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Mostrando postagens com marcador Cristo. Mostrar todas as postagens
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03 setembro 2025

CRISE em acróstico

Já que todos estão falando em CRISE, em nossos dias, também vamos tentar falar, porém em acróstico: 
 
C_risto 
R_eina em seu...
I_mpério, como...
S_oberano 
E_ntronado!

11 agosto 2025

A incapacitante incapacidade de ser indiferente

"Não vos comove isto, a todos vós que passais pelo caminho? Considerai e vede se há dor igual à minha" (Lm 1:12a)

Ser indiferente, segundo os dicionários, é definido como: "uma atitude neutra em relação a Deus, que é tão perigosa quanto a hostilidade. É condenada como uma rejeição do amor de Deus, e das necessidades dos outros".
Por outro lado, ter empatia, segundo os mesmos dicionários, significa: "ser capaz de se colocar na posição de outra pessoa, e entender suas emoções ou sentimentos". 
O apóstolo Pedro, quando ensina sobre "a vida exemplar cristã" e o "amor fraternal", nos exorta para demonstrarmos empatia e compaixão uns pelos outros: “Finalmente, sede todos de igual ânimo, compadecidos, fraternalmente amigos, misericordiosos, humildes, não pagando mal por mal ou injúria por injúria; antes, pelo contrário, bendizendo, pois para isto mesmo fostes chamados, a fim de receberdes bênção por herança” (1Pe 3:8-9). 
Neste texto acima, a palavra que aparece traduzida por "compadecidos" é sumpathes, no original, e significa: "experimentar um sofrimento ou sentimento semelhante a outrem". A palavra provém de sumpascho [sun + pascho], enquanto pascho é a palavra grega traduzida por "sofrimento" no diálogo que o Senhor Jesus tem com seus discípulos no cenáculo, pouco antes da Sua crucificação, quando estabelece a Ceia do Senhor: "Tenho desejado ansiosamente comer convosco esta Páscoa [pascha], antes do meu sofrimento [pascho]" (Lc 22:15). É importante salientar o quanto esta palavra pascho (sofrimento) é parecida com a palavra pascha (páscoa).
Contudo, caros leitores, nosso propósito central neste texto é relembrar o quão incapacitante pode ser a experiência cotidiana de quem é incapaz de ser indiferente diante dos fatos da vida cristã, ou seja, o quão frequentemente debilitante costuma ser a opção de quem não consegue ficar sem se importar com as coisas de Deus, e com o bem do próximo.
O fato do cristão se importar, ou seja, de tentar ser biblicamente empático e compassivo, frequentemente envolve algum custo, seja financeiro, seja alguma chateação ou algum desgaste, ou até mesmo algum sacrifício ainda maior, como pagar com a própria vida. Este último tipo extremo de custo acontece tipicamente em alguns lugares e circunstâncias onde o Evangelho da Cruz de Cristo é odiado e perseguido de forma ainda mais hostil e escarnecedora.
Ser incapaz de ser indiferente diante de alguma injustiça cometida contra o próximo, ou simplesmente tentar compartilhar algo com alguém que está carecendo de ajuda e auxílio, pode se tornar, certas vezes, uma tarefa muito incapacitante e debilitante. 
Contudo, a oportunidade de ser empático - evitando a indiferença - também tem o potencial de ser uma maravilhosa experiência, transformadora e edificante, quando procuramos, no Senhor, nos importar com o próximo, que pode ser qualquer pessoa, como um irmão ou irmã na fé, um familiar ou ente querido, um desconhecido, ou no caso mais extremo, pode ser até mesmo um inimigo.
Na maioria das vezes, estas oportunidades de ajudar o próximo não são registradas em selfies, nem recebem curtidas nas "redes sociais", mas normalmente ocorrem nos "bastidores da vida", e portanto sem que os "holofotes da ribalta" estejam por perto (ver Mt 6:1-4).
A grande pergunta aqui, que cada crente deve fazer para si mesmo, em Cristo, é saber se estas ocasiões ou oportunidades de ser incapaz de ser indiferente valem a pena, pois normalmente envolvem um "custo" ou aparente "perda", de algum tipo, como já foi dito. Alguém poderia eventualmente também se perguntar: "haveria também algum lucro ou vantagem nisso?". A resposta bíblica para esta questão deve apontar em uma única direção, magnificamente resumida pelo apóstolo Paulo - inspirado pelo Espírito Santo - nas seguintes palavras: "Porquanto, para mim, o viver é Cristo, e o morrer é lucro" (Fp 1:21).
No terceiro capítulo da mesma carta aos Filipenses, apesar de ser um contexto onde o apóstolo não está ensinando sobre "ajudar ao próximo", mas sim alertando contra os "falsos mestres", parece ser razoável aplicar o seu ensino sobre questões de perda e lucro no decorrer da vida cristã. O apóstolo Paulo certamente fala com muita propriedade, no exemplo do seu testemunho, sobre o que é perder e ganhar, em Cristo:
"Mas o que, para mim, era lucro, isto considerei perda por causa de Cristo. Sim, deveras considero tudo como perda, por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; por amor do qual perdi todas as coisas e as considero como refugo, para ganhar a Cristo e ser achado nele, não tendo justiça própria, que procede de lei, senão a que é mediante a fé em Cristo, a justiça que procede de Deus, baseada na fé; para o conhecer, e o poder da sua ressurreição, e a comunhão dos seus sofrimentos, conformando-me com ele na sua morte; para, de algum modo, alcançar a ressurreição dentre os mortos." (Fp 3:7-11).

