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04 junho 2025

Livro: "Confissões" [VIII e IX]

Alguns trechos dos livros VIII e IX de "Confissões", de Agostinho de Hipona, particularmente os trechos que relatam o estágio definitivo da sua conversão, destacando-se a magnífica providência de Deus ao usar amigos [Alípio, Nebrídio, Verecundo] que estavam ao seu redor, ou que faziam parte da sua vida, além de sua mãe [Mônica], que se alegrou pela conversão de Agostinho:

'Depois, nesse renhido combate interior, que eu havia travado com minha alma, no quarto do meu coração, com a angústia estampada na cara, fui procurar Alípio. “O que nos aflige?”, exclamei. “O que é isso? Que foi que você ouviu? Os incultos se insurgem e ‘o Reino dos céus é tomado à força’ (Mt 11.12), e nós, com toda a nossa erudição e o coração vazio, chafurdamos na carne e no sangue. Será que temos vergonha de ir adiante porque outros nos precederam, e não temos vergonha de não fazer absolutamente nada?”. Proferi algumas palavras nesse sentido, e minha mente febril afastou-me de Alípio, que ficou em silêncio olhando-me assustado. Não era meu hábito usar aquele tom. Minha testa, as bochechas, os olhos, a cor e o tom da voz expressavam meu pensamento mais que as palavras. Nosso alojamento tinha um pequeno jardim que podíamos usar como todo o resto da casa, pois o dono dela, nosso anfitrião, não morava lá. Para aquele jardim fugi às pressas levado pelo tumulto que me oprimia o peito. Ali ninguém podia entravar a acalorada disputa que eu travava comigo mesmo, até que ela terminasse como tu sabias que terminaria, mas eu não. Eu só sabia que estava salutarmente perturbado, morrendo para viver. Sabia o que de mal havia em mim, mas não sabia o que de bom estava prestes a me acontecer. Fui para o jardim, e Alípio me seguiu. A presença dele não diminuiria minha privacidade, e ele não poderia me abandonar quando eu estava tão perturbado. Sentamo-nos no ponto mais distante da casa. Meu espírito estava perturbado.' [Confissões VIII.19]

'Doente na alma e atormentado estava eu, e me acusava mais duramente do que de costume, debatendo-me até romper todas as amarras que, embora já fracas, ainda me prendiam. E tu, ó Senhor, com tua rigorosa misericórdia, me pressionavas no fundo da alma, redobrando as chicotadas do medo e da vergonha para que eu não desistisse, e assim aquela tênue amarra que sobrava recuperasse sua resistência e me prendesse ainda mais.' [Confissões VIII.25]

'29. Assim eu falava e chorava, no mais amargo sentimento de contrição, quando eis que, de repente, provindo de uma casa na vizinhança, ouço uma voz, como a de um menino ou menina, não sei, cantando e repetindo muitas vezes: “Pegue e leia. Pegue e leia”. Imediatamente meu rosto se alterou, e eu comecei a pensar, concentrando-me ao máximo, se as crianças costumavam, em alguma de suas brincadeiras, cantar aquelas palavras. Não consegui lembrar-me de ter jamais ouvido algo semelhante. Então, controlando a torrente de lágrimas, levantei-me, interpretando aquilo como nada menos do que uma ordem de Deus, de abrir o livro e ler a primeira passagem que descobrisse ao acaso. Eu, na verdade, tinha ouvido dizer sobre Antão que, entrando na igreja durante a leitura do Evangelho, havia recebido o seguinte conselho, como se estivesse sendo lido e dirigido a ele pessoalmente: “Vá, venda os seus bens e dê o dinheiro aos pobres, e você terá um tesouro nos céus. Depois, venha e siga-me” (Mt 19.21). Ao receber essa orientação, ele imediatamente se converteu a ti. Voltei ansioso para o local onde Alípio estava sentado, pois lá havia deixado o volume do apóstolo. Peguei-o, abri e li em silêncio a primeira passagem que caiu sob meu olhar: “Não em orgias e bebedeiras, não em imoralidade sexual e depravação, não em desavença e inveja. Ao contrário, revistam-se do Senhor Jesus Cristo, e não fiquem premeditando como satisfazer os desejos da carne” (Rm 13.13-14). Não precisei continuar a leitura, nem era necessário: imediatamente, ao final dessa frase, como se eu tivesse sido exposto a uma luz serena que invadia meu coração, todas as negras sombras da dúvida desapareceram. 
30. Em seguida, fechei o livro usando um dedo ou outra coisa qualquer para marcar a página, e calmamente revelei a Alípio o que havia lido. O que aconteceu no seu íntimo, sem que eu o soubesse, ele me mostrou. Pediu-me para ler o que eu havia lido, e eu lhe mostrei. Ele leu e prosseguiu na leitura, e eu não sabia o que vinha em seguida. Era isto: “Aceitem o que é fraco na fé” (Rm 14.1), que ele aplicou a si mesmo e o revelou a mim. E com esse conselho ele se fortaleceu. Com boa resolução e propósito, correspondendo ao máximo ao seu caráter, que sempre foi muito diferente e melhor do que o meu, sem nenhum turbulento adiamento, juntou-se a mim. Em seguida, fomos procurar minha mãe [Mônica]. Contamos-lhe o que acontecera. Ela se rejubilou. Relatamos em que ordem os fatos se sucederam. Ela exultou triunfante e bendizendo a ti...' [Confissões VIII.29-30]

