele pede que lhe tragam seus livros e pergaminhos. Embora estivesse quase no fim de sua vida, Paulo almejava continuar aprendendo e crescendo através de leituras espiritual. Ninguém jamais proferiu uma meditação pastoral mais pungente a respeito deste pequeno versículo [2Timóteo 4.13] do que C.H. Spurgeon: "Como eles foram repreendidos pelo apóstolo! Ele foi inspirado, mas, ainda assim, quer livros! Ele esteve pregando por pelo menos trinta anos, mas, ainda assim, quer livros! Ele viu o Senhor, mas, ainda assim, quer livros! Ele teve uma experiência mais ampla que a maioria dos homens, mas, ainda assim, quer livros! Ele foi arrebatado ao terceiro céu, e ouviu coisas que eram proibidas ao homem pronunciar, mas, ainda assim, quer livros! Ele escreveu a maior parte do Novo Testamento, e, ainda assim, quer livros! O apóstolo disse a Timóteo e da mesma forma ele diz a todos os pregadores: ´APLICA-TE À LEITURA´. O homem que nunca lê, jamais será lido; aquele que nunca cita, jamais será citado. Aquele que nunca usa os pensamentos do cérebro de outros homens, prova que ele próprio não tem cérebro. Irmãos, aquilo que é verdade aos ministros também é aplicável a todo o nosso povo. Você precisa ler. Renuncie o máximo possível todo o tipo de literatura superficial, mas estude o máximo possível as sólidas obras teológicas, especialmente os escritores puritanos, e comentários da Bíblia. Estou completamente persuadido de que a melhor forma de você gastar o seu tempo de lazer é lendo ou orando. Assim você será capaz de extrair muitas informações dos livros, as quais depois poderão ser usadas como verdadeiras armas a serviço de seu Senhor e Mestre. Paulo clama: ´Traga os livros´ - junte-se a este clamor. O Paulo aqui retratado é um exemplo de diligência. Ele está na prisão; ele não pode pregar. O que ele irá fazer? Como não pode pregar, ele resolve ler. Igualmente temos outro exemplo, quando lemos sobre os pescadores de antigamente e seus barcos. Quando estavam fora de seus barcos, o que eles faziam? Remendavam suas redes. Então, se a providência o deitou sobre um leito, doente, e você não pode mais ensinar sua classe - se você não pode mais trabalhar para Deus em público, remende suas redes através da leitura. Se você está impedido de realizar determinada ocupação, tente outra, e deixe que os livros do apóstolo ensinem-lhe uma lição de diligência." [C.H. Spurgeon, Sermon #542: "Paul - His Cloak and His Books"]'