Ao Senhor somente seja toda a glória e o louvor, por tudo, sempre!

04 junho 2025

Livro: "Confissões" [VIII e IX]

Alguns trechos dos livros VIII e IX de "Confissões", de Agostinho de Hipona, particularmente os trechos que relatam o estágio definitivo da sua conversão, destacando-se a magnífica providência de Deus ao usar amigos [Alípio, Nebrídio, Verecundo] que estavam ao seu redor, ou que faziam parte da sua vida, além de sua mãe [Mônica], que se alegrou pela conversão de Agostinho:

'Depois, nesse renhido combate interior, que eu havia travado com minha alma, no quarto do meu coração, com a angústia estampada na cara, fui procurar Alípio. “O que nos aflige?”, exclamei. “O que é isso? Que foi que você ouviu? Os incultos se insurgem e ‘o Reino dos céus é tomado à força’ (Mt 11.12), e nós, com toda a nossa erudição e o coração vazio, chafurdamos na carne e no sangue. Será que temos vergonha de ir adiante porque outros nos precederam, e não temos vergonha de não fazer absolutamente nada?”. Proferi algumas palavras nesse sentido, e minha mente febril afastou-me de Alípio, que ficou em silêncio olhando-me assustado. Não era meu hábito usar aquele tom. Minha testa, as bochechas, os olhos, a cor e o tom da voz expressavam meu pensamento mais que as palavras. Nosso alojamento tinha um pequeno jardim que podíamos usar como todo o resto da casa, pois o dono dela, nosso anfitrião, não morava lá. Para aquele jardim fugi às pressas levado pelo tumulto que me oprimia o peito. Ali ninguém podia entravar a acalorada disputa que eu travava comigo mesmo, até que ela terminasse como tu sabias que terminaria, mas eu não. Eu só sabia que estava salutarmente perturbado, morrendo para viver. Sabia o que de mal havia em mim, mas não sabia o que de bom estava prestes a me acontecer. Fui para o jardim, e Alípio me seguiu. A presença dele não diminuiria minha privacidade, e ele não poderia me abandonar quando eu estava tão perturbado. Sentamo-nos no ponto mais distante da casa. Meu espírito estava perturbado.' [Confissões VIII.19]

'Doente na alma e atormentado estava eu, e me acusava mais duramente do que de costume, debatendo-me até romper todas as amarras que, embora já fracas, ainda me prendiam. E tu, ó Senhor, com tua rigorosa misericórdia, me pressionavas no fundo da alma, redobrando as chicotadas do medo e da vergonha para que eu não desistisse, e assim aquela tênue amarra que sobrava recuperasse sua resistência e me prendesse ainda mais.' [Confissões VIII.25]