'Verecundo ficou seriamente perturbado com minha felicidade. Preso a vínculos inflexíveis, ele viu que deveria separar-se de mim. Ele mesmo não era cristão, mas sua mulher o era. No entanto, com mais firmeza do que qualquer outra cadeia, ele estava preso e impedido de empreender a viagem que eu agora iniciava. Pois, como ele [Verecundo] mesmo declarou, não se tornaria cristão em nenhuma outra situação que não fosse aquela para ele então impossível. Todavia, generosamente, ele nos ofereceu sua casa de campo, enquanto ficássemos por lá. Tu, ó Senhor, o recompensarás “na ressurreição dos justos” (Lc 14.14), vendo que já lhe deste o quinhão dos justos. Pois, quando eu já estava ausente, em Roma, ele foi acometido de uma enfermidade física, durante a qual se fez cristão, um de teus fiéis, e depois deixou esta vida. “Deus teve misericórdia dele, e não somente dele, mas também de mim” (Fp 2.27), evitando que a lembrança da extrema bondade de meu amigo, sem poder vê-lo participando do teu rebanho, fosse para mim uma tortura intolerável. Graças a ti, meu Deus, nós somos teus. Tuas sugestões e teu consolo nos dizem que tu, fiel em tuas promessas, agora recompensas Verecundo pela casa de campo de Cassicíaco que ele nos cedeu para repousarmos em ti, longe da febre deste mundo, com o eterno frescor do teu paraíso. Pois tu lhe perdoaste os pecados cometidos neste mundo lá naquela dadivosa montanha, a montanha onde flui leite, a tua montanha...' [Confissões IX.5]

'Naquela época Verecundo sofria, mas Nebrídio se alegrava. Pois embora ele [Nebrídio] também, não sendo ainda cristão, houvesse caído naquele abismo do mais pernicioso erro que o levava a crer que o corpo de teu Filho era um fantasma, agora emergia dele adotando a mesma crença que nós. Mesmo que ainda não fosse iniciado nos sacramentos da tua Igreja, ele era o mais ardente perseguidor da verdade. Logo após nossa conversão e regeneração pelo teu batismo, Nebrídio tornou-se um membro fiel da Igreja [...] e, servindo-te em perfeita castidade e continência entre sua gente na África, promoveu a conversão de toda a sua família; em seguida, foi libertado por ti de seu corpo e agora vive no seio de Abraão. O que quer que esse seio signifique, lá está Nebrídio, meu caro amigo e teu filho, ó Senhor, antes liberto, agora adotivo. Lá está ele. Pois que outro lugar existe para uma alma assim? Naquele lugar está ele sobre o qual tantas perguntas dirigiu a mim, pobre ser humano inexperiente. Agora ele não mais aproxima seus ouvidos de minha boca, mas achega sua boca espiritual à tua Fonte, bebendo sabedoria no grau máximo possível de acordo com sua sede, infinitamente feliz. Mas não acho que essa fonte de sabedoria o deixe tão inebriado a ponto de ele se esquecer de mim, sabendo que tu, Senhor, que és sua bebida, te preocupas conosco. Assim, lá estava eu então consolando Verecundo, que, sem perder a amizade, lamentava que minha conversão tivesse aquelas consequências. Eu o aconselhei a aceitar a fé, respeitando sua condição de homem casado; e esperava que Nebrídio seguisse meus passos, o que ele estava muito prestes a fazer. E assim, de repente, aqueles dias finalmente se foram.' [Confissões IX.6]

