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15 dezembro 2025

“Com plena entrega, sem recuo, sem pesar”

(também conhecido como Bill Borden)

[por rev. Joel E. Smit - Ministério Ligonier]
< da coleção "Biografias de Missionários" >

'A declaração muitas vezes citada de D.L. Moody, “O mundo ainda não viu o que Deus pode fazer com um homem totalmente consagrado”, soou verdadeira para um jovem que cresceu na igreja fundada por Moody. William Whiting Borden, um jovem pastor e missionário cuja vida foi tragicamente interrompida enquanto ele se preparava para ministrar entre os muçulmanos chineses com a China Inland Mission, era aquele “homem totalmente consagrado” dedicado a servir à causa de Cristo.

Ele nasceu em 1887, sendo o quarto filho de (Sr.) William e Mary Borden de Chicago. William Borden veio ao mundo em meio à opulência e riqueza. O negócio bem-sucedido e lucrativo de seu pai na indústria de mineração proporcionou à família um estilo de vida luxuoso, e William frequentou escolas particulares de prestígio em Chicago. Contudo, essa vida rica não impediu a família, ou William, de buscar aquilo “onde traça nem ferrugem corrói” (Mt 6