'29. Assim eu falava e chorava, no mais amargo sentimento de contrição, quando eis que, de repente, provindo de uma casa na vizinhança, ouço uma voz, como a de um menino ou menina, não sei, cantando e repetindo muitas vezes: “Pegue e leia. Pegue e leia”. Imediatamente meu rosto se alterou, e eu comecei a pensar, concentrando-me ao máximo, se as crianças costumavam, em alguma de suas brincadeiras, cantar aquelas palavras. Não consegui lembrar-me de ter jamais ouvido algo semelhante. Então, controlando a torrente de lágrimas, levantei-me, interpretando aquilo como nada menos do que uma ordem de Deus, de abrir o livro e ler a primeira passagem que descobrisse ao acaso. Eu, na verdade, tinha ouvido dizer sobre Antão que, entrando na igreja durante a leitura do Evangelho, havia recebido o seguinte conselho, como se estivesse sendo lido e dirigido a ele pessoalmente: “Vá, venda os seus bens e dê o dinheiro aos pobres, e você terá um tesouro nos céus. Depois, venha e siga-me” (Mt 19.21). Ao receber essa orientação, ele imediatamente se converteu a ti. Voltei ansioso para o local onde Alípio estava sentado, pois lá havia deixado o volume do apóstolo. Peguei-o, abri e li em silêncio a primeira passagem que caiu sob meu olhar: “Não em orgias e bebedeiras, não em imoralidade sexual e depravação, não em desavença e inveja. Ao contrário, revistam-se do Senhor Jesus Cristo, e não fiquem premeditando como satisfazer os desejos da carne” (Rm 13.13-14). Não precisei continuar a leitura, nem era necessário: imediatamente, ao final dessa frase, como se eu tivesse sido exposto a uma luz serena que invadia meu coração, todas as negras sombras da dúvida desapareceram. 
30. Em seguida, fechei o livro usando um dedo ou outra coisa qualquer para marcar a página, e calmamente revelei a Alípio o que havia lido. O que aconteceu no seu íntimo, sem que eu o soubesse, ele me mostrou. Pediu-me para ler o que eu havia lido, e eu lhe mostrei. Ele leu e prosseguiu na leitura, e eu não sabia o que vinha em seguida. Era isto: “Aceitem o que é fraco na fé” (Rm 14.1), que ele aplicou a si mesmo e o revelou a mim. E com esse conselho ele se fortaleceu. Com boa resolução e propósito, correspondendo ao máximo ao seu caráter, que sempre foi muito diferente e melhor do que o meu, sem nenhum turbulento adiamento, juntou-se a mim. Em seguida, fomos procurar minha mãe [Mônica]. Contamos-lhe o que acontecera. Ela se rejubilou. Relatamos em que ordem os fatos se sucederam. Ela exultou triunfante e bendizendo a ti...' [Confissões VIII.29-30]

'Verecundo ficou seriamente perturbado com minha felicidade. Preso a vínculos inflexíveis, ele viu que deveria separar-se de mim. Ele mesmo não era cristão, mas sua mulher o era. No entanto, com mais firmeza do que qualquer outra cadeia, ele estava preso e impedido de empreender a viagem que eu agora iniciava. Pois, como ele [Verecundo] mesmo declarou, não se tornaria cristão em nenhuma outra situação que não fosse aquela para ele então impossível. Todavia, generosamente, ele nos ofereceu sua casa de campo, enquanto ficássemos por lá. Tu, ó Senhor, o recompensarás “na ressurreição dos justos” (Lc 14.14), vendo que já lhe deste o quinhão dos justos. Pois, quando eu já estava ausente, em Roma, ele foi acometido de uma enfermidade física, durante a qual se fez cristão, um de teus fiéis, e depois deixou esta vida. “Deus teve misericórdia dele, e não somente dele, mas também de mim” (Fp 2.27), evitando que a lembrança da extrema bondade de meu amigo, sem poder vê-lo participando do teu rebanho, fosse para mim uma tortura intolerável. Graças a ti, meu Deus, nós somos teus. Tuas sugestões e teu consolo nos dizem que tu, fiel em tuas promessas, agora recompensas Verecundo pela casa de campo de Cassicíaco que ele nos cedeu para repousarmos em ti, longe da febre deste mundo, com o eterno frescor do teu paraíso. Pois tu lhe perdoaste os pecados cometidos neste mundo lá naquela dadivosa montanha, a montanha onde flui leite, a tua montanha...' [Confissões IX.5]