'7. Chegou o dia em que eu, de fato, me livraria do cargo de professor de retórica, do qual mentalmente já me livrara. E aconteceu. Tu resgataste minha língua de onde já havias resgatado o coração. Eu te agradeci em júbilo, e me retirei com toda a minha família para a casa de campo [Cassicíaco]. O que lá realizei em matéria de textos escritos, agora que estava registrado a teu serviço (embora, nesse intervalo, minha respiração ainda fosse ofegante devido aos esforços feitos na escola do orgulho), é atestado por meus livros, bem como pelos debates travados com outros ou comigo mesmo diante de ti. Prova disso são minhas cartas a Nebrídio, que na época estava ausente. E quando terei tempo para relatar os grandes benefícios que recebemos naquela época, especialmente agora quando corro em direção a graças mais importantes? Guardo na memória, e para mim é agradável, ó Senhor, confessar a ti com que estímulos interiores tu me subjugaste; e como tu me tornaste humilde, “aplanando montes e colinas” de ambiciosos sonhos (Is 40.4), fazendo “veredas retas” e “nivelando estradas acidentadas” (Lc 3.4-5); e como tu subjugaste também Alípio, meu irmão de coração, que aceitou o nome de teu Unigênito, nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, nome que antes ele não queria ver incluído em nossos escritos. Ele então preferia que estes tivessem o cheiro dos altaneiros cedros das escolas, já despedaçados pelo Senhor, e não o aroma das ervas sadias da Igreja, o antídoto contra serpentes. 
8. Ah, com que clamores eu falava contigo, meu Deus, quando lia os salmos de Davi, aqueles piedosos poemas e cantos de devoção, que não dão margem alguma para o orgulho! Eu ainda era um catecúmeno, um noviço no teu verdadeiro amor. Repousava naquela casa de campo [Cassicíaco] junto com Alípio, outro catecúmeno. Minha mãe [Mônica] sempre estava junto a nós, em trajes de mulher, mas com sua fé viril, com aquela paz tranquila da idade e a plenitude do amor materno e da piedade cristã. Ah, que clamores eu dirigia a ti naqueles salmos! Como eles me inflamavam e me incutiam ardentes desejos de cantá-los, se possível, pelo mundo inteiro, contra o orgulho da humanidade. Todavia, no mundo inteiro eles são cantados, e “nada escapa ao seu calor” (Sl 19.6). Com que potentes e amargos lamentos eu me indignava contra os maniqueístas! E ao mesmo tempo sentia pena deles [compaixão/misericórdia]. Não conheciam os sacramentos, os verdadeiros remédios, e esbravejavam como loucos contra o antídoto que poderia curá-los de sua loucura.' [Confissões IX.7-8]

'23. Aproximando-se agora o dia de sua [Mônica] partida deste mundo (o dia que tu conhecias, nós não), creio que por determinação de teus secretos desígnios que assim o quiseram, aconteceu que ela e eu estávamos a sós, debruçados a uma janela que se abria para o jardim da casa onde nos hospedávamos em Óstia. Ali, longe das multidões, nos refazíamos do cansaço de uma longa jornada, preparando-nos para seguir viagem. Numa conversa a sós, muito agradável, esquecendo-nos “das coisas que ficaram para trás e avançando para as que estão adiante” (Fp 3.13), discutíamos na presença da Verdade, que és tu, como é a vida eterna dos santos, que “olho nenhum viu, ouvido nenhum ouviu, mente nenhuma imaginou” (1Co 2.9). Muito se abria a boca de nosso coração, querendo beber da água corrente de tua fonte, “a fonte da vida” (Sl 36.9), que és tu. Queríamos ser aspergidos segundo nossa capacidade com algum poder especial para podermos meditar sobre um mistério tão grande. 
24. Depois nossa conversa atingiu um nível tão elevado que nem mesmo o maior prazer dos sentidos físicos, naquela luz pura, cotejada com a doçura daquela vida por vir parecia não merecer comparação nem sequer menção. Transportados por um sentimento superior, elevamo-nos até a essência do ser, ultrapassando aos poucos todas as coisas físicas, atingindo até o próprio céu, de onde nos chega o brilho da lua, do sol e das estrelas. Sim, pairávamos ainda mais alto em nossa meditação, conversa e admiração de tuas obras. E chegamos à nossa mente e a ultrapassamos, para que pudéssemos atingir aquela região da inesgotável abundância, onde tu apascentas Israel com o alimento da verdade, onde a vida é “a Sabedoria, artífice do mundo” (Sb 7.21, BJ) e do que existiu e do que existirá.' [Confissões IX.23-24]

