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11 agosto 2025

A incapacitante incapacidade de ser indiferente

"Não vos comove isto, a todos vós que passais pelo caminho? Considerai e vede se há dor igual à minha" (Lm 1:12a)

Ser indiferente, segundo os dicionários, é definido como: "uma atitude neutra em relação a Deus, que é tão perigosa quanto a hostilidade. É condenada como uma rejeição do amor de Deus, e das necessidades dos outros".
Por outro lado, ter empatia, segundo os mesmos dicionários, significa: "ser capaz de se colocar na posição de outra pessoa, e entender suas emoções ou sentimentos". 
O apóstolo Pedro, quando ensina sobre "a vida exemplar cristã" e o "amor fraternal", nos exorta para demonstrarmos empatia e compaixão uns pelos outros: “Finalmente, sede todos de igual ânimo, compadecidos, fraternalmente amigos, misericordiosos, humildes, não pagando mal por mal ou injúria por injúria; antes, pelo contrário, bendizendo, pois para isto mesmo fostes chamados, a fim de receberdes bênção por herança” (1Pe 3:8-9). 
Neste texto acima, a palavra que aparece traduzida por "compadecidos" é sumpathes, no original, e significa: "experimentar um sofrimento ou sentimento semelhante a outrem". A palavra provém de sumpascho [sun + pascho], enquanto pascho é a palavra grega traduzida por "sofrimento" no diálogo que o Senhor Jesus tem com seus discípulos no cenáculo, pouco antes da Sua crucificação, quando estabelece a Ceia do Senhor: "Tenho desejado ansiosamente comer convosco esta Páscoa [pascha], antes do meu sofrimento [pascho]" (Lc 22:15). É importante salientar o quanto esta palavra pascho (sofrimento) é parecida com a palavra pascha (páscoa).
Contudo, caros leitores, nosso propósito central neste texto é relembrar o quão incapacitante pode ser a experiência cotidiana de quem é incapaz de ser indiferente diante dos fatos da vida cristã, ou seja, o quão frequentemente debilitante costuma ser a opção de quem não consegue ficar sem se importar com as coisas de Deus, e com o bem do próximo.
O fato do cristão se importar, ou seja, de tentar ser biblicamente empático e compassivo, frequentemente envolve algum custo, seja financeiro, seja alguma chateação ou algum desgaste, ou até mesmo algum sacrifício ainda maior, como pagar com a própria vida. Este último tipo extremo de custo acontece tipicamente em alguns lugares e circunstâncias onde o Evangelho da Cruz de Cristo é odiado e perseguido de forma ainda mais hostil e escarnecedora.
Ser incapaz de ser indiferente diante de alguma injustiça cometida contra o próximo, ou simplesmente tentar compartilhar algo com alguém que está carecendo de ajuda e auxílio, pode se tornar, certas vezes, uma tarefa muito incapacitante e debilitante. 
Contudo, a oportunidade de ser empático - evitando a indiferença - também tem o potencial de ser uma maravilhosa experiência, transformadora e edificante, quando procuramos, no Senhor, nos importar com o próximo, que pode ser qualquer pessoa, como um irmão ou irmã na fé, um familiar ou ente querido, um desconhecido, ou no caso mais extremo, pode ser até mesmo um inimigo.
Na maioria das vezes, estas oportunidades de ajudar o próximo não são registradas em selfies, nem recebem curtidas nas "redes sociais", mas normalmente ocorrem nos "bastidores da vida", e portanto sem que os "holofotes da ribalta" estejam por perto (ver Mt 6:1-4).
A grande pergunta aqui, que cada crente deve fazer para si mesmo, em Cristo, é saber se estas ocasiões ou oportunidades de ser incapaz de ser indiferente valem a pena, pois normalmente envolvem um "custo" ou aparente "perda", de algum tipo, como já foi dito. Alguém poderia eventualmente também se perguntar: "haveria também algum lucro ou vantagem nisso?". A resposta bíblica para esta questão deve apontar em uma única direção, magnificamente resumida pelo apóstolo Paulo - inspirado pelo Espírito Santo - nas seguintes palavras: "Porquanto, para mim, o viver é Cristo, e o morrer é lucro" (Fp 1:21).
No terceiro capítulo da mesma carta aos Filipenses, apesar de ser um contexto onde o apóstolo não está ensinando sobre "ajudar ao próximo", mas sim alertando contra os "falsos mestres", parece ser razoável aplicar o seu ensino sobre questões de perda e lucro no decorrer da vida cristã. O apóstolo Paulo certamente fala com muita propriedade, no exemplo do seu testemunho, sobre o que é perder e ganhar, em Cristo:
"Mas o que, para mim, era lucro, isto considerei perda por causa de Cristo. Sim, deveras considero tudo como perda, por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; por amor do qual perdi todas as coisas e as considero como refugo, para ganhar a Cristo e ser achado nele, não tendo justiça própria, que procede de lei, senão a que é mediante a fé em Cristo, a justiça que procede de Deus, baseada na fé; para o conhecer, e o poder da sua ressurreição, e a comunhão dos seus sofrimentos, conformando-me com ele na sua morte; para, de algum modo, alcançar a ressurreição dentre os mortos." (Fp 3:7-11).

