Print Friendly and PDF
Mostrando postagens com marcador ensaio. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador ensaio. Mostrar todas as postagens

16 maio 2025

"Ato falho" (C.S. Lewis)

Alguns trechos do ensaio "Ato falho", de C.S. Lewis, encontrados no livro "O peso da glória":

'[...] Há algum tempo, quando eu estava usando a oração prevista para o quarto domingo depois da Trindade {*} em minhas orações privativas, percebi que havia cometido um ato falho. Embora minha intenção fosse a de orar para ter força para passar pelas provações temporais e que eu, finalmente, não perdesse as dádivas eternas, achei que tivesse orado para que eu passasse pelas coisas eternas de modo que eu, finalmente, não perdesse as coisas temporais.'
{*} "Ó Deus, protetor de todos que confiam em ti, sem o qual nada é forte, nada é santo. Aumenta e multiplica sobre nós a tua misericórdia; que, ao ser nosso governante e guia, possamos passar pelas coisas temporais de tal forma que finalmente não percamos as coisas eternas. Concede-nos isso, ó Pai Celestial, por causa de Jesus Cristo Nosso Senhor. Amém." (Nota do Editor, na edição original)

'[...] Entro na presença de Deus com grande temor, para que nada aconteça a mim nesse momento que seja intolerável demais quando eu voltar à minha vida "normal". Não desejo me entusiasmar com alguma resolução que eu possa depois lamentar, pois sei que poderei me sentir muito diferente depois do café da manhã; não quero que nada me aconteça quando estiver diante do altar que venha a se tornar uma cobrança muito grande depois. Seria muito desagradável, por exemplo, levar o dever da caridade (enquanto estiver no altar) tão a sério que, depois do café, eu tivesse de rasgar uma resposta muito severa que tinha escrito para uma pessoa petulante, de quem recebi uma carta ontem, e que eu pretendia postar hoje no correio.'

'[...] O princípio-chave de todas essas precauções continua a ser: guardar-se das coisas temporais. Vejo alguma evidência de que essa tentação não acontece só comigo. Um bom autor (cujo nome eu esqueci) pergunta em algum lugar: “Será que nunca levantamos, apressadamente, de nossa posição de oração (ajoelhados), com medo de que a vontade de Deus pudesse se tornar tão clara se orássemos por mais tempo?”. A história a seguir foi contada como verdadeira. Uma mulher irlandesa, que acabara de sair da confissão {no confessionário}, encontrou nos degraus da capela a mulher que era sua maior inimiga na aldeia. A outra mulher deixou sair de sua boca uma torrente de abuso verbal. “Não é isso uma vergonha para você”, respondeu Biddy, “conversar comigo dessa maneira, sua covarde, e eu num estado de graça, de maneira que não posso responder agora? Mas você não perde por esperar. Não estarei num estado de graça por muito mais tempo”.'

'[...] Esta é minha interminável e recorrente tentação; descer até aquele mar (acredito que foi João da Cruz {Juan de la Cruz} que chamou Deus de mar) e ali não mergulhar, nadar, nem boiar, mas somente pisar e respingar a água, com cuidado para não sair da parte mais rasa, segurando-me na corda salva-vidas, que me conecta às minhas coisas temporais. Isso é diferente das tentações que encontramos no início da vida cristã. Naquele tempo, lutávamos (ao menos eu lutava) contra admitir as reivindicações de tudo que é eterno e, depois que lutávamos, que apanhávamos e nos rendíamos, supúnhamos que tudo seria um mar tranquilo para navegar. Essa tentação vem mais tarde, endereçada àqueles que já admitiram a reivindicação, pelo menos em princípio, e estão até fazendo um esforço para cumpri-la. Nossa tentação é a de olhar intensamente para o mínimo que seria aceito. De fato, somos muito parecidos com os pagadores de impostos honestos, mas relutantes. Aprovamos nosso pagamento de imposto, em princípio, e o fazemos corretamente, mas receamos um aumento nos impostos. Somos muito cuidadosos para não pagar mais do que é necessário e esperamos — muito ardentemente — que depois de pagar o imposto, haverá o suficiente para continuar vivendo a vida. Observe que essas cautelas que o tentador cochicha em nossos ouvidos são todas plausíveis. De fato, não creio que ele tente frequentemente nos enganar (depois do início da juventude) com uma mentira direta. A plausibilidade é esta. É realmente possível ser levado pela emoção religiosaentusiasmo, como nossos antepassados diziam — em resoluções e atitudes, que não são pecaminosas, mas racionais, não quando somos mais mundanos, mas quando somos mais sábios, de forma que venhamos a nos arrepender mais tarde. Podemos nos tornar conscienciosos ou fanáticos; podemos, naquilo que parece ser zelo, mas é realmente presunção, assumir tarefas que nunca foram a nós destinadas. Essa é a verdade na tentação. A mentira consiste em supor que a nossa melhor proteção seria um cuidado prudente com o nosso bolso, nossas extravagâncias habituais e nossas ambições, mas isso é totalmente falso. Nossa real proteção deve ser buscada em outro lugar; na vida cristã comum, na teologia moral, no pensamento racional estável, no conselho de bons amigos e de bons livros e, se necessário, num líder espiritual capacitado. Aulas de natação são melhores do que uma corda salva-vidas até a praia.'