'26. Essas coisas eu ia dizendo, embora não exatamente desse jeito e com essas mesmas palavras. Mas tu sabes, Senhor, que naquele dia quando falávamos disso, e este mundo com todas as suas delícias tornou-se, durante a conversa, desprezível aos nossos olhos, minha mãe [Mônica] disse: “Filho, de minha parte já não tenho nenhum prazer nesta vida. Não sei por que ainda continuo aqui, agora que minhas esperanças neste mundo foram satisfeitas. Havia uma coisa que me fazia querer ficar por mais um tempo nesta vida: poder ver você como cristão [...] antes de minha morte. Meu Deus me concedeu essa graça e do modo mais que generoso, pois agora vejo você desprezando a felicidade terrena, transformando-se num servo dele. O que estou fazendo aqui?”. 
27. Não me lembro que resposta eu dei a essas coisas que ela [Mônica] disse. Pois não mais que cinco dias após isso, ela contraiu uma febre muito alta. Durante a enfermidade, perdeu a consciência e, por um breve espaço de tempo, afastou-se deste mundo visível. Reunimo-nos às pressas a seu redor. Ela recuperou os sentidos. Olhando para mim e meu irmão junto a ela, perguntou-nos: “Onde estava eu?”. E depois, fitando-nos, impressionada com nosso silêncio, disse: “Aqui vocês devem enterrar sua mãe”. Mantive meu silêncio e parei de chorar. Mas meu irmão disse alguma coisa, desejando-lhe uma sorte melhor: que ela não viesse a morrer numa terra estranha, mas sim em seu próprio país. Ao que ela, com expressão ansiosa, fixando nele seus olhos, pois ele ainda valorizava essas coisas, e depois olhando para mim, disse: “Veja só o que ele diz!”. E logo em seguida, dirigiu-se a nós dois: “Enterrem este corpo em qualquer lugar. Que isso não seja de modo algum motivo de preocupação para vocês [...]”. Depois de expressar esse desejo com as palavras que conseguiu proferir, ela se calou, sentindo o recrudescimento da dor da enfermidade.' [Confissões IX.26-27]

'[...] Também ouvi contar mais tarde que, quando já estávamos em Óstia, um dia, durante minha ausência, com confiança maternal ela [Mônica] conversou com alguns amigos sobre seu desprezo por esta vida e sobre a bênção da morte. Quando eles, assombrados com essa coragem que tu havias concedido a uma mulher, perguntaram se não tinha medo de deixar seu corpo tão longe de sua cidade natal, ela respondeu: “Nada se situa longe de Deus. E não se deve temer que no fim do mundo ele não consiga reconhecer de onde nos deve ressuscitar”. No nono dia de sua enfermidade, aos 56 anos de vida, quando eu tinha 33, aquela alma santa e religiosa foi libertada de seu corpo.' [Confissões IX.28]

'[...] Deitado sozinho em meu leito, lembrei-me da verdade daqueles versos do teu Ambrósio. Pois tu és:
O Criador de todas as coisas, o Senhor, 
O Soberano das alturas 
Que, vestindo o dia de luz, derramaste 
Uma suave sonolência sobre a noite, 
Para que em nossos membros a força 
Do trabalho fosse renovada, 
E reanimados fossem os corações desalentados e abatidos, 
E as tristezas fossem suavizadas.' 
[Confissões IX.32]

'[...] Dei vazão às lágrimas antes reprimidas: podiam agora extravasar à vontade. Nelas repousou meu coração; nelas ele encontrou descanso, pois quem as ouvia eram teus ouvidos, não os ouvidos dos homens, que teriam interpretado meu choro com desdém. E agora, Senhor, a ti o confesso por escrito. Que leia isso quem quiser e como quiser. Se alguém encontra pecado nisso, no fato de eu chorar a morte de minha mãe [Mônica] por uma pequena fração de uma hora (a mãe que por um breve espaço de tempo esteve morta a meus olhos, aquela que por muitos anos chorou por mim para que eu vivesse aos teus olhos), que essa pessoa chore por meus pecados diante de ti, o Pai de todos os irmãos do teu Cristo.' [Confissões IX.33]

12 março 2025

Jaqueira

Jaqueira, na definição de um conhecido dicionário em língua portuguesa, significa: "Árvore tropical de até 15 m (Artocarpus heterophylla), da família das moráceas, nativa da Ásia e bastante cultivada no Brasil, com madeira amarela, de boa qualidade, folhas oblongas, coriáceas, flores em capítulos e grandes frutos bacáceos, de casca verde, grossa, com bicos, e polpa comestível, amarelada, doce e viscosa, com grandes sementes também comestíveis, depois de assadas; jaca."