'Leia os clássicos e leia as fontes primárias. Você pode muito bem já ter encontrado com o famoso comentário de C.S. Lewis sobre isso, no livro "On the Reading of Old Books" (Sobre a Leitura de Livros Antigos), originalmente escrito como uma introdução do livro de Atanásio, "On the Incarnation" (Na Encarnação). Seu conselho é muito sábio. Lewis disse: "Uma ideia muito estranha tem circulado de que, em qualquer assunto, os livros antigos deveriam ser lidos apenas por profissionais, e de que os amadores deveriam se contentar apenas com os livros modernos. Assim sendo, eu tenho percebido, como professor de literatura inglesa, que se o aluno comum quer saber alguma coisa sobre o platonismo, a última coisa que ele pensaria em fazer é pegar uma tradução de Platão da estante da biblioteca e ler o Simpósio. Ele, ao invés disso, leria algum monótono livro moderno, com dez vezes mais páginas, todo sobre os ´ismos´ e influências, e que apenas a cada doze páginas faria alguma citação do que Platão realmente disse. O erro é certamente interessante, visto que surge da humildade. O aluno está um tanto amedrontado de se encontrar face a face com um dos grandes filósofos. Ele se sente inadequado e pensa que será incapaz de entendê-lo. Mas, se apenas conhecesse o grande homem por causa de seus grandes feitos, seria muito mais compreensível que seu comentador moderno. Mesmo o mais simples dos alunos seria capaz de entender, se não tudo, boa parte daquilo que Platão disse; dificilmente alguém entende alguns dos livros modernos sobre o platonismo. Portanto, um dos meus maiores esforços como professor sempre tem sido persuadir os mais jovens de que o conhecimento de primeira mão, não só é algo mais valioso de ser adquirido que o conhecimento de segunda mão, como também, é geralmente muito mais fácil e prazeroso. A preferência equivocada pelos livros modernos e esta desconfiança pelos livros antigos não se mostra mais presente em qualquer lugar do que na teologia. Onde quer que você encontre um pequeno grupo de estudo de cristãos leigos, você pode estar quase certo de que eles não estão estudando [...] Lucas, [...] Paulo, [...] Agostinho, Tomás de Aquino, Hooker, ou até mesmo Butler, mas sim Berdyaev, Maritain, Niebuhr, Sayers, ou, ainda, a mim mesmo [C.S. Lewis]. Isto me parece uma grande confusão. Naturalmente, uma vez que eu mesmo sou escritor, não desejo que o leitor comum cesse de ler todo e qualquer livro moderno. Mas se ele tivesse de ler apenas os livros modernos ou somente os livros antigos, eu lhe aconselharia a ler os antigos. E lhe daria este conselho exatamente porque ele é um amador e, como tal, muito mais desprotegido do que os especialistas, contra os perigos de uma dieta exclusivamente contemporânea. Um novo livro ainda está em seu período de experimentação, e o amador não está em posição de julgá-lo. Ele deve ser testado pelo maravilhoso corpo do pensamento cristão através dos tempos, e todas as suas implicações secretas (muitas vezes insuspeitadas pelo próprio autor) devem ser trazidas à luz. Com frequência, [o livro moderno] não pode ser completamente compreendido sem o conhecimento prévio de muitos outros bons livros modernos. Se às onze horas você entrar no meio de uma conversa que teve início às oito [horas], provavelmente não compreenderá a real posição do que está sendo dito. Observações que para você pareçam comuns, podem acabar produzindo risos ou irritação nos outros participantes, e você não conseguirá saber o porquê disto - a razão, obviamente, é que os estágios anteriores da conversa acabaram dando a eles uma outra perspectiva. Da mesma forma, as frases de um livro moderno que pareçam sem significado para você, podem estar relacionadas a algum outro livro; desta forma, você pode acabar aceitando aquilo que teria rejeitado fortemente, caso soubesse o seu verdadeiro significado. A única segurança é ter um padrão de cristianismo claro, focado no núcleo do cristianismo (´mero cristianismo´ como Baxter dizia), que coloque as controvérsias do momento em sua perspectiva adequada. Tal padrão pode ser adquirido somente nos livros antigos. É uma boa regra, após ler um livro moderno, nunca ler outro, sem antes ter lido um livro antigo entre eles. Se isto for muito difícil para você, tente ao menos ler um livro antigo a cada três livros modernos. [...] O único paliativo é manter a limpa brisa marinha dos séculos passados soprando em nossas mentes, e isso só pode ser feito através da leitura de livros antigos. Não que haja alguma mágica sobre o passado. As pessoas não eram mais inteligentes do que são hoje; elas cometiam tantos erros quanto nós. Porém, não os mesmos erros. Elas não irão nos engabelar nos erros que nós já estamos cometendo; e os seus próprios erros, estando agora já claros e tangíveis a todos, não irão nos causar perigo. Duas cabeças pensam melhor do que uma, não porque uma delas seja infalível, mas porque dificilmente elas irão errar na mesma direção. Esteja certo de que os livros do futuro seriam um corretivo tão bom quanto os livros do passado, mas infelizmente nós não podemos ter acesso a eles." [C.S. Lewis, God in the Dock, William B. Eerdmans Publishing]'

'Então, uma forma de você evitar ser pego nas banalidades, trivialidades e modas passageiras do "aprendizado" atual é interagindo com os melhores pensadores do passado. Por trás do meu chamado para ler muito, lembro o sábio conselho de Thomas Brooks: "Cristo, as Escrituras, o seu próprio coração, e os artifícios de Satanás, são as quatro coisas principais que deveriam ser mais estudadas e pesquisadas. Se alguém descarta o estudo, não poderá estar seguro aqui, ou na vida futura. É meu dever como cristão, e muito mais, visto que sou também um sentinela, fazer o meu melhor para descobrir a plenitude de Cristo, o vazio da criatura, e os ardis do grande enganador".'

'Algo que desejo enfatizar, exatamente por ser de modo geral tão negligenciado entre aqueles que são devotados ao estudo, é a relevância de viver e aprender. Com isto eu quero dizer, por um lado, que você deve estar constantemente se perguntando como o aprendizado está agindo em sua vida. Por causa do meu aprendizado, estou amando mais a Deus, amando mais as Escrituras, estou mais devoto a Cristo, mais comprometido com o ministério do reino, mais piedoso, sou um pai e um marido cristão melhor, sou mais amável com meus vizinhos, mais justo, misericordioso e humilde e estou crescendo em graça? Jesus enfatizava regularmente em seus ensinos que as nossas obras mostram o que nós realmente amamos e acreditamos. Consequentemente, nossas atitudes, ações e prioridades na vida revelam os segredos do coração. Se o seu aprendizado não está lhe ajudando em sua vida e em seu pastorado, de acordo com a ênfase e o padrão bíblicos, então o seu aprendizado está indo muito mal.'

'[...] Especialmente as providências sombrias de Deus - sofrimento, provações, testes, frustrações, "perdas e cruzes", como diziam os puritanos - revelam a extensão de nosso aprendizado. Benjamim Disraeli, certa vez, disse: "Ver muito, sofrer muito e estudar muito, são os três pilares do aprendizado". Ele estava apenas ecoando palavras de Lutero, também encontradas na Bíblia, que dizem: "Oração, meditação e tentação (significando provações e testes) fazem o cristão". Na verdade, [Martinho] Lutero se expressou de maneira mais provocativa que esta, quando disse que um pregador não é feito pela leitura de livros, e sim "vivendo e morrendo e sendo amaldiçoado". Em outras palavras, Deus forja os pregadores em seu cadinho. Nunca se esqueça disto. Deus faz um ministro do evangelho quebrando o coração daquela pessoa. Não foi isto uma das coisas que Jesus quis dizer, quando nos chamou para tomar nossa cruz e segui-Lo?'