'[...] Ele {Deus} reivindica tudo [...] Ele não poderá nos abençoar a não ser que ele no tenha. Quando tentamos demarcar dentro de nós uma área que é nossa, acabamos por manter uma área de morte. Portanto, em amor, ele exige tudo. Não existe negociação com ele {Deus}.'

'{Sobre não importar o vício que nos leva ao pecado, C.S. Lewis comenta:} [...] Perderemos o fim para o qual fomos formados e teremos rejeitado a única coisa que nos pode satisfazer {Cristo}. Fará alguma diferença, para um homem {ser humano} que está morrendo no deserto, qual fora a rota escolhida por causa da qual ele perdeu o acesso ao único poço? É impressionante como nesse assunto o Céu e o Inferno falam em uníssono. O tentador me diz: “Tome cuidado. Pense em quanto essa decisão e a aceitação dessa graça vão custar a você”. Contudo, Nosso Senhor também nos diz para calcularmos o custo.'

'[...] Entre eles parece ser claro que ficar remando sem sair do lugar é de pouca importância. Aquilo que importa, o que o Céu deseja e o Inferno teme, é precisamente aquele passo a mais, para fora de nós mesmos, de nosso controle. Ainda assim, não estou em desespero. Neste ponto, torno-me aquilo que alguns iriam chamar de “evangelical”; de qualquer modo um não-pelagiano. Não creio que qualquer esforço da minha vontade possa acabar de uma vez por todas com o desejo por obrigações limitadas, essa ressalva fatal. Somente Deus pode, e tenho fé e esperança de que ele o fará. É claro que não quero dizer com isso que posso, portanto, como se costuma dizer, “sentar confortavelmente”. Aquilo que Deus faz por nós, ele faz em nós. O processo de fazê-lo me parece (e não falsamente) ser como os exercícios repetidos, todos os dias ou todas as horas, por minha própria vontade, em renunciar a essa atitude, especialmente cada manhã, pois cresce sobre mim como se fosse uma nova cobertura cada noite. Fracassos serão perdoados; é a concordância que é fatal, a presença permitida, regularizada, de uma área em nós mesmos que ainda exigimos para nós. Deste lado da morte, talvez nunca consigamos expulsar o invasor para fora de nosso território, mas devemos estar com a Resistance {Resistância francesa na Segunda Guerra Mundial}, não com o governo Vichy {parte da França que fez acordos com os nazistas e estabeleceu um governo provisório}, e isso, até onde posso ver, deve ser reiniciado a cada manhã. Nossa oração matinal deveria ser aquela da Imitação: Da hodie perfecte incipere: “Conceda-me hoje ter um começo sem falhas, pois ainda não fiz nada”.'

"Sobre o perdão" (C.S. Lewis)

A diferença entre o perdão e a justificativa, em trechos do ensaio "Sobre o perdão", de C.S. Lewis:

“[...] Há, porém, toda a diferença do mundo entre perdoar e dar uma justificativa. O perdão diz: “Sim, você fez isso, mas eu aceito suas desculpas; eu nunca usarei isso contra você, e tudo entre nós dois será exatamente como era antes”. Mas a justificativa diz: “Vejo que você não conseguiu evitar ou que não tinha a intenção; você não é o culpado”. Se a pessoa não era culpada, então não há nada para ser perdoado. Nesse sentido, o perdão e a justificativa são quase opostos. [...] O que nos leva a cometer esse erro é o fato de que normalmente existe certa parcela de desculpa, algumas 'circunstâncias atenuantes'. Estamos tão ansiosos em apontar essas coisas a Deus (e a nós mesmos) que seremos capazes de esquecer a coisa realmente importante; isto é, aquilo que restou, a parte que as desculpas não podem cobrir, a parte que é indesculpável, mas, graças a Deus, não é imperdoável. Se esquecermos isso, poderemos sair imaginando que nos arrependemos e fomos perdoados, quando o que na realidade aconteceu é que satisfizemos a nós mesmos com nossas próprias desculpas. Podem ser desculpas muito ruins; ficamos muito facilmente satisfeitos conosco mesmos [...] O verdadeiro perdão significa olhar firmemente para o pecado, para o pecado que ficou sobrando sem nenhuma desculpa, depois que todas as concessões foram feitas, e vendo isso em toda sua repulsa, sujeira, maldade e malícia, ainda assim ser completamente reconciliado com a pessoa que o tiver praticado. Isso, e somente isso, é perdão, e podemos sempre ter da parte de Deus, se o pedirmos.”
{No difícil exercício de oferecer o perdão ao próximo, seguem os conselhos de C.S. Lewis:} 
“[...] É preciso começar, portanto, por dar atenção a tudo que possa mostrar que o outro homem {outro ser humano} não era tão culpável assim como pensávamos, mas mesmo que ele for absolutamente cheio de culpa, ainda temos de perdoá-lo; e mesmo se noventa e nove por cento de sua culpa aparente puder ser justificada com realmente boas desculpas, o problema do perdão começa com o um por cento de culpa que restou. Ser um cristão significa perdoar o indesculpável, porque Deus perdoou o indesculpável em você. Isso é difícil. Talvez não seja difícil perdoar uma única e grande ofensa, mas como perdoar — e continuar perdoando, a sogra mandona, o marido intimidador, a esposa irritante, a filha egoísta, o filho enganador — as provocações incessantes da vida diária? A única possibilidade, em minha opinião, é lembrar a nossa posição, ao manter o significado das palavras que pronunciamos quando dizemos em nossas orações todas as noites: 'Perdoa as nossas dívidas, assim como perdoamos aos nossos devedores' {Mt 6:12}. Não há outros termos em que Deus nos oferece o perdão. Recusá-lo seria o mesmo que recusar a misericórdia de Deus para nós mesmos. Não há nenhuma indicação de exceções e Deus mantém sua palavra.”