Hoje, em uma ligação telefônica com um fraterno e querido amigo, que mora perto do Parque da Jaqueira, ao perguntar se ele tinha feito algum passeio recente neste conhecido parque da cidade do Recife, fui surpreendido com sua resposta curiosa, inteligente e bem-humorada, mais ou menos da seguinte forma: "Conquanto eu já_queira ter ido no parque da jaqueira, ainda não tive a oportunidade de ir hoje"... Depois de algumas risadas espontâneas com este amigo, ao telefone, percebi que esta curiosa combinação e jogo de palavras ficou passeando e caminhando no meu pensamento durante boa parte deste dia, talvez de forma similar aos visitantes deste conhecido parque, que usam a pista de caminhada para fazerem seus exercícios físicos diários... Digamos que esta frase ficou jaquerando em minha mente, ou talvez poderíamos dizer que este pensamento ficou já_querendo sair na forma destas palavras, que compartilhamos aqui, neste texto.

A providência de Deus é curiosa, algumas vezes, não é mesmo?! 
Tentando encontrar um significado mais profundo para a graciosa experiência neste episódio da jaqueira, e aguardando no Senhor por um desfecho para esta maravilhosa jaqueirice, vieram à memória as seguintes palavra do apóstolo Paulo aos Filipenses:

"12Quero ainda, irmãos, cientificar-vos de que as coisas que me aconteceram têm, antes, contribuído para o progresso do evangelho; 13de maneira que as minhas cadeias, em Cristo, se tornaram conhecidas de toda a guarda pretoriana e de todos os demais; 14e a maioria dos irmãos, estimulados no Senhor por minhas algemas, ousam falar com mais desassombro a palavra de Deus. 15Alguns, efetivamente, proclamam a Cristo por inveja e porfia; outros, porém o fazem de boa vontade; 16estes, por amor, sabendo que estou incumbido da defesa do evangelho; 17aqueles, contudo, pregam a Cristo, por discórdia, insinceramente, julgando suscitar tribulação às minhas cadeias. 18Todavia, que importa? Uma vez que Cristo, de qualquer modo, está sendo pregado, quer por pretexto, quer por verdade, também com isto me regozijo, sim, sempre me regozijarei. 19Porque estou certo de que isto mesmo, pela vossa súplica e pela provisão do Espírito de Jesus Cristo, me redundará em libertação, 20segundo a minha ardente expectativa e esperança de que em nada serei envergonhado; antes, com toda a ousadia, como sempre, também agora, será Cristo engrandecido no meu corpo, quer pela vida, quer pela morte. 21Porquanto, para mim, o viver é Cristo, e o morrer é lucro. 22Entretanto, se o viver na carne traz fruto para o meu trabalho, já não sei o que hei de escolher. 23Ora, de um e outro lado, estou constrangido, tendo o desejo de partir e estar com Cristo, o que é incomparavelmente melhor. 24Mas, por vossa causa, é mais necessário permanecer na carne. 25E, convencido disto, estou certo de que ficarei e permanecerei com todos vós, para o vosso progresso e gozo da fé, 26a fim de que aumente, quanto a mim, o motivo de vos gloriardes em Cristo Jesus, pela minha presença, de novo, convosco." (Fp 1:12-26)

Os preciosos ensinamentos do apóstolo Paulo, inspirado pelo Espírito Santo, sobre como as suas tribulações estavam "contribuído para o progresso do evangelho", conduzem à uma declaração magnífica e muito conhecida entre os crentes: "Porquanto, para mim, o viver é Cristo, e o morrer é lucro" (v. 21). No entanto, com o típico equilíbrio e a sabedoria transbordantes da Palavra de Deus, o apóstolo continua este ensino, nos próximos versículos (vv. 22-25), que talvez pudéssemos parafrasear da seguinte forma: "Conquanto eu já_queira partir e estar com Cristo, o que é imcomparavelmente melhor, ainda não tive a oportunidade de ir hoje... e enquanto for necessário permanecer na carne... ficarei e permanecerei com todos vós, para o vosso progresso e gozo da fé... a fim de vos gloriardes em Cristo Jesus".