'[...] Nós queremos aprender a fim de sermos úteis à igreja [...] Esteja motivado a aprender para que seu aprendizado possa abençoar a igreja como um todo.'

QUAL O SEU ALVO AO ESTUDAR
'Entre os seus objetivos ao estudar, obviamente haverá a glória de Deus, seu crescimento pessoal na graça, a edificação de outros e o desenvolvimento de suas próprias capacidades como professor e pregador. Relacionando-se a este assunto, seria bom lembrarmos das três máximas de Herman Witsius (o famoso pastor e teólogo holandês do século dezessete) que diziam: "Ninguém ensina bem, sem que antes tenha aprendido bem"... "Ninguém aprende bem, sem que antes aprenda a fim de ensinar"... "Tanto aprendizado quanto ensino são vãos e inúteis, sem que sejam acompanhados da prática". Estas palavras são dignas de apreciação, assim como o pequeno clássico de Witsius, On the Character of a True Theologian (Sobre o Caráter do Verdadeiro Teólogo).'

O QUE VOCÊ FAZ COM OS SEUS ESTUDOS
'O verdadeiro estudo do evangelho deve sempre nos levar à oração. Quando estudamos algo que nos leva a compreender a grandeza de Deus e de sua obra salvífica, isso deveria nos induzir a adoração, ação de graças e louvor. Não devemos resistir ao impulso de orar durante nossos estudos. Quando lemos alguma coisa que nos convence de culpa, devemos ser impelidos a confessar o pecado em oração. Quando lemos algo que nos lembra da terrível condição dos outros, devemos ser movidos a interceder por eles. Quando lemos algo destruidor ou potencialmente danoso ao bem-estar espiritual dos outros, devemos implorar a Deus que arranque todo o veneno, que poupe as ovelhas descuidadas, que repreenda os falsos pastores, que proteja os pastores fiéis e que poupe nossas próprias almas do contágio da falsidade.'

03 janeiro 2025

Livro: "Amado Timóteo" (HUMILDADE)

Trechos do capítulo 7 - "Cultive a humildade" (C.J. Mahaney) - do livro "Amado Timóteo: uma coletânea de cartas ao pastor", editado por Thomas K. Ascol (versão e-book/kindle):

'Muitas pessoas acreditam na Bíblia. Muitos pastores a conhecem extremamente bem. Muitos reconhecem que ela é nosso único e inteiramente confiável guia para a vida e fé. Mas igrejas fortes — isto é, igrejas nas quais os membros estão crescendo em santificação e glorificando cada vez mais a Deus, tanto em suas vidas públicas quanto privadas — são igrejas nas quais os líderes não se limitam a meramente ensinar a sã doutrina. Eles também lideram, e são verdadeiros modelos, na aplicação consistente da verdade bíblica em toda a sua vida. Eu afirmo isto com inteira confiança: daqui a uma década, seu ministério terá frutificado na mesma medida que você tanto tenha ensinado as Escrituras de forma apropriada quanto também a tenha aplicado de maneira consistente — em sua própria vida, na vida de sua família, entre seus companheiros presbíteros e na sua igreja. Igrejas eficazes são construídas não somente através do ensino da verdade bíblica, mas também através da aplicação dessa verdade, pela graça de Deus.'

'[C.J. Mahaney] Por muitos anos, mantive uma lista de práticas [para cultivar a humildade]. Elas derivaram das três décadas que passei procurando crescer na graça. Algumas são itens de específica aplicação diária - são coisas que eu realmente tento observar todos os dias. Outros desses itens são áreas de ênfase e de aplicação regular e consistente durante todo o ano. Na falta de um termo melhor, eu a chamo de minha lista anual. São as coisas nas quais procuro dedicar grande parte de minha atenção, para que meu caráter continue a ser informado sobre os efeitos dominadores do orgulho e aqueles que induzem à humildade. Não conheço nenhuma forma melhor de crescer em humildade do que observar um conjunto de práticas concretas e tangíveis. Aqui estão aquelas que, pela graça de Deus, têm provado sua eficácia para mim. Não estou encorajando uma rigorosa imitação destas práticas. Eu as ofereço para instigá-lo a considerá-las, de modo que você venha a desenvolver sua própria lista. Mas para o bem de sua própria família, e de sua igreja, você deve ter uma lista.'

[1]. 'O primeiro item de minha lista anual é estudar os atributos de Deus. Focando-me especialmente nos atributos incomunicáveis de Deus, aqueles que não têm reflexo ou ilustração no homem ou em qualquer lugar da criação. (Note como, em Isaías 66, Deus chama nossa atenção para sua grandeza única e sem paralelos) [...] Verdadeiramente, meu amigo, esta é a profundeza do mar teológico. Este Ser infinito é auto-existente e auto-suficiente. Tudo na criação, desde você e eu, até às criaturas celestiais, aos átomos de gás nas profundezas do espaço, estão, para sua mera existência, momento a momento, sob completa dependência da atenção sustentadora de Deus. Mas antes do tempo, e por todo o tempo, e ainda fora do tempo, Deus sempre e unicamente depende de si mesmo. Nós somos como a grama que murcha e seca, mas Ele sozinho tem o poder da existência absoluta. Como Matthew Henry, escreveu: “O maior e melhor de todos os homens no mundo tem de dizer ‘Pela graça de Deus eu sou o que sou’. Mas Deus diz apenas — ‘Eu sou o que sou’ — e isso é mais do que qualquer outra criatura, homem ou anjo, poderia dizer” [Matthew Henry, Commentary on the Whole Bible, vol.1, Êx 3:14]. Tal contemplação irá inevitavelmente enfraquecer o seu orgulho.'