01 maio 2025

"Teologia é poesia?" (C.S. Lewis)

Trecho final do ensaio "Teologia é poesia?", de C.S. Lewis (CSL), com ênfases acrescentadas:

‘[...] A obviedade ou naturalidade que a maioria das pessoas parece encontrar na ideia do evolucionismo emergente parece ser uma alucinação pura.
Alguém pode ser forçado a pensar, a partir dessas bases e outras semelhantes, que de tudo o mais que possa ser verdade, a cosmologia científica popular não é. Abandonei aquele navio [1] não por causa do chamado da poesia [2], mas porque pensei que ele não pudesse se manter flutuando. Algo como o idealismo filosófico ou o teísmo deve ser, na pior das hipóteses, menos falso que isso. E o idealismo se mostrou um teísmo disfarçado, quando você o leva a sério. E uma vez tendo aceitado o teísmo, você não poderia ignorar as afirmações de Cristo. E depois que as examinei, me pareceu que não poderia assumir uma posição mediana. Ou ele era um lunático ou era Deus. E ele não era um lunático.
Aprendi na escola que, depois de fazer uma soma, deveria “testar a minha resposta”. A prova ou a verificação de minha resposta cristã à soma cósmica foi esta. Quando eu aceito a Teologia, posso encontrar dificuldades neste ponto ou naquele, ao harmonizá-la com algumas verdades particulares que estão implantadas na cosmologia mística derivada da ciência. Mas, eu posso compreender, ou admitir, a ciência como um todo. Se admito que a Razão [3] é anterior à matéria e que a luz daquela Razão primordial ilumina mentes finitas, posso compreender como as pessoas podem vir a saber, pela observação e inferência, muito do universo em que vivem. Se, por outro lado, eu aceito a cosmologia científica como um todo, então não apenas não serei capaz de acomodar o cristianismo, mas não poderei acomodar a própria ciência. Se as mentes são completamente dependentes do cérebro, se o cérebro depende da bioquímica, e a bioquímica (no longo prazo) depende do fluxo sem sentido dos átomos, não posso entender como o pensamento daquelas mentes deveria ter qualquer significância maior que o som do vento nas árvores. E esse é para mim o teste decisivo [4]. É assim que distingo o sonho e a vigília. Quando estou desperto posso, em certo grau, avaliar e estudar meu sonho. O dragão que me perseguiu na noite passada pode ser encaixado no meu mundo desperto. Sei que existem coisas como os sonhos; sei que comi um jantar difícil de digerir; sei que alguém que lê o que leio está sujeito a sonhar com dragões [5]. Mas, enquanto eu estava no pesadelo não podia inserir minha experiência de desperto. O mundo desperto é avaliado de modo mais real porque poderá conter, assim, o mundo dos sonhos; o mundo dos sonhos é avaliado como menos real porque não pode conter o mundo desperto. Pela mesma razão, estou certo de que ao passar dos pontos de vista da ciência para o teológico, passei do sonho para o despertamento. A Teologia cristã pode acomodar a ciência, a arte, a moralidade, e as religiões não-cristãs [6]. A perspectiva da ciência não é capaz de acomodar nenhuma dessas coisas, nem mesmo a própria ciência. Creio no cristianismo assim como creio que o Sol nasceu, não apenas porque o vejo, mas porque por meio dele eu vejo tudo mais.’