Desta forma, seguimos adiante, proclamando Maranata, "Vem, Senhor Jesus!" (Ap 22:20b), enquanto aguardamos conhecer o nosso Salvador face-a-face, no tempo que Ele soberanamente pré-determinou para cada um de nós, crentes, servos, e amigos (Jo 15:13-15) deste bendito e amável Senhor! A Ele somente seja a glória, o louvor e a honra, pelos séculos dos séculos! Amém.

08 janeiro 2024

AMIZADE: Robert Murray M'Cheyne

 

O texto abaixo é um trecho do capítulo 3 do livro "A Vida de Robert Murray M'Cheyne: o jovem que viveu na presença de Deus", de Andrew A. Bonar. Neste texto, é possível perceber como era o padrão da AMIZADE CRISTÃ para estes servos de Deus:

"Suas [R.M.M'Cheyne] visitas aos amigos eram momentos em que procurava fazer o bem às suas almas; e nunca ficava satisfeito a memos que pudesse direcionar a conversa para as coisas eternas. Quando não podia fazê-lo, geralmente permanecia em silêncio. E, no entanto, seu comportamento era leve e agradável para todos, exibindo ao mesmo tempo mansidão de fé e delicadeza de sentimento. Havia em seu caráter um alto refinamento que transparecia na poesia e na verdadeira educação; e havia algo em seu modo de agir que lembrava uma observação dele mesmo, ao explicar as especiarias de Cantares 4:16, quando ele disse que 'alguns crentes eram um jardim que tinha árvores frutíferas e, portanto, eram úteis; mas também devemos ter especiarias e, assim, ser atraentes [agradáveis]'. Desejando transmitir seus sentimentos de gratidão a um colega de trabalho em Dundee, ele [R.M.M'Cheyne] lhe enviou uma Bíblia hebraica, com estas poucas linhas prefixadas:

Unge meus olhos,
Ó pomba sagrada!
Que possa entesourar
Este livro de amor.
 
Destrave meu ouvido,
Ensurdecido pelo pecado,
Para que possa ouvir
Tua voz dentro de mim.
 
Quebre meu coração duro,
Jesus, meu Senhor;
No íntimo
Esconde tua doce palavra.

Foi em uma ocasião semelhante, em 1838, que ele [R.M.M'Cheyne] escreveu as linhas, Tua palavra é lâmpada para meus pés. Em outro momento, sentado sob uma árvore frondosa e olhando para a residência hospitaleira em que encontrou um refúgio agradável, seus sentimentos de gratidão fluíram para seu amável amigo nas linhas a seguir:

'Paz à esta Casa'
Que por muito tempo a paz dentro desta habitação
Tenha seu lugar de descanso;
Anjo protege todo mal, repelindo.
Deus, seu Deus de graça.
Que o Espírito como pomba os guie
Para a terra justa!
Possa o Salvador-pastor alimentá-los
De sua mão gentil!

Nunca houve alguém mais amado como amigo, e raramente alguém cuja morte pudesse fazer com que tantos se sentissem como se nenhum outro amigo pudesse ocupar seu lugar. Alguns também podem dizer que aprenderam tanto com sua caminhada santa, 'que é provável que nunca se passe um dia em que não tenham alguma vantagem obtida de sua amizade'."

 

01 fevereiro 2022

PocaFé

 

Em tempos de escassez e dificuldade crescentes para a humanidade, tem faltado muita coisa aos seres humanos, a começar pela fé e pelo amor genuinamente cristãos.

Há um ditado que diz “farinha pouca, meu pirão primeiro”.  Nem precisa de explicação, não é mesmo?! Por isso, se tornou um aforismo ou ditado popular.

Outra escassez que temos experimentado nestes dias é a escassez de amigos e da oportunidade de tomar um bom cafezinho com eles. Assim, temos vivido uma época de “PocaFé”, com pouca (ou nenhuma) fé em Cristo Jesus, e pouco café entre amigos e entre irmãos na fé...

A ‘ausência’ de amigos verdadeiros se faz ‘presente’ no ‘vazio’ da alma ‘cheia’ de tristeza e cansaço.