[2].'Em segundo lugar, nunca se desvie do caminho da cruz. Viva como alguém que constantemente avista — e bem próximo — a cruz maravilhosa, na qual o Príncipe da Glória morreu. Como eu disse antes, não posso fazer nada além, e certamente também não posso fazer nada melhor, que chamar sua atenção à centralidade do sacrifício do nosso Salvador. Um amigo certa vez contou-me sobre uma oportunidade que ele teve de entrevistar Carl Henry, um homem verdadeiramente humilde que, como você bem sabe, é provavelmente o intelectual evangélico mais importante da última metade do século vinte. Ele perguntou ao Dr. Henry, que já se aproximava dos oitenta anos, como ele havia permanecido tão humilde por tantas décadas. O Dr. Henry apenas respondeu: “Como alguém pode ser arrogante quando se coloca ao lado da cruz?” Eu não tenho qualquer ilusão de que meu caráter sequer se aproxime daquele do Dr. Henry, mas há um livro que teve valor incalculável em ajudar-me a permanecer ao lado da cruz: The Atonement, de Leon Morris.'

[3].'Em terceiro lugar, estude as doutrinas da graça. Conforme você mergulhar nos estudos da eleição, chamado, justificação e perseverança, será lembrado de que tudo o que temos e tudo o que somos como cristãos começa em Deus, termina em Deus e depende de Deus. Estas doutrinas tão ricas não deixam qualquer espaço para autocongratulação. Mark Webb escreveu: “Deus planejou a salvação de forma que nenhum homem possa se orgulhar dela. Ele não apenas a preparou de um modo que o orgulho fosse desencorajado ou mantido em níveis mínimos; Ele a planejou de tal forma que o orgulho é absolutamente excluído. A eleição faz precisamente isto” [Mark Webb, What Difference Does It Make?; Reformation & Revival Journal 3, no. 1 (Winter 1994)]. A arrogância pessoal e uma verdadeira apreciação pela teologia reformada não podem co-existir; a verdade expulsará o orgulho de seu covil. Para mim, um livro muito útil nesta área tem sido a obra de Anthony Hoekema, Saved by Grace (Salvos pela Graça).'

[4].'Em quarto lugar, estude a doutrina do pecado. Eu li sobre uma placa que estava no espelho do provador de uma loja, que dizia: “Objetos no espelho podem parecer maiores do que eles realmente são”. Timóteo, quando você permite que a doutrina do pecado instrua a sua autopercepção, esta não será a sua experiência. Compreender a profundidade e a depravação do pecado em nossas vidas, não permite que tenhamos uma percepção enfatuada de nós mesmos. A melhor forma de se preparar para o estudo do pecado é, em primeiro lugar, estudar a santidade de Deus, pois somente nela podemos encontrar a inexistência absoluta de pecado. Examine as Escrituras neste tópico, e assegure-se de ler o livro The Holiness of God (A Santidade de Deus), de R. C. Sproul.'

[5].'Em quinto lugar, ponha a doutrina do pecado em prática. Vendo que todos os homens são pecadores, Mike Renihan observa: “Os pecadores podem ser divididos em dois grandes grupos: aqueles que admitem seu próprio pecado, e aqueles que não admitem. Dentre aqueles que admitem serem pecadores, podemos ver dois outros grupos: aqueles que tomam alguma atitude em relação a isto, e aqueles que nada fazem a respeito” [Mike Renihan, A Pastor's Pride and Joy, Table Talk 53 (July 1999)]. Timóteo, o pastor humilde é o homem que toma alguma atitude a este respeito, especialmente através da confissão e da busca pela correção.'

'Por acaso sua esposa, seus amigos ou até mesmo aqueles que servem com você em sua igreja poderiam dizer que você pede ajuda sem dificuldade? Alfred Poirier escreveu um artigo excelente neste assunto, intitulado The Cross and Criticism (A Cruz e a Crítica). Os itens que acabei de citar ajudarão qualquer cristão a crescer em humildade, mas os que estão alistados a seguir se aplicam especificamente a pastores.'