----------
*Notas:
[1]. Neste contexto, CSL parece estar se referindo à cosmologia científica típica da visão de mundo encontrada no materialismo/naturalismo. Em seus dias, um dos maiores divulgadores destas ideias era H.G. Wells, conforme o próprio autor cita, mais acima (“Perspectiva Científica”), no ensaio.
[2]. O autor está se referindo, neste contexto, à sua fé cristã, no tema central deste ensaio "Teologia é poesia?".
[3]. Por Razão, CSL está se referindo ao Deus Criador, Causa Primária, Verdade Absoluta, Verbo da Vida. 
[4]. Neste ponto, CSL está se posicionando claramente contra o absurdo do reducionismo encontrado na visão de mundo materialista/naturalista. Para mais conteúdo sobre este assunto, favor acessar os seguintes links: link I, link II, link III, link IV, link V, link VI.
[5]. O autor parece estar se referindo ao tipo de leitura e de conteúdo que está no seu imaginário, lembrando que CSL é autor de "Crônicas de Nárnia", e também era amigo pessoal de J.R.R. Tolkien, autor de "O Senhor dos Anéis", por exemplo.
[6]. Parece que, neste contexto, o autor está racionalmente declarando que a cosmovisão cristã é capaz, até mesmo, de explicar a existência de outras religiões não-cristãs, por exemplo, por causa da tendência idólatra do seu humano, que é explicada claramente na verdadeira antropologia bíblica encontrada nas Escrituras.

23 abril 2025

"O peso da glória" (C.S. Lewis)

Alguns trechos do ensaio "O peso da glória", de C.S. Lewis, encontrados no livro com o mesmo título:

'[...] De fato, ao levar em consideração as desavergonhadas promessas de recompensa e a surpreendente natureza das recompensas prometidas nos Evangelhos, parece-nos que o Senhor considera que nossos desejos não são muito fortes, e sim muito fracos. Somos criaturas medíocres, brincando com bebida, sexo e ambição, quando a alegria infinita nos é oferecida, como uma criança ignorante que prefere fazer castelos na lama em meio à insalubridade por não imaginar o que significa o convite de passar um feriado na praia. Nos contentamos com muito pouco.'

'[...] O jovem estudante, no início do estudo da gramática grega [uma analogia usada por Lewis], não poderá ter a mesma expectativa de prazer ao ler Sófocles que um adulto conhecedor do grego, da mesma forma que quem ama anseia pelo casamento ou o general pela vitória. Ele [o jovem estudante da analogia] terá de começar lutando por boas notas, ou para escapar de punições, ou para agradar os pais, ou, na melhor das hipóteses, na esperança de um bom futuro, que no presente ele é incapaz de imaginar ou desejar. Assim, sua posição se assemelha em parte à do mercenário; a recompensa que irá conquistar, na verdade, será uma recompensa natural e apropriada, mas ele não saberá disso até recebê-la. Claro que ele a receberá gradativamente; a satisfação vai prevalecendo aos poucos sobre o mero trabalho, e ninguém é capaz de indicar um dia ou hora em que uma coisa terminou e a outra começou. Mas é somente à medida que se aproxima da recompensa que ele se tornará apto a desejá-la em si; de fato, o poder de assim desejá-la é em si mesmo uma recompensa. Em relação ao Céu, o cristão está numa posição muito semelhante à desse jovem estudante. Aqueles que alcançaram a vida eterna na visão de Deus sabem muito bem, sem sombra de dúvida, que isso não é o resultado de mero suborno, mas a própria consumação de seu discipulado terreno. Todavia, nós que ainda não a alcançamos não podemos saber disso da mesma maneira, nem mesmo podemos começar a saber disso de alguma forma, exceto ao continuarmos a obedecer e ao encontrarmos a primeira recompensa de nossa obediência em nosso poder gradativo de desejar a recompensa definitiva. Na proporção em que cresce o desejo, nosso temor, a não ser que seja um desejo mercenário, vai diminuindo e se mostrará, finalmente, um absurdo. Mas, para a maioria de nós, isso provavelmente não acontecerá no espaço de um dia; a poesia substitui a gramática, o evangelho substitui a lei, o anseio transforma a obediência, de modo tão gradual quanto a maré desencalha um navio.'

'[...] De fato, se fomos feitos para o Céu, o desejo pelo nosso lugar apropriado já estará em nós, mas ainda não está associado a seu verdadeiro objeto e parecerá até mesmo como rival daquele objeto. Penso que é isso mesmo que encontramos. Não há dúvida de que existe um ponto em que minha analogia do jovem estudante entra em colapso.'

'[...] Se um bem transtemporal e transfinito é o nosso destino real, qualquer outro bem em que nosso desejo se fixa deve ser, em certo sentido, falacioso, e deve testificar, no melhor cenário, apenas uma relação simbólica com aquilo que verdadeiramente trará satisfação.'