O contrassenso de um mundo que está aparentemente “encolhendo” através do desenvolvimento de tecnologias de comunicação (os aplicativos, as redes sociais, o velho e esquecido e-mail, a “medieval” ligação telefônica, etc), mas na verdade, está “inflamado no inchaço” do afastamento das pessoas que costumam usar estas tecnologias de comunicação apenas de maneira muito utilitária e pragmática, economizando em frases, em palavras, e até mesmo em letras (“tc”, “vc”, “OMG”, “LOL”, etc).

Ah! Como a vida (especialmente a vida cristã) está ficando mais empobrecida sem amigos e sem café entre eles! Uma vida PocaFé!

Que contraste com o Verdadeiro Amigo, Criador, Mestre, Salvador... o Senhor Jesus Cristo!

“O meu mandamento é este: que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei. Ninguém tem maior amor do que este: de dar alguém a própria vida em favor dos seus amigos. Vós sois meus amigos, se fazeis o que eu vos mando. Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas tenho-vos chamado amigos, porque tudo quanto ouvi de meu Pai vos tenho dado a conhecer. Não fostes vós que me escolhestes a mim; pelo contrário, eu vos escolhi a vós outros e vos designei para que vades e deis fruto, e o vosso fruto permaneça; a fim de que tudo quanto pedirdes ao Pai em meu nome, ele vo-lo conceda. Isto vos mando: que vos ameis uns aos outros.” (João 15:12-17)

O que fazemos em tempos de PocaFé?

Fazemos uma oração de clamor, em nome do Filho, que é o “Autor e Consumador da fé” (Hb 12:2):

Senhor, tu és o único e verdadeiro Deus Vivo, Criador, Provedor, Salvador, Conselheiro, Rei, Profeta, Sacerdote, e Amigo! Clamamos, através dos méritos do nosso bendito Redentor Jesus – por meio da sua obediência e do seu sacrifício – que o Senhor, na sua poderosa providência e entranhável misericórdia, estabeleça novos relacionamentos de amizades cristãs verdadeiras em nossas vidas, e restaure as amizades corroídas pelo tempo e pelo desgaste do nosso pecado. Pedimos, e agradecemos, em nome e por amor a Jesus Cristo, o verdadeiro Amigo! Amém

Soli Deo Gloria

 

15 janeiro 2022

Aprendizado piedoso 135

 

 (imagens da internet)

Amizade Verdadeira

Um homem que tem muitos companheiros pode arruinar-se, mas há um amigo que se apega mais do que um irmão (Provérbios 18:24).

Ninguém gosta de se sentir sozinho e sem um amigo. Todos reconhecemos a importância da amizade e o presente inestimável que um verdadeiro amigo pode ser. Amizade profunda - do tipo marcado por consistência, honestidade e sensibilidade - é o padrão que a Bíblia nos apresenta.

Salomão diz que um verdadeiro amigo é sempre leal, independentemente das circunstâncias: “Em todo tempo ama o amigo, e na angústia se faz o irmão” (Provérbios 17:17). Nós vemos nossos amigos exatamente como eles são, e ainda permanecemos consistentes em nossa lealdade a eles. Além disso, amigos sinceros estão preparados para "ferir", com o intuito de que seus amigos possam se tornar tudo o que Deus quer que eles sejam: “Leais são as feridas feitas pelo que ama, porém os beijos de quem odeia são enganosos” (Provérbios 27:6). Podemos não gostar muito disso, mas cada um de nós precisa de amigos que nos responsabilizem quando nós erramos - e cada um de nós é chamado a ser esse tipo de amigo também.

Devemos também considerar nosso uso da linguagem. Como Paulo diz: “Não saia da vossa boca nenhuma palavra torpe, e sim unicamente a que for boa para edificação, conforme a necessidade, e, assim, transmita graça aos que ouvem” (Efésios 4:29). Você pode quebrar um coração com apenas uma palavra, e pode levar uma vida inteira para consertá-lo.

Homens e mulheres que levam esses princípios a sério podem se perguntar: “Existe realmente algum amigo que incorpore tais características? Existe alguém que eu conheça que seja sempre constante, que me repreenda com amor, que mostre graça e sensibilidade em todas as suas relações comigo?” E a resposta a essas perguntas é encontrada, definitivamente, na pessoa de Cristo. O escopo (alcance, extensão, dimensão, capacidade) da amizade do Senhor Jesus é incrível! Ele fez amizade com os indivíduos mais estranhos - parando debaixo de uma árvore para falar com um cobrador de impostos (Lucas 19), pedindo água a uma mulher samaritana (João 4), estendendo a mão para um leproso (Mateus 8). Ele foi consistente em Seu amor; Ele estava preparado para falar palavras de verdade, por mais desafiadoras que fossem; Ele fortaleceu outros. Supremamente, Ele é aquele que amou Seus amigos o suficiente para dar Sua vida por eles (João 15:13). Ele é "O Bondoso Amigo":

What a friend we have in Jesus,
all our sins and griefs to bear!
What a privilege to carry
everything to God in prayer!