[1].'Estude diligentemente, mas reconheça suas limitações teológicas. Enquanto seus filhos crescem, Timóteo, você será várias vezes bombardeado com questões teológicas que simplesmente não é capaz de responder. Nosso filho Chad, que recentemente fez nove anos, faz muitas destas perguntas, e várias vezes eu simplesmente tenho de dizer: “Eu não sei, filho”. (Na verdade, eu digo isto tão frequentemente que a esta altura ele pode estar pensando que não é necessário saber muita coisa para se tornar um pastor). Os membros da sua congregação também irão lhe fazer perguntas difíceis. Sejamos apropriadamente influenciados pela estimativa de Calvino de que até mesmo os melhores teólogos estão certos apenas 80 por cento das vezes. Então, em meu melhor dia, qual terá sido minha porcentagem? Metade disso? Além do mais, até onde eu saiba, nunca tive algum pensamento original. Quando ensino ou aconselho, estou me beneficiando dos trabalhos de homens melhores e mais sábios que vieram antes de mim. Se hoje enxergo alguma coisa, é apenas porque me apoio nos ombros deles — e jamais gostaria de deixar em alguém uma impressão diferente desta. Quando estiver instruindo ou aconselhando, a consciência de suas limitações suavizará e fará humilde suas atitudes, tom de voz e até mesmo suas conversas.'

[2].'Logo antes de pregar, leia Spurgeon. Sempre que possível, tento encontrar e ler na noite de sábado, algum sermão de Charles Spurgeon no mesmo assunto ou texto que estarei pregando na manhã seguinte. Spurgeon mostra como deveria ser a pregação, e o lembra de que você não consegue pregar daquela forma. Ler o Príncipe dos Pregadores sempre rebaixa minha opinião sobre meu próprio sermão, e aumenta minha dependência de Deus.'

[3].'Use em seus sermões e aconselhamento, ilustrações livres de quaisquer méritos ou elogios sobre você mesmo. A preparação de meus sermões não está completa, até que eu tenha conseguido inserir uma confissão pessoal apropriada ou uma ilustração que me traga humildade. Baseado nos comentários que tenho recebido ao longo dos anos, estas são as coisas mais memoráveis que digo (o que é por si mesmo bastante aviltante). Esta prática também apresenta a todos os reunidos ali um exemplo desafiador de humildade.'

[4].'Reconheça sua relativa insignificância. Um pastor é um meio vital da graça para a sua igreja e aos que ele serve. No entanto, ao mesmo tempo, ninguém é insubstituível. Charles DeGaulle observou isto: “Os cemitérios estão cheios de homens indispensáveis”. Caso eu morresse antes de terminar esta carta, o que aconteceria? Haveria alguma lamentação entre aqueles que me amam. Mas em alguns meses este pranto teria praticamente desaparecido. Em seis meses, para quase todos, eu não seria nada além de uma doce memória, uma voz vagamente familiar guardada em alguma fita velha e esquecida. Deus, em sua misericórdia e amor pela igreja, consagraria ricamente meu substituto até que a eficiência dele claramente sobrepujasse a minha. E quanto a mim, não me importaria nem um pouco. Eu estaria no céu!'

[5].'Prepare-se para ser substituído. Estou aqui apenas esquentando o banco para alguma outra pessoa. O tempo pode ser incerto, mas um dia certamente serei substituído. E você também. Nossa substituição é inevitável. Você faria bem, se começasse desde agora a preparar seu coração, a fim de que quando a mudança aconteça você seja capaz de responder de uma forma que traga glória para o nome de Deus e honra para a sua igreja.'

[6].'Jogue futebol o mais frequentemente possível, e assegure-se de estar jogando com amigos que não hesitarão em fazer piadas das terríveis jogadas que você certamente fará de tempos em tempos. Esse é um bom esporte para exercitar a humildade.'

'Tenho de seguir adiante, bem rápido, agora, em minha lista diária [...] Ela me ajuda, durante o dia todo, a tirar vantagem daqueles inúmeros momentos mundanos [seculares], que podem ser transformados em meios de experimentar a graça de Deus. E também me ajuda a terminar o dia completamente consciente de que Sua graça faz todas as coisas boas possíveis.'

[1].'Primeiramente, comece o dia admitindo sua dependência de Deus, sua necessidade de Deus, e sua confiança em Deus. Timóteo, estou me referindo aos primeiros pensamentos do dia. Quando o despertador toca, imediatamente procuro dirigir meu coração para Deus, expressando minha dependência dEle. E, propositadamente, continuo a cultivar esta atitude, conforme me preparo para o dia. Se eu não o fizer, meus pensamentos irão — com toda a certeza — em direção à autodependência.'

[2].'Em segundo lugar, enquanto você direciona seus pensamentos para Deus, ajusta o tom para o dia todo, expressando gratidão a Ele. “A gratidão é um solo no qual o orgulho dificilmente cresce” [Michael Ramsey, The Christian Priest Today, Londres, SPCK, 1972, 79], e a gratidão começa com o evangelho. A melhor forma que encontrei para lutar contra o esquecimento e a distração que tão facilmente minam nossa gratidão é — como Jerry Bridges diz — pregar o evangelho para si mesmo todos os dias. Então comece cada dia fazendo exatamente isto, e, então, direcione a sua gratidão para Deus, por causa do evangelho. Conforme o dia avança, proponha-se a reconhecer e expressar gratidão pelos inúmeros “lembretes” que Deus coloca ao nosso redor, a fim de não nos esquecermos de sua graça. Dizem que ao conhecer Matthew Henry as pessoas logo se davam conta de que ele estava sempre alerta e era um grato observador das respostas de oração. Eu quero ser como ele. A ingratidão é a marca de um homem orgulhoso; porém, expressar gratidão consistentemente é um golpe fulminante em minha arrogância autoglorificadora.'