'[...] Ao falar desse desejo por nossa própria pátria longínqua [o céu, a glória], que já pode ser encontrado em nós mesmos agora, sinto certa timidez. Estou quase cometendo uma indecência ao tentar escancarar o segredo inconsolável em cada um de nós. É um segredo que machuca tanto que você se vinga dele chamando-o de nomes tais como nostalgia, romantismo e adolescência. Esse também é o segredo [o aparente "mistério" do céu, da glória] que nos cutuca com certa doçura quando, em conversa muito íntima, a menção a ele se torna iminente e ficamos meio sem jeito, o que nos faz rir de nós mesmos. É o segredo que não conseguimos esconder e sobre o qual não podemos falar, embora desejemos fazer ambas as coisas. Não conseguimos falar dele, pois é o desejo por algo que de fato nunca apareceu em nossa experiência. Não podemos escondê-lo, pois nossa experiência constantemente o está sugerindo e traímos a nós mesmos como fazem os amantes com a simples menção de um nome. Nossa saída mais comum é chamar isso de beleza e nos comportar como se isso desse um jeito no assunto. A saída proposta por [WilliamWordsworth era identificar isso com certos momentos de seu próprio passado, mas isso tudo não passa de trapaça. Se Wordsworth voltasse a esses momentos no passado, ele não teria encontrado a coisa em si, mas somente recordações dela; aquilo de que ele se lembrou seria em si mesmo uma recordação. Os livros ou a música nos quais pensamos que a beleza estava localizada nos trairão, se confiarmos neles; não é que isso estava neles, apenas que veio por meio deles, e aquilo que veio por intermédio deles era apenas um anseio. Essas coisas — a beleza, a recordação de nosso próprio passado — são boas imagens daquilo que realmente desejamos, mas, se forem confundidas com a coisa em si, tornam-se ídolos mudos, partindo o coração de seus adoradores. Elas não são a coisa em si; são apenas a fragrância de uma flor que nunca encontramos, o eco de uma melodia que nunca ouvimos, notícias de um país que nunca visitamos.'

*[Neste ponto, devemos lembrar que C.S. Lewis é o autor de "As Crônicas de Nárnia", por exemplo]*
'[...] Você acha que estou elaborando um encantamento mágico? Talvez esteja; lembre-se, porém, de seus contos de fada. Encantamentos são usados para quebrar a mágica, bem como para induzi-la, e você e eu temos necessidade do encantamento mais forte que se puder achar, a fim de despertar-nos da mágica maligna do mundanismo que está colocada sobre nós há quase cem anos. Quase todo o nosso sistema educacional tem sido direcionado no sentido de silenciar essa tímida e persistente voz interior; quase todas as nossas filosofias modernas têm sido idealizadas para nos convencer de que o bom ser humano pode ser encontrado neste mundo. No entanto, é uma coisa marcante perceber que essas filosofias do progresso ou da evolução criativa, elas mesmas, dão testemunho relutante da verdade de que nosso alvo real se encontra em outro lugar. Quando querem nos persuadir de que o mundo é o nosso lar, observe como eles realizam isso. Começam com a tentativa de convencê-lo de que a Terra pode ser transformada em Céu, abrandando assim a sua sensação de exílio no mundo em seu estado atual. A seguir, eles dizem a você que esse acontecimento feliz está ainda num futuro muito distante, confundindo assim o seu conhecimento de que a pátria não é aqui nem agora. Finalmente, com receio de que o transtemporal possa despertar e estragar todo o evento, eles usam qualquer tipo de retórica disponível para manter longe de seus pensamentos a lembrança de que, mesmo que toda a felicidade prometida pudesse chegar ao ser humano no mundo, ainda assim, cada geração iria perdê-la com a morte, inclusive a última geração, e toda a história se transformaria em nada, nem mesmo uma história, para todo sempre.'

'[...] As promessas das Escrituras podem ser resumidas, de modo geral, em cinco enunciados. É prometido a nós (1) que estaremos com Cristo; (2) que seremos como ele; (3) com imensa riqueza de imagens, que teremos “glória”; (4) que seremos, de alguma forma, alimentados ou saciados ou entretidos; e (5) que teremos uma espécie de posição oficial no universo — governando cidades, julgando anjos, sendo pilares no templo de Deus. A primeira pergunta que faço acerca dessas promessas é: “Por que precisaríamos de qualquer outra senão a primeira?” Poderá algo ser acrescentado à concepção de estar com Cristo? Pois deve ser verdade, como um velho escritor diz, que quem possui Deus e tudo mais não tem mais do que quem possui somente Deus. Acredito que, mais uma vez, a resposta está na natureza dos símbolos, pois, mesmo que se possa escapar de nossa percepção à primeira vista, ainda assim é verdadeiro que, qualquer concepção de estar com Cristo que a maioria de nós pode agora formar, não será muito menos simbólica do que as outras promessas. Essa concepção irá introduzir ideias de proximidade no espaço e de conversação agradável, como nós compreendemos a ideia de conversação no presente, e provavelmente concentrará na humanidade de Cristo com a exclusão de sua divindade. E, de fato, verificamos que aqueles cristãos que dão atenção somente a essa primeira promessa sempre a preenchem com imagens realmente bem terrenas — até mesmo com imagens nupciais... De forma alguma, eu viria a condenar tais imagens. Com sinceridade de coração, eu desejaria poder me aprofundar ainda mais nelas do que faço agora e oro para que ainda possa fazê-lo. Mas o meu argumento aqui é que também isso é apenas um símbolo, semelhante à realidade em alguns aspectos, porém diferente dela em outros sentidos, e, assim, necessita de correção dos diferentes símbolos nas outras promessas. A variação das promessas não significa que alguma outra coisa além de Deus será a nossa felicidade definitiva; mas porque Deus é mais do que uma Pessoa, e para que não imaginemos a alegria de sua presença em termos muito exclusivamente relacionados à nossa pobre experiência presente do amor pessoal, com todas as suas limitações e monotonia, são fornecidas diversas imagens que se corrigem e se equilibram umas às outras.'