'Naquela época Verecundo sofria, mas Nebrídio se alegrava. Pois embora ele [Nebrídio] também, não sendo ainda cristão, houvesse caído naquele abismo do mais pernicioso erro que o levava a crer que o corpo de teu Filho era um fantasma, agora emergia dele adotando a mesma crença que nós. Mesmo que ainda não fosse iniciado nos sacramentos da tua Igreja, ele era o mais ardente perseguidor da verdade. Logo após nossa conversão e regeneração pelo teu batismo, Nebrídio tornou-se um membro fiel da Igreja [...] e, servindo-te em perfeita castidade e continência entre sua gente na África, promoveu a conversão de toda a sua família; em seguida, foi libertado por ti de seu corpo e agora vive no seio de Abraão. O que quer que esse seio signifique, lá está Nebrídio, meu caro amigo e teu filho, ó Senhor, antes liberto, agora adotivo. Lá está ele. Pois que outro lugar existe para uma alma assim? Naquele lugar está ele sobre o qual tantas perguntas dirigiu a mim, pobre ser humano inexperiente. Agora ele não mais aproxima seus ouvidos de minha boca, mas achega sua boca espiritual à tua Fonte, bebendo sabedoria no grau máximo possível de acordo com sua sede, infinitamente feliz. Mas não acho que essa fonte de sabedoria o deixe tão inebriado a ponto de ele se esquecer de mim, sabendo que tu, Senhor, que és sua bebida, te preocupas conosco. Assim, lá estava eu então consolando Verecundo, que, sem perder a amizade, lamentava que minha conversão tivesse aquelas consequências. Eu o aconselhei a aceitar a fé, respeitando sua condição de homem casado; e esperava que Nebrídio seguisse meus passos, o que ele estava muito prestes a fazer. E assim, de repente, aqueles dias finalmente se foram.' [Confissões IX.6]

'7. Chegou o dia em que eu, de fato, me livraria do cargo de professor de retórica, do qual mentalmente já me livrara. E aconteceu. Tu resgataste minha língua de onde já havias resgatado o coração. Eu te agradeci em júbilo, e me retirei com toda a minha família para a casa de campo [Cassicíaco]. O que lá realizei em matéria de textos escritos, agora que estava registrado a teu serviço (embora, nesse intervalo, minha respiração ainda fosse ofegante devido aos esforços feitos na escola do orgulho), é atestado por meus livros, bem como pelos debates travados com outros ou comigo mesmo diante de ti. Prova disso são minhas cartas a Nebrídio, que na época estava ausente. E quando terei tempo para relatar os grandes benefícios que recebemos naquela época, especialmente agora quando corro em direção a graças mais importantes? Guardo na memória, e para mim é agradável, ó Senhor, confessar a ti com que estímulos interiores tu me subjugaste; e como tu me tornaste humilde, “aplanando montes e colinas” de ambiciosos sonhos (Is 40.4), fazendo “veredas retas” e “nivelando estradas acidentadas” (Lc 3.4-5); e como tu subjugaste também Alípio, meu irmão de coração, que aceitou o nome de teu Unigênito, nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, nome que antes ele não queria ver incluído em nossos escritos. Ele então preferia que estes tivessem o cheiro dos altaneiros cedros das escolas, já despedaçados pelo Senhor, e não o aroma das ervas sadias da Igreja, o antídoto contra serpentes. 
8. Ah, com que clamores eu falava contigo, meu Deus, quando lia os salmos de Davi, aqueles piedosos poemas e cantos de devoção, que não dão margem alguma para o orgulho! Eu ainda era um catecúmeno, um noviço no teu verdadeiro amor. Repousava naquela casa de campo [Cassicíaco] junto com Alípio, outro catecúmeno. Minha mãe [Mônica] sempre estava junto a nós, em trajes de mulher, mas com sua fé viril, com aquela paz tranquila da idade e a plenitude do amor materno e da piedade cristã. Ah, que clamores eu dirigia a ti naqueles salmos! Como eles me inflamavam e me incutiam ardentes desejos de cantá-los, se possível, pelo mundo inteiro, contra o orgulho da humanidade. Todavia, no mundo inteiro eles são cantados, e “nada escapa ao seu calor” (Sl 19.6). Com que potentes e amargos lamentos eu me indignava contra os maniqueístas! E ao mesmo tempo sentia pena deles [compaixão/misericórdia]. Não conheciam os sacramentos, os verdadeiros remédios, e esbravejavam como loucos contra o antídoto que poderia curá-los de sua loucura.' [Confissões IX.7-8]