[3].'Em terceiro lugar, pratique as disciplinas espirituais todos os dias. Estou convencido de que é sempre melhor fazer isto pela manhã, em parte porque ajuda a ajustar o clima de dependência de Deus para o dia. A disciplina espiritual é uma declaração aliada a uma demonstração diária de minha necessidade de Deus e minha dependência dEle. Considero impressionantes as palavras de Charles Hummel: “Quando falhamos em esperar, em orações, pela direção e força de Deus, estamos dizendo com nossas ações, se é que já não o fazemos com nossos próprios lábios, que não precisamos dEle” [Charles E. Hummel, Tyranny of the Urgent (A Tirania do Urgente)]. Acredito que nossa inconsistência na prática das disciplinas espirituais não se deve primeiramente a falta de autodisciplina, mas à presença de auto-suficiência. Praticar as disciplinas espirituais é um meio de enfraquecer diariamente a auto-suficiência orgulhosa e de cultivar a humildade.'

[4].'Em quarto lugar, aproveite o tempo que você gasta no trajeto entre sua casa e o escritório da igreja para memorizar e meditar nas Escrituras. Quando William Wilberforce estava servindo na Câmara dos Comuns, ele usava sua caminhada de quinze minutos, de sua casa ao Parlamento, para recitar de memória todo o Salmo 119. Isto sim é um tempo bem gasto.'

[5].'Em quinto lugar, quando, durante o dia surgirem problemas pesados demais para você carregar, deposite-os diante do Senhor, que cuidará deles por você. Onde existe preocupações e ansiedade, há o orgulho da auto-confiança. O homem humilde, embora possa ser responsável por muitas coisas, é livre de preocupações — ele é tranquilo. Sua vida é caracterizada pela alegria e paz, pois é impossível estar preocupado quando se confia no Soberano.'

[6].'Sexto, quando o dia de trabalho acaba, ao invés de simplesmente ir para casa, aproveito a oportunidade para cultivar a humildade. Não importa o quão “bem-sucedido” ou “mal-sucedido” eu tenha sido naquele dia (em minha avaliação limitada), reconheço que Deus é o único que sempre completa perfeitamente sua lista diária de afazeres, e confio tudo aquilo que não pude concluir à sua guarda. Amanhã, eu voltarei e, por sua graça, tentarei de novo. Então, ao fim do dia, procuro transferir toda a glória para Deus. O puritano Thomas Watson escreveu: “Quando tivermos feito qualquer coisa digna de elogios, devemos nos esconder sob o manto da humildade e transferir a glória de tudo quanto fizemos a Deus” [Thomas Watson, A Body of Divinity]. Grato por este tão precioso conselho, uso alguns momentos à noite apenas para recapitular meu dia. Para cada evidência de frutificação ou progresso que testemunhei ou experimentei naquele dia, tento atribuir especificamente a Deus o fato inegável de que Ele é o único responsável.'

[Finalmente].'Finalmente, antes de ir dormir à noite, reconheço que dormir é um dom do Criador para suas criaturas. Eu não apenas vou dormir passivamente. Aproveito esta oportunidade diária para enfraquecer o orgulho e cultivar a humildade através do reconhecimento de que Ele não descansa e nem dorme. Dormir, para mim, é um lembrete diário do quão longe estou da auto-suficiência. Deixe-me colocar isto da seguinte forma: eu tenho uma necessidade desesperadora, irreversível e fisiológica de passar uma parte substancial de cada período de vinte e quatro horas em um estado de incapacidade física e mental, totalmente indefeso e completamente inútil. Isto não é cômico? Deus, então, usa este tempo para me fortalecer e me restaurar para o dia seguinte — um dia no qual, invariavelmente, falharei em obedecê-Lo inteiramente; ainda assim, Ele redimirá minhas ações para produzir uma certa quantidade de frutos. Como isto não poderia produzir um senso de humildade?'

02 janeiro 2025

Livro: "Amado Timóteo" (ORAÇÃO)

Trechos do capítulo 6 - "Ore sempre" (Martin Holdt) - do livro "Amado Timóteo: uma coletânea de cartas ao pastor", editado por Thomas K. Ascol (versão e-book/kindle):