'[...] Quando comecei a pesquisar sobre esse assunto, fiquei chocado em saber que cristãos tão diversos como Milton, Johnson e Tomás de Aquino consideravam a glória celestial muito abertamente como fama ou boa reputação, mas não a fama conferida por nossos semelhantes, criaturas humanas — e sim a fama com Deus, aprovação ou (poderia dizer) “apreciação” da parte de Deus. Foi então, quando pensei mais a respeito disso, que percebi que essa concepção seria bíblica; nada pode eliminar da parábola o elogio divino, “Muito bem, servo bom e fiel!”. Com isso, uma grande parte daquilo que tenho pensado toda minha vida desmoronou como um castelo de cartas. De repente, lembrei-me de que ninguém pode entrar no Céu senão como uma criança; e nada é mais óbvio numa criança — não numa criança envaidecida, mas numa boa criança — como o seu grande e não disfarçado prazer de ser elogiada e isso não se aplica apenas a uma criança, mas também a um cão ou a um cavalo. Aparentemente, aquilo que eu confundi com humildade durante todos esses anos me impediu de compreender o que é, na verdade, o prazer mais humilde, mais típico de crianças e das criaturas — sim, o prazer específico daquele que é inferior; o prazer do animal diante do ser humano, de uma criança diante de seu pai, de um estudante diante do professor, da criatura diante do Criador. Não, não estou esquecendo como o mais inocente dos desejos pode ser horrivelmente parodiado em nossas ambições humanas, ou como muito rapidamente, em minha própria experiência, o prazer lícito do elogio, daqueles a quem era meu dever agradar, torna-se o veneno mortal da autoadmiração. No entanto, pude detectar um momento — um momento muito, muito curto — antes de isso acontecer, durante o qual a satisfação de ter agradado a quem eu verdadeiramente amava e temia era pura. Isso é suficiente para elevar nossos pensamentos para aquilo que poderá acontecer quando a alma redimida, muito além de qualquer esperança e quase além do que se pode acreditar, por fim toma conhecimento de que agradou aquele a quem foi criada para agradar. Nessa hora, não haverá qualquer espaço para a soberba. A alma estará livre da infeliz ilusão da soberba. Sem nenhuma mancha daquilo que agora denominamos autoaprovação, a alma se regozijará da maneira mais inocente possível naquele propósito para o qual Deus a designou, e o momento que curará para sempre seu velho complexo de inferioridade também irá afogar seu orgulho mais profundamente do que o livro de Próspero [parece ser uma referência ao personagem da peça de Shakespeare: "A Tempestade"].'

'[...] A humildade perfeita não dá lugar para a modéstia. Se Deus estiver satisfeito com a obra, a obra pode ficar satisfeita consigo mesma... Posso imaginar alguém dizer que não gosta da minha ideia de Céu como um lugar em que recebemos “tapinhas nas costas”. Entretanto, um mal-entendido arrogante está por detrás desse desgosto. No fim, aquela Face que é o prazer ou o terror do universo deverá se voltar para cada um de nós, seja com uma expressão, seja com outra, conferindo glória inexprimível ou infligindo vergonha que jamais poderá ser curada ou disfarçada. Recentemente, li num periódico que o fundamental é como pensamos em Deus. Pelo amor de Deus, não, não é! Como Deus pensa em nós não apenas é mais importante, é infinitamente mais importante. Na verdade, como pensamos nele não tem importância senão na medida em que esse pensamento esteja relacionado à forma como ela pensa em nós. Está escrito que nós “devemos comparecer perante” ele, que apareceremos, que seremos examinados. A promessa da glória é a promessa, quase que incrível e somente possível pela obra de Cristo, de que alguns de nós, que qualquer um de nós que realmente escolher [na perspectiva dos 5 pontos (TULIP): escolher à partir da "graça irresistível", ou ser escolhido à partir da "eleição incondicional"], realmente sobreviverá a esse exame, e encontrará aprovação, isto é, agradará a Deus. Agradar a Deus (…) ser um ingrediente real da felicidade divina (…) ser amado por Deus, não apenas objeto de sua clemência, mas ser agradável a ele, como um artista tem prazer em sua obra ou um pai tem prazer em seu filho, parece ser algo impossível, um peso ou fardo de glória que nossos pensamentos dificilmente podem aguentar. Mas é assim.'