'23. Aproximando-se agora o dia de sua [Mônica] partida deste mundo (o dia que tu conhecias, nós não), creio que por determinação de teus secretos desígnios que assim o quiseram, aconteceu que ela e eu estávamos a sós, debruçados a uma janela que se abria para o jardim da casa onde nos hospedávamos em Óstia. Ali, longe das multidões, nos refazíamos do cansaço de uma longa jornada, preparando-nos para seguir viagem. Numa conversa a sós, muito agradável, esquecendo-nos “das coisas que ficaram para trás e avançando para as que estão adiante” (Fp 3.13), discutíamos na presença da Verdade, que és tu, como é a vida eterna dos santos, que “olho nenhum viu, ouvido nenhum ouviu, mente nenhuma imaginou” (1Co 2.9). Muito se abria a boca de nosso coração, querendo beber da água corrente de tua fonte, “a fonte da vida” (Sl 36.9), que és tu. Queríamos ser aspergidos segundo nossa capacidade com algum poder especial para podermos meditar sobre um mistério tão grande. 
24. Depois nossa conversa atingiu um nível tão elevado que nem mesmo o maior prazer dos sentidos físicos, naquela luz pura, cotejada com a doçura daquela vida por vir parecia não merecer comparação nem sequer menção. Transportados por um sentimento superior, elevamo-nos até a essência do ser, ultrapassando aos poucos todas as coisas físicas, atingindo até o próprio céu, de onde nos chega o brilho da lua, do sol e das estrelas. Sim, pairávamos ainda mais alto em nossa meditação, conversa e admiração de tuas obras. E chegamos à nossa mente e a ultrapassamos, para que pudéssemos atingir aquela região da inesgotável abundância, onde tu apascentas Israel com o alimento da verdade, onde a vida é “a Sabedoria, artífice do mundo” (Sb 7.21, BJ) e do que existiu e do que existirá.' [Confissões IX.23-24]

'26. Essas coisas eu ia dizendo, embora não exatamente desse jeito e com essas mesmas palavras. Mas tu sabes, Senhor, que naquele dia quando falávamos disso, e este mundo com todas as suas delícias tornou-se, durante a conversa, desprezível aos nossos olhos, minha mãe [Mônica] disse: “Filho, de minha parte já não tenho nenhum prazer nesta vida. Não sei por que ainda continuo aqui, agora que minhas esperanças neste mundo foram satisfeitas. Havia uma coisa que me fazia querer ficar por mais um tempo nesta vida: poder ver você como cristão [...] antes de minha morte. Meu Deus me concedeu essa graça e do modo mais que generoso, pois agora vejo você desprezando a felicidade terrena, transformando-se num servo dele. O que estou fazendo aqui?”. 
27. Não me lembro que resposta eu dei a essas coisas que ela [Mônica] disse. Pois não mais que cinco dias após isso, ela contraiu uma febre muito alta. Durante a enfermidade, perdeu a consciência e, por um breve espaço de tempo, afastou-se deste mundo visível. Reunimo-nos às pressas a seu redor. Ela recuperou os sentidos. Olhando para mim e meu irmão junto a ela, perguntou-nos: “Onde estava eu?”. E depois, fitando-nos, impressionada com nosso silêncio, disse: “Aqui vocês devem enterrar sua mãe”. Mantive meu silêncio e parei de chorar. Mas meu irmão disse alguma coisa, desejando-lhe uma sorte melhor: que ela não viesse a morrer numa terra estranha, mas sim em seu próprio país. Ao que ela, com expressão ansiosa, fixando nele seus olhos, pois ele ainda valorizava essas coisas, e depois olhando para mim, disse: “Veja só o que ele diz!”. E logo em seguida, dirigiu-se a nós dois: “Enterrem este corpo em qualquer lugar. Que isso não seja de modo algum motivo de preocupação para vocês [...]”. Depois de expressar esse desejo com as palavras que conseguiu proferir, ela se calou, sentindo o recrudescimento da dor da enfermidade.' [Confissões IX.26-27]