Ao Senhor somente seja toda a glória e o louvor, por tudo, sempre!

16 novembro 2023

EB8: "A empatia cristã"

Arquivo em PDF

A empatia cristã:

Uma exortação à compaixão e à simpatia

[tema desafiador, amplamente encontrado em toda a Escritura]

- AT: (Êxodo 22:21) No contexto das “Leis civis e religiosas”

“Não afligirás o forasteiro, nem o oprimirás; pois forasteiros fostes na terra do Egito” [isto é empatia!]

- NT: (1Pedro 3:8-9) “A vida exemplar cristã: o amor fraternal”

“8Finalmente, sede todos de igual ânimo, compadecidos*, fraternalmente amigos [philadelphos], misericordiosos*, humildes,9não pagando mal por mal ou injúria por injúria; antes, pelo contrário, bendizendo, pois para isto mesmo fostes chamados, a fim de receberdes bênção por herança”

*sumpathes: sofrimento/sentimento semelhante a outrem. Provém de sumpascho [sun + pascho]: “Tenho desejado ansiosamente comer convosco esta Páscoa [pascha], antes do meu sofrimento [pascho]” (Lc 22:15, palavras de Jesus)

*eusplagchnos: eu(boas)+splagchnon(entranhas/paixões)

Na 5ª petição da Oração Dominical (Mt 6:9-13):

“12perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós temos perdoado aos nossos devedores”

*Talvez pudéssemos ler assim: “Senhor, tem compaixão de nós, assim como nós temos tido compaixão dos outros”

Perguntas retóricas:

- Caro irmã(o), você tem recebido compaixão da parte do Senhor? Você tem recebido a “clemência do Rei”? Você tem recebido, com fé, esta verdadeira compaixão e tem vivido o Evangelho, sabendo que o Senhor Jesus pagou pelos seus (meus/nossos) pecados, quando Ele se colocou no lugar [empatia] que deveria ser destinado a você (mim/nós) na Cruz do Calvário?

- Caro irmã(o), por quem Cristo se colocou na Cruz, você também tem se colocado [empatia] no lugar de outro irmã(o) que está sofrendo com provações?

- Caro crente, você tem demonstrado compaixão em relação ao próximo, seja ele(a) crente ou descrente?

- Caro irmã(o), você tem oferecido simpatia/empatia?

[Ver exemplo na parábola do Bom Samaritano, Lucas 10:30-37]

 

Qual a origem de algumas destas palavras?

#compaixão: compassio (latim) é uma tradução eclesiástica emprestada do grego sympatheia (simpatia), que normalmente significa “literalmente compartilhar a aflição ou o sofrimento com outro”.

#simpatia: (grego) syn (juntos) + pathos (sentimento) = sympatheia (“afetado por sentimentos semelhantes”). Este significado de “conformidade de sentimentos” é da década de 1590, enquanto “companheirismo” ou “compaixão” ocorre a partir de 1600.

#empatia: (grego) en (em) + pathos (sentimento) = empatheia (“paixão, estado de emoção”). Termo de ~1900, proveniente de uma “teoria da apreciação da arte”, que defende que a apreciação depende da capacidade do espectador em projetar sua personalidade no objeto observado.

O que dizem os comentaristas bíblicos?

*{1} COMPAIXÃO: Significa “sentir paixão por alguém” ou “entrar com simpatia na tristeza e na dor de alguém”. Em várias traduções da Bíblia em inglês, compassion é usada para traduzir pelo menos cinco (5) palavras hebraicas (AT) e oito (8) palavras gregas (NT), sendo inevitável a sobreposição de significados. No uso bíblico, a compaixão é sempre tanto um sentimento, quanto a ação apropriada, baseada nesse sentimento.