'[...] A glória, como o cristianismo me ensina a aguardar, acaba por satisfazer meu desejo original e, de fato, por revelar um elemento naquele desejo que eu não havia notado. Ao cessar de considerar, por um momento, as minhas próprias necessidades, comecei a entender melhor o que realmente preciso. Quando há pouco tentei descrever nossos anseios espirituais, omiti uma de suas mais curiosas características. Normalmente, percebemos isso somente no momento em que a visão se esvai, quando a música termina, ou quando a paisagem perde sua luz celestial. Aquilo que sentimos então foi bem descrito pelo poeta Keats como “a viagem de volta para o eu habitual”. Você sabe o que quero dizer. Por alguns minutos tivemos a ilusão de pertencer a esse mundo. Agora despertamos para descobrir que essa não é a realidade. Somos simplesmente espectadores. A beleza sorriu, mas não para nos receber; sua face se voltou em nossa direção, mas não para nos ver. Não fomos aceitos, recebidos ou convidados para dançar. Podemos sair quando desejarmos, podemos ficar se quisermos: “Ninguém nota nossa presença”. Um cientista poderá responder que, como a maior parte das coisas que chamamos de beleza é inanimada, não é de surpreender que não nos note. Claro que isso é verdade, mas não é dos objetos físicos que estou falando e, sim, daquela alguma coisa indescritível da qual se tornaram mensageiros por um momento. E parte do amargor que se mistura à doçura dessa mensagem se deve ao fato de que raramente parece ser uma mensagem dirigida a nós, mas algo que ouvimos casualmente. Por amargor quero dizer dor, não ressentimento. Nem deveríamos sugerir que fôssemos notados de alguma forma. Contudo, ansiamos por isso. A sensação de que somos tratados como estranhos neste universo, o anseio por sermos reconhecidos, de encontrar alguma resposta, de construir uma ponte entre o vazio que se escancara entre nós e a realidade, tudo isso faz parte de nosso segredo inconsolável. E, certamente, desse ponto de vista, a promessa da glória, no sentido descrito, se torna altamente relevante para o nosso profundo desejo, pois glória significa ter uma boa avaliação de Deus, ser aceito por Deus, obter reposta, reconhecimento e acolhimento no coração das coisas. A porta em que estivemos batendo por toda a nossa vida se abrirá afinal.'

'[...] Talvez pareça muito primitivo descrever a glória como o fato de ser “notado” por Deus, mas essa é quase a linguagem do Novo Testamento. O apóstolo Paulo promete àqueles que amam a Deus não que conhecerão a Deus, como seria de se esperar, mas que serão conhecidos por Deus (1Coríntios 8:3). É uma promessa estranha. Será que Deus não está ciente de todas as coisas o tempo todo? Entretanto, isso ecoa terrivelmente em outra passagem do Novo Testamento. Ali, somos advertidos de que isso poderá acontecer a qualquer um de nós, o momento de aparecer finalmente diante da face de Deus e ouvir apenas as palavras desesperadoras: “Nunca os conheci. Afastem-se de mim”. De certa forma, tão obscuro para o intelecto quanto insuportável para as emoções, poderemos ser banidos da presença daquele que está presente em todo lugar e eliminados do conhecimento daquele que a tudo conhece. Poderemos ser deixados total e absolutamente do lado de fora — repelidos, exilados, alienados e cabal e indescritivelmente ignorados. Por outro lado, podemos ser chamados, bem-vindos, recebidos, reconhecidos. Andamos todos os dias sobre o fio da navalha entre essas duas possibilidades incríveis. Aparentemente, então, a nostalgia que sentimos por toda a vida, nosso anseio por sermos reunidos à alguma coisa no universo da qual nos sentimos agora separados, por estar do lado de dentro de alguma porta que sempre avistamos pelo lado de fora, não é um capricho neurótico, mas o mais verdadeiro indicador de nossa situação. Ser, finalmente, convidado para entrar seria uma glória e honra além de todos os nossos méritos e, também, a cura para uma velha dor.'