'[...] Também ouvi contar mais tarde que, quando já estávamos em Óstia, um dia, durante minha ausência, com confiança maternal ela [Mônica] conversou com alguns amigos sobre seu desprezo por esta vida e sobre a bênção da morte. Quando eles, assombrados com essa coragem que tu havias concedido a uma mulher, perguntaram se não tinha medo de deixar seu corpo tão longe de sua cidade natal, ela respondeu: “Nada se situa longe de Deus. E não se deve temer que no fim do mundo ele não consiga reconhecer de onde nos deve ressuscitar”. No nono dia de sua enfermidade, aos 56 anos de vida, quando eu tinha 33, aquela alma santa e religiosa foi libertada de seu corpo.' [Confissões IX.28]

'[...] Deitado sozinho em meu leito, lembrei-me da verdade daqueles versos do teu Ambrósio. Pois tu és:
O Criador de todas as coisas, o Senhor, 
O Soberano das alturas 
Que, vestindo o dia de luz, derramaste 
Uma suave sonolência sobre a noite, 
Para que em nossos membros a força 
Do trabalho fosse renovada, 
E reanimados fossem os corações desalentados e abatidos, 
E as tristezas fossem suavizadas.' 
[Confissões IX.32]

'[...] Dei vazão às lágrimas antes reprimidas: podiam agora extravasar à vontade. Nelas repousou meu coração; nelas ele encontrou descanso, pois quem as ouvia eram teus ouvidos, não os ouvidos dos homens, que teriam interpretado meu choro com desdém. E agora, Senhor, a ti o confesso por escrito. Que leia isso quem quiser e como quiser. Se alguém encontra pecado nisso, no fato de eu chorar a morte de minha mãe [Mônica] por uma pequena fração de uma hora (a mãe que por um breve espaço de tempo esteve morta a meus olhos, aquela que por muitos anos chorou por mim para que eu vivesse aos teus olhos), que essa pessoa chore por meus pecados diante de ti, o Pai de todos os irmãos do teu Cristo.' [Confissões IX.33]

30 janeiro 2025

Aprendizado piedoso 205

Sobre a centralidade de Cristo:

“[...] pregar a Cristo, através de Cristo, para a glória de Cristo.”
(William Perkins, Works of Perkins, 2:762)

“Cristo é a soma de toda a Bíblia, profetizado, simbolizado, prognosticado, exibido, demonstrado, encontrado em todas as páginas, e quase todas as linhas, com as Escrituras sendo praticamente as faixas que envolviam o menino Jesus.”
(Thomas Adams, The Works of Thomas Adams, 3:224)

“Pense em Cristo como sendo a própria substância, essência, alma e escopo de todas as Escrituras.”
(Isaac Ambrose, Works of Isaac Ambrose, 201)

“Coloque toda a beleza de dez milhões de mundos paradisíacos como o Jardim do Éden em apenas um [mundo]; coloque todas as árvores, todas as flores, todos os cheiros, todas as cores, todos os sabores, todas as alegrias, todo o encanto, e toda a doçura em um. Oh, que lugar maravilhoso e excelente seria este! E, ainda assim, seria menos do que o maravilhoso e amado Cristo, como uma gota de chuva comparada a todos os mares, rios, lagos, e fundações de dez mil terras.”
(Samuel Rutherford, citado por Don Kistler em Soli Deo Gloria, 1999, 4)

“O céu seria inferno para mim, sem Cristo.”
(Thomas Goodwin, citado por Don Kistler em Soli Deo Gloria, 1999, 3)

01 novembro 2021

Fé subatômica

 