'Não há nenhuma eficácia especial nas orações dos ministros. Somente Cristo tem esta eficácia. A base de nossa oração é sempre, e deve ser sempre, a obra mediadora de Cristo. Nosso trabalho como pastores não é apresentar um sacrifício pelos homens, e sim persuadi-los a acreditar num Sacrifício já oferecido. No entanto, é exatamente baseado nisto que nós rogamos a Deus em favor dos homens. Neste sentido, a oração é nosso trabalho mais importante. É um trabalho árduo. É uma luta contra o adversário. É uma batalha contra a carne. É um trabalho essencial. O ministro que não ora por seu rebanho não é ministro de jeito algum. Ele é orgulhoso, porque faz seu trabalho como se pudesse obter algum sucesso sem o poder de Deus. Ele não mostra misericórdia, porque não é capaz de perceber que a maior necessidade de seu povo são os favores divinos do Senhor sobre eles. Assegure-se disto, se ele não orar, pagará um alto preço. Considere as palavras sensatas de John Smith: "A oração é a vida e a alma da função sagrada: sem ela, não podemos esperar qualquer sucesso em nosso ministério; sem ela, nossas melhores instruções são inférteis e nosso trabalho mais penoso não produz efeito. Antes que lancemos terror sobre aqueles que quebraram a lei, precisamos antes, assim como Moisés, passar muito tempo com Deus em um lugar retirado. A oração frequentemente alcança o sucesso para pequenos talentos, enquanto que os maiores talentos sem oração são simplesmente inúteis e perniciosos. Um ministro que não é um homem de piedade e oração, quaisquer que sejam seus outros talentos, não pode ser chamado um servo de Deus; muito pelo contrário, ele é na verdade um servo de Satanás, escolhido por ele pela mesma razão que ele escolheu a serpente em tempos remotos, visto ser ela o mais sutil dos animais criado pelo Senhor. Que monstro, oh, Deus, este tipo de pastor deve ser, este dispensador das ordenanças do evangelho, este intercessor entre Deus e o seu povo, este reconciliador do homem com o seu Criador, se ele não se enxerga como um homem de oração".'

'Timóteo, listei a seguir dez aspectos importantes da oração bíblica que devem ser lembrados:'

[1].Necessidade. Deus não tem filhos mudos; muito menos, servos mudos. Quando aquele fariseu dos fariseus, Saulo de Tarso, foi convertido, ele imediatamente começou a orar. Quando o anjo anunciou esta conversão para Ananias, a descrição principal dada sobre Saulo foi: “Pois ele está orando”. É como se o anjo estivesse dizendo: “Ele nunca fez isto antes”. Antes ele agia impensadamente. Mas agora que havia experimentado o Espírito da adoção e é um herdeiro de Deus e co-herdeiro junto de Cristo, está orando e sua voz é escutada. Isto agora se tornou uma necessidade para ele. Sem oração um homem não pode ser cristão. 

[2].Urgência. No momento em que uma alma recém-nascida começa a apreciar as glórias de sua translação do reino das trevas para o reino da Luz, ela também começa a enxergar o mundo como um lugar no qual o nome de Deus está sendo desonrado. Ela, então, implora urgentemente com as seguintes palavras: “Porventura, não tornarás a vivificar-nos, para que em ti se regozije o teu povo?” (Sl 85.6), e “Já é tempo, Senhor, para intervires, pois a tua lei está sendo violada” (Sl 119.126). A negação da autoridade e soberania de Deus é um clamor para a ação divina. Você conhece algo tão urgente?

[3].Valorize a importância da oração. Nós somos impotentes sem ela. Não chegamos a lugar algum sem ela. Nosso Senhor voltou do Monte da Transfiguração para presenciar uma triste cena: um grupo de discípulos impotentes diante da incrível necessidade humana. Eles dizem a Jesus: “O que está errado?” Ele lhes responde que, em essência, precisam aprender a orar. Como venceremos os obstáculos? Nós, também, às vezes parecemos ficar impotentes diante das necessidades humanas. Teríamos nós abandonado o lugar secreto do Altíssimo para nossa própria perda e impotência no púlpito? Que Deus nos desperte! 

[4].Impotência. No Salmo 50.7-12, Deus declara sua auto-suficiência. No contexto, Ele nos ensina sobre nossa dispensabilidade e impotência. Deus não precisa de nossas orações. Nós precisamos dEle. Ele não precisa de nós! Uma vida de oração é o calvinismo em sua melhor forma; é uma declaração simples, aberta e honesta na presença de Deus, de total impotência. Se a salvação vem do Senhor, e se as pessoas devem ser convertidas, isto deve ser pela graça de Deus, pelo poder de Deus e através do evangelho. Nunca é por causa de quem eu sou, e sim apesar de quem eu sou. A propensão para o orgulho existe e irá nos arruinar, se não estivermos sempre vigilantes. Se não orarmos, Deus não sofrerá nenhuma perda quanto ao que fazer sobre a situação. Quando Mordecai tentou convencer Ester da importância de sua intervenção na crise nacional, a qual estava colocando em risco a existência futura dos judeus, e quando ela estava mais preocupada com sua própria preservação do que com qualquer outra coisa, a mensagem dele equivalia a dizer: “Você já parou para pensar, Ester, que você não é indispensável? Se você não fizer nada sobre isto, o livramento virá de algum outro lugar. Deus não depende de você. Mas, quem sabe? Talvez você tenha vindo ao reino para um tempo como este? Por que não mostrar-se à altura da situação?

[5].Constância. Paulo nos exorta em 1 Tessalonicenses 5.17 a orar “sem cessar”. Davi orava sete vezes por dia; Daniel, três vezes por dia. Lutero, ao encontrar um amigo na rua, diria: “Irmão, eu te encontro orando?” 

[6].Conteúdo. Por que orações foram registradas nas Escrituras? Por que o Espírito Santo considerou importante que tivéssemos colunas e mais colunas das Escrituras Sagradas dedicadas às orações que foram oferecidas por Daniel, Neemias, Paulo e Jesus Cristo? Ele fez isto para que você e eu pudéssemos aprender a orar. Oh, que as orações assumam um caráter mais bíblico! Oh, que as orações sejam uma expressão da vontade de Deus, tal como é mostrado nas Escrituras! 