'[...] E isso me leva para o outro sentido da glória — a glória como brilho, esplendor, luminosidade. Fomos feitos para brilhar como o Sol, para receber a Estrela da Manhã. Acredito que começo a ver o que isso significa. De certo modo é claro que Deus já nos deu a Estrela da Manhã: você pode sair e apreciar a dádiva nas melhores manhãs, se levantar da cama cedo. Você pode perguntar o que mais poderíamos pedir. Ah, mas queremos muito mais do que isso — alguma coisa a que os livros sobre estética dão pouca atenção. Contudo, os poetas e as mitologias conhecem tudo a respeito disso. Não desejamos meramente ver a beleza, embora, sabe Deus, mesmo isso já seria uma recompensa e tanto. Queremos algo mais que não pode ser posto em palavras — ser unidos à beleza que vemos, estar nela e recebê-la em nós mesmos, nos banhar nela, nos tornar uma parte dela. É por isso que povoamos o ar, a terra e a água com deuses e deusas, ninfas e elfos [Neste ponto, devemos nos lembrar novamente que C.S. Lewis é o autor de "As Crônicas de Nárnia"] — para que, embora não consigamos, ainda assim essas projeções possam apreciar em si mesmas aquela beleza, graça e poder de que a natureza é a imagem. É por isso que os poetas nos contam essas falsificações tão amáveis. Falam como se o vento oeste fosse de fato penetrar uma alma humana; mas não pode. Dizem a nós que “a beleza nascida de um som murmurante” vai adentrar um rosto humano; mas não irá. Pelo menos, não por ora, pois, se levarmos a sério o imaginário das Escrituras, se crermos que algum dia Deus nos dará a Estrela da Manhã e fará com que vistamos o esplendor do Sol, então poderemos especular que tanto os mitos antigos quanto a poesia moderna, tão falsos quanto a história, poderão estar muito perto da verdade na forma de profecia. No presente, estamos no lado de fora do mundo, do lado errado da porta. Discernimos o frescor e a pureza da manhã, mas ambos não nos tornam novos e puros. Não conseguimos nos envolver no esplendor que vemos, mas todas as páginas do Novo Testamento sussurram umas às outras o rumor de que as coisas não serão sempre assim. Um dia, permitindo Deus, nós entraremos. Quando as almas humanas se tornarem tão perfeitas em obediência voluntária, como é a criação inanimada em sua obediência sem vida, então essas almas vestirão sua glória, ou melhor, a glória maior da qual a natureza é somente um primeiro esboço, pois não estou propondo nenhuma fantasia pagã de ser absorvido na natureza. A natureza é mortal; iremos viver mais do que ela. Quando todos os sóis e nebulosas tiverem morrido, cada um de vocês ainda estará vivo. A natureza é apenas a imagem, o símbolo; mas é o símbolo que as Escrituras me convidam a usar. Somos convidados para transpor a natureza, para irmos além do esplendor que ela refletiu.'

'[...] Sendo assim, pode-se perguntar qual seria o uso prático dessas especulações [pensamentos sobre o céu, a glória] pelas quais estou me deixando levar. Posso imaginar pelo menos um uso prático. É possível que alguém pense exageradamente sobre sua potencial glória futura; dificilmente ele pensará muito frequentemente ou profundamente sobre a glória de seu próximo. O fardo, ou o peso, ou o ônus da glória de meu próximo deveria ser depositado sobre as minhas costas, um fardo tão pesado que somente a humildade é capaz de carregar, e o peso esmagará o orgulhoso. É coisa séria viver numa sociedade de possíveis deuses e deusas, e lembrar que a pessoa mais chata e desinteressante com quem você pode conversar poderá um dia ser uma criatura que, se você a visse agora, seria fortemente tentado a adorar [céu]; ou, então, um horror e uma corrupção tal qual você encontra agora, se for o caso, apenas num pesadelo [inferno]. O dia todo, em certo sentido, ajudamos uns aos outros a chegar a um desses dois destinos [céu ou inferno]. É à luz dessas possibilidades irrefutáveis, é com a reverência e a circunspecção que as caracterizam que deveríamos conduzir nossas interações uns com os outros, todas as amizades, todos os amores, toda a diversão, toda a política. Não existem pessoas comuns. Você nunca conversou com um mero mortal. Nações, culturas, artes, civilizações — essas coisas são mortais, e a vida dessas coisas é para nós como a vida de um mosquito. No entanto, é com os imortais que nós fazemos piadas, trabalhamos e casamos; são os imortais aqueles a quem esnobamos e exploramos — horrorosos imortais ou eternos esplendorosos. Isso não significa que devamos ter uma atitude solene o tempo todo. Devemos participar do jogo. Mas a nossa alegria deveria ser do tipo (e, de fato, é a mais alegre possível) que existe entre as pessoas que, desde o início, levam-se mutuamente a sério — sem leviandade, sem superioridade, sem presunção. Nossa caridade deve ser um amor real e custoso, com sentimento profundo pelos pecados, apesar dos quais amamos o pecador — não simplesmente tolerância, ou a indulgência que faz do amor uma paródia, como a leviandade parodia a alegria. Muito próximo dos elementos [pão e vinho] do sacramento da Ceia do Senhor, seu próximo é o elemento [carne e sangue] mais santo percebido pelos sentidos. Se seu próximo for cristão, ele será santo num sentido quase tão semelhante, pois nele Cristo também está vere latitat [do latim: "verdadeiramente escondido"] — o glorificador e o glorificado, o próprio Deus da Glória está verdadeiramente oculto.'


****** OBSERVAÇÃO IMPORTANTE: diante de várias declarações e especulações [como o próprio autor denomina no trecho logo acima] encontradas no ensaio "O peso da glória", é preciso considerar o imaginário de C.S. Lewis, que dentre diversas obras no gênero da ficção, escreveu a conhecida obra "Crônicas de Nárnia", e também era amigo pessoal de J.R.R. Tolkien, autor de "O Senhor dos Anéis", por exemplo. ******