(“What a Friend We Have in Jesus”, Joseph Medlicott Scriven, 1855)
["O Bondoso Amigo" - Hino 200 da "Harpa Cristã"]

A amizade de Jesus é o “padrão áureo” para a nossa. Como amigos de Cristo, somos chamados a amar e criar laços de amizade com os outros, assim como Ele fez. De fato, Jesus disse: “Vós sois meus amigos, se fazeis o que eu vos mando” (João 15:14). Devemos aproveitar todas as oportunidades para compartilhar a extensão da Sua amizade com aqueles que não têm amigos, e estão desamparados.

Vivemos em um mundo onde os conhecidos são muitas vezes incontáveis, e os “amigos do Facebook” são muitos. Mas isso não é amizade verdadeira. Você tem amigos que são constantes, próximos e semelhantes a Cristo? Se você tiver, valorize-os. Se não tiver, ore por alguns. E, hoje, seja esse tipo de amigo para os outros. Você talvez seja a resposta para a solidão de alguém, ou a proteção contra a ruína de alguém.

*QUESTÕES PARA PENSAR:
- Como Deus está me chamando para pensar diferente?
- Como Deus está reordenando as afeições do meu coração - o que eu amo?
- O que Deus está me chamando para fazer hoje?

*LEITURA ADICIONAL: Tiago 5:13–20

 

29 março 2021

Sobre a comunicação humana: uni vs. bidirecional


Graham Bell "telefonou" para D. Pedro II

'[...] A cerimônia de abertura {Exposição Universal na cidade de Filadélfia - "The Centennial International Exhibition", 1876} foi conduzida pelo presidente Ulysses Grant e… D. Pedro II. E, lá, ocorreu seu encontro mais famoso com Alexander Graham Bell. Os dois haviam se conhecido duas semanas antes, em Boston (onde Bell havia implantado uma das primeiras escolas de surdos-mudos do mundo). Na exposição, o imperador encontrou o inventor esquecido em um canto. Ele explicou que o tal telefone, a invenção que acabara de patentear, não estava chamando a atenção no meio da máquina de escrever, da máquina de costura e do ketchup Heinz – entre outras novidades.   
Para ajudar, o imperador resolveu testar o aparelho. Afastou-se 100 metros de Bell, pôs o cone metálico no ouvido e ouviu a voz do amigo recitar Shakespeare do outro lado. Foi um susto: “Meu Deus, isto fala!”... Foi aí que o telefone finalmente chamou atenção na feira, de acordo com o próprio inventor.
Um ano depois, já havia telefones ligando a Quinta da Boa Vista às casas dos ministros. Esses aparelhos, os primeiros da América Latina, foram instalados ao mesmo tempo que os da Casa Branca, em novembro de 1877. Em 1880, já estava fundada a Brazilian Telephone Company.' (Artigo sobre Dom Pedro II)

Nestes primórdios da história da telefonia, só existia um Transmissor (T) e um Receptor (R), como pode ser observado na figura acima, e portanto a "ligação telefônica" só podia ser realizada no sentido unidirecional (T --> R), do Transmissor para o Receptor. Contudo, graças a Deus pelos avanços científicos e tecnológicos que beneficiam a humanidade, nos permitindo inclusive falar de forma bidirecional, ou seja, tanto falar, quanto ouvir nosso interlocutor ao telefone, por exemplo.

Em outras palavras, podemos exclamar como Dom Pedro II, "Meu Deus, isto fala!", mas também podemos lembrar, "Meu Deus, posso falar nisso!"

Portanto, meu amigo, lembre-se hoje dos seus amigos, e use o seu telefone (que certamente faz chamadas bidirecionais) para fazer ligações para eles. Amigos são dádivas que o próprio Senhor tem nos concedido, não é mesmo?!

"Finalmente, sede todos de igual ânimo, compadecidos, fraternalmente amigos, misericordiosos, humildes" 
(1 Pedro 3:8)
 
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