Segundo a compreensão atual [i] do modelo padrão da física de partículas, estima-se que um átomo tenha tipicamente o tamanho na escala de ångströms (10-10 m), enquanto que apenas o núcleo seria cerca de 10.000 vezes menor (10-14 m), um bárion (prótons e nêutrons, por exemplo) teria o tamanho na escala de 10-15 m, e um quark teria uma escala menor do que 10-19 m. Em outras palavras, existe uma diferença de quase 10 ordens de grandeza (quase 10 bilhões de vezes) entre o tamanho de um átomo e de uma partícula elementar como um quark. Para uma comparação mais cognitiva destas dimensões e escalas, podemos imaginar que se os prótons e nêutrons (bárions) tivessem um tamanho de 10 cm (na escala de uma régua), então os quarks teriam a dimensão menor do que 0,1 mm, ou seja, a décima parte da menor divisão (milímetro) de uma régua. Nesta comparação, o átomo inteiro teria o diâmetro de cerca de 10 km (a distância típica de um percurso de carro).

Ao longo da vida cristã, durante a peregrinação neste mundo caído pelo pecado (incluindo o nosso próprio), muitas vezes nossa fé é abalada, e, nestas ocasiões, ela parece estar menor do que um quark de um próton, de um núcleo, de um átomo, de uma molécula, de uma célula, de um tecido de um pequeno grão de mostarda.

“E ele lhes respondeu: Por causa da pequenez da vossa fé. Pois em verdade vos digo que, se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a este monte: Passa daqui para acolá, e ele passará. Nada vos será impossível” (Mt 17:20). Esta declaração do Senhor Jesus Cristo provavelmente é a origem da expressão popular: “fé que remove montanhas”.

Apesar da pequenez da nossa fé em alguns momentos ao longo desta vida, se ela está firmada no Senhor Jesus, que é o “Autor e Consumador da fé” (Hb 12:1-3), ela é uma fé real e concreta, pois esta solidamente depositada no Deus onisciente, onipresente e onipotente, que é o criador e sustentador de tudo o que existe, além de ser o salvador daqueles que depositam toda a sua esperança e fé Nele. Como ensina o apóstolo Paulo: “O justo viverá por fé” (Rm 1:17).

Portanto, o que importa mesmo não é a insignificante pequenez da nossa minúscula fé, mas sim a significativa grandeza do nosso Senhor, e a peculiar e extraordinária dimensão do seu amor e da sua justiça: “...e, assim, habite Cristo no vosso coração, pela fé, estando vós arraigados e alicerçados em amor, a fim de poderdes compreender, com todos os santos, qual é a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade e conhecer o amor de Cristo, que excede todo entendimento, para que sejais tomados de toda a plenitude de Deus” (Ef 3:17-19).

“A alma é a vida do corpo; a fé é a vida da alma; Cristo é a vida da fé” (John Flavel).

Sola fide

Soli Deo Gloria

 

*Notas:

[i] “Contemporary Physics Education Project”: www.cpepphysics.org


A química da morte e da vida

 




Na química da morte e da vida, podemos perceber um fato peculiar, que corrobora com o que o apóstolo Paulo, inspirado pelo Espírito Santo, nos ensina nas Escrituras:

“Graças, porém, a Deus, que, em Cristo, sempre nos conduz em triunfo e, por meio de nós, manifesta em todo lugar a fragrância do seu conhecimento. Porque nós somos para com Deus o bom perfume de Cristo, tanto nos que são salvos como nos que se perdem. Para com estes, cheiro de morte para morte; para com aqueles, aroma de vida para vida.” (2Co 2:14-16a)

O fato peculiar é que a molécula atribuída como responsável pelo aroma agradável do assim chamado “arroz aromático” (arroz basmati e arroz jasmin, por exemplo) [i], e também uma das moléculas associadas ao aroma agradável do “pão assado” [ii], é a 2-acetil-1-pirrolina [iii], abreviada por 2AP. O mais curioso sobre a molécula 2AP, é que a sua rota de biossíntese no arroz (e em outras plantas) tem como um precursor a molécula de Putrescina. A molécula de Putrescina [iv] é uma diamina, similar à molécula de Cadaverina [v], ambas podendo ser formadas pela decomposição dos aminoácidos em organismos vivos e mortos, e conferindo tipicamente o odor repulsivo e repugnante da putrefação em cadáveres. 