[7].Importunidade. Isto é, entender a vontade de Deus e trazê-la diante dEle para sua própria atenção, contínua e persistentemente. É dar a Deus nenhum descanso até que Ele traga paz à Jerusalém. Afinal de contas, é a vontade de Deus que sua Jerusalém, o corpo de Cristo, seja resplandecente com a sua glória, e um louvor a Deus na terra. Se a igreja não é aquilo a que foi chamada a ser, não deveríamos nós implorar pela misericórdia de Deus para que o corpo de Cristo seja feito uma honra ao seu nome neste pobre e miserável mundo? Jesus não nos deu a parábola da viúva importuna, nas palavras de Lucas 18.1, “sobre o dever de orar sempre e nunca esmorecer”? Quão sério você é em sua preocupação com a igreja de Deus?

[8].Certeza. Isto significa fé. Não tem nada a ver com Deus nos dando algum tipo de cheque em branco para o preenchermos. A fé é fundamentada na vontade de Deus. A fé descobre o coração de Deus nas páginas das Escrituras. A fé esforça-se por conhecer a Deus. A fé concebe orações tocantes, como a de João 17. “Pai”, orou Jesus, “a minha vontade é que onde eu estou, estejam também comigo os que me deste, para que vejam a minha glória que me conferiste, porque me amaste antes da fundação do mundo”. A fé toma conhecimento desta expressão da vontade do Salvador e a leva para Deus, vez após vez. Ela deposita esta vontade diante dos pés dEle. A fé roga: “Pai, o seu povo, por quem Cristo orou, precisa ser levado em asas de águias. Leve-os em segurança através de sua jornada por este mundo perverso e hostil. Leve-os através dos portões da morte e para dentro do lar eterno na glória”. Martinho Lutero pode ter soado impudente [sem pudor] na forma como orou, quando se pôde ouvi-lo dizer: “Pai, que se faça a minha vontade, porque eu sei que a minha vontade é a sua vontade”. Portanto, ele tinha compreendido a vontade do Pai e expressava isto em sua oração. 

[9].Extensão. Quando o crente tem uma mente que é capaz de alcançar muito além dos limites das pequenas mentes dos homens, e olha além do horizonte para enxergar e entender os propósitos gloriosos de Deus na redenção, ele ora de acordo com estes propósitos de Deus. “Pede-me, e eu te darei as nações por herança e as extremidades da terra por tua possessão” (Sl 2.8), diz o Pai para o Filho. O crente aceita esta promessa em oração. Sua maior alegria e seu maior prazer estão em saber que os rebeldes dobram os joelhos diante do Filho de Deus, que eles tocam o cetro estendido a eles, e que assim são salvos pela graça. O crente, de joelhos, anseia mais que qualquer outra coisa — que Cristo possa ter um seguidor, um seguidor que O adore. Ele espera que um seguidor admire a Jesus. Todo intercessor pode se identificar com Spurgeon, sobre quem Archibald Brown disse, certa vez: “Ele O amou, ele O adorou, ele era nosso satisfeitíssimo cativo do Senhor”. Quando Paulo orou, pensou grande. Veja sua oração em Efésios 3.14-21. Pense grande, quando você orar!

[10].Objetivo. O objetivo é a glória de Deus. “Santificado seja o teu nome”. “Deixe que o nome de George Whitefield pereça”, disse este homem, “mas que o nome de Cristo viva pelos séculos dos séculos!” Quando o próprio Jesus levantou seus olhos aos céus, Ele disse: “Pai, é chegada a hora; glorifica a teu Filho, para que o Filho te glorifique a ti, e, agora, glorifica-me, ó Pai, contigo mesmo, com a glória que eu tive junto de ti, antes que houvesse mundo” (Jo 17.1,5). O crente responde imediatamente com um entusiástico: “Assim seja”.


'Eu [Martin Holdt] termino citando um grande pastor americano de uma geração anterior. Gardiner Spring disse: "Já se foi o tempo quando os pastores das igrejas [norte] americanas valorizavam o privilégio da oração; eles não somente eram homens de oração, mas também oravam frequentemente com os outros e uns pelos outros. Suas recíprocas e fraternas visitas eram consagradas e adocicadas pela oração, e também não era nem um pouco incomum que eles se juntassem para passar dias inteiros em jejum e oração, para que as efusões do Espírito de Deus viessem sobre eles e suas igrejas, e aqueles eram dias de poder, dias em que o braço forte de Deus se mostrava e sua mão direita sustentava, nem era difícil ver onde a imensa força do púlpito encontrava-se. E o mais fraco dentre eles, naquele dia, será como Davi, e a casa de Davi será como Deus." [ver Zc 12:8]'


29 dezembro 2024

Aprendizado piedoso 202

“Além de nos curvarmos perante Sua Palavra, também temos de nos curvar continuamente em oração diante de Seu trono. Lá, poderemos aprender a próspera ocupação de pedir. Como você bem sabe, no Reino de Deus, os pedintes tornam-se ricos.” 

[Ted Christman, no cap. 4 do livro “Amado Timóteo: uma coletânea de cartas ao pastor” (editor Thomas Ascol)]