*{2} EMPATIA: sugere uma identificação com a pessoa por quem se “simpatiza”, ou por quem se tem “compaixão”. Junto com o conteúdo emocional, vem a intenção intelectual (racional/prática) de ajudar.

*{3} Racham (compaixão): está relacionado com a palavra hebraica para “útero”, e expressa a compaixão de uma mãe (Is 49:15), ou de um pai (Sl 103:13), por uma criança indefesa. Descreve um aspecto do relacionamento pactual de Deus com seu povo.

*{4} COMPAIXÃO: Este aspecto maravilhoso do caráter de Deus é claramente exibido na Bíblia. Está encarnado em Jesus Cristo, o Deus-Homem compassivo, amoroso e supremo. Quando Ele viu as multidões, Ele sentiu compaixão (Mt 9:36, splagchizomai) por elas. Assim, Ele curou os enfermos (Mt 14:14; Mc 8:2). Ele também foi o compassivo do Êxodo (Rm 9:15)*. Em Cristo, habita o Pai de misericórdias e o Deus do toda consolação (2Co 1:3)**. Não há conforto maior do que saber que o Senhor continua a mostrar Sua compaixão por nós, operando milagres de bondade e misericórdia em todas as situações de nossas vidas (Tg 5:11).

* (Rm 9:15) “Pois ele diz a Moisés: Terei misericórdia de quem me aprouver ter misericórdia e compadecer-me-ei de quem me aprouver ter compaixão.”

** (2Co 1:3) “Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai de misericórdias e Deus de toda consolação!”

Aplicações finais:

[#I] Em relação ao nosso próximo, porque costumamos não mostrar empatia ou compaixão?

“1Firme está o meu coração, ó Deus! Cantarei e entoarei louvores de toda a minha alma [...] 12Presta-nos auxílio na angústia, pois vão é o socorro do homem.13Em Deus faremos proezas, porque ele mesmo calca aos pés os nossos adversários.” (Salmos 108)

- Etimologia: decepcionado, desapontado, desiludido, frustrado

<#1> frustrar [frustrate]: do latim frustratus, particípio passado de frustrari (“enganar, desapontar, tornar vão”), de frustra (“em vão, em erro”), que está relacionado a fraus (“ferimento, dano”).

<#2> desapontar [disappoint]: de dis (“reverso, oposto de”) + appoint. Do francês antigo desapointer (“desfazer a nomeação/designação/encontro/compromisso”).

<#3> desilusão [disillusion]: de dis (“reverso, oposto de”) + illusion. “ato de libertar da ilusão”.

<#4> decepcionar [let-down]: “fazer com que seja abaixado”.

Cada ser humano é um “decepcionado decepcionante”

O Senhor Jesus Cristo é o “decepcionado sacrificante”

[#II] Compaixão e empatia estão entre as virtudes recomendadas (Romanos 12):

“9O amor seja sem hipocrisia... 10Amai-vos cordialmente uns aos outros com amor fraternal... 13compartilhai as necessidades dos santos; praticai a hospitalidade... 15Alegrai-vos com os que se alegram e chorai com os que choram. 16Tende o mesmo sentimento uns para com os outros...” [ isto é empatia/simpatia!!! ]

[#III] Como o Senhor Jesus procedeu na compaixão?

Walter A. Elwell & Barry J. Beitzel, “Compassion”, Baker Encyclopedia of the Bible,1988.

“Jesus Cristo, o Filho de Deus, refletiu exatamente a compaixão do Pai ao lidar com a humanidade caída. Jesus curou doenças e enfermidades, expulsou espíritos, capacitou outros e os enviou para fazer o mesmo. Ele alimentou pessoas famintas e, em resposta à dor de uma mãe (Lc 7:13), ressuscitou seu único filho dentre os mortos. Seguindo o exemplo de Jesus, os cristãos devem mostrar compaixão ao lidar com os outros. Jesus deu o exemplo nas parábolas do bom samaritano, que teve compaixão de um viajante ferido (Lc 10:33), e do filho pródigo, cujo pai teve compaixão dele quando voltou para casa (Lc 15:20).”

 

Tabela em PDF