Portanto, esta maravilhosa realidade química corrobora com o ensinamento do apóstolo Paulo, particularmente quando lembramos que o Senhor Jesus Cristo também se declara como o “pão da vida” (Jo 6:35,48) em uma das 7 magníficas declarações “Eu Sou” encontradas no Evangelho segundo João, e que podemos escutar como um eco da declaração do Senhor em Êxodo 3: “Eu Sou o Que Sou”. Alguns capítulos depois (Êx 16:22-36), observamos no relato bíblico que “os filhos de Israel” comeram do “maná” por 40 anos, ou seja, do “pão” com que o Senhor os sustentou no deserto (v.32). E aqueles que confiam na obra de criação, providência, redenção e salvação do Senhor, o “pão da vida”, podem desfrutar do “aroma” e do “sabor agradável” deste “pão que desce do céu, para que todo o que dele comer não pereça” (Jo 6:50). Este é o mesmo “pão do céu” que temos a alegria e o privilégio de testemunhar e receber, representado por um pão físico separado do seu uso cotidiano, no memorial celebrado durante o sacramento da Ceia do Senhor (1Co 11:23-32). Comemos deste pão frequentemente, enquanto caminhamos como “peregrinos” neste “deserto da vida”, aguardando pela bem-aventurança de saciar completamente nossa “fome e sede de justiça” (Mt 5:6), no encontro derradeiro com o “pão da vida”.

Além disso, outros textos bíblicos também nos ensinam esta verdade de que Deus nos concede vida por meio do seu Espírito, que nos convence do sacrifício de Cristo Jesus em sua morte na Gólgota (Mt 27:33; Mc 15:22, “lugar da caveira”). Em 2Tm 2:11, o apóstolo Paulo declara: “Fiel é esta palavra: Se já morremos com Ele, também viveremos com Ele”. Neste contexto, poderíamos dizer que a necessidade que temos da salvação, através do sacrifício expiatório do “pão da vida”, é devido ao odor de “putrescina” e “cadaverina” da “carne decomposta pelo nosso pecado”.

Para terminar este texto com um “aroma de esperança” para os que depositam toda confiança e fé no “pão da vida”, podemos lembrar da revelação que o apóstolo João recebeu do Senhor Jesus Cristo a respeito do “novo céu e nova terra” (Ap 21), e compartilhou fazendo a declaração alvissareira que o próprio Senhor Jesus nos “enxugará dos olhos toda lágrima, e a morte já não existirá” (v.4). Ou seja, parece que não haverá mais odor de Putrescina e Cadaverina no “novo céu e nova terra”, pois não haverá mais “decomposição” dos corpos glorificados.

Parafraseando o Dr. John C. Lennox, “sim, estou falando sobre o céu, e não me esqueci que sou um cientista”. Vale lembrar que C.S. Lewis declarou, certa vez (The Problem of Pain): “Nós estamos muito tímidos atualmente de sequer mencionar o céu”.

Graças à Deus pela química...

Graças a Deus pelo “pão da vida”...

Graças a Deus pelo “novo céu e nova terra”...

Glória somente à Deus por tudo!

 

*Notas:

[i] https://doi.org/10.1080/87559129.2017.1347672

[ii] https://doi.org/10.1021/jo051940a

[iii] https://doi.org/10.1007/s11103-008-9381-x

[iv] https://pubchem.ncbi.nlm.nih.gov/compound/1045

[v] https://pubchem.ncbi.nlm.nih.gov/compound/273



17 fevereiro 2020

Palavra viva 10

"3Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que, segundo a sua muita misericórdia, nos regenerou para uma viva esperança, mediante a ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, 4para uma herança incorruptível, sem mácula, imarcescível, reservada nos céus para vós outros 5que sois guardados pelo poder de Deus, mediante a fé, para a salvação preparada para revelar-se no último tempo. 6Nisso exultais, embora, no presente, por breve tempo, se necessário, sejais contristados por várias provações, 7para que, uma vez confirmado o valor da vossa fé, muito mais preciosa do que o ouro perecível, mesmo apurado por fogo, redunde em louvor, glória e honra na revelação de Jesus Cristo; 8a quem, não havendo visto, amais; no qual, não vendo agora, mas crendo, exultais com alegria indizível e cheia de glória, 9obtendo o fim da vossa fé: a salvação da vossa alma."
(1 Pedro 1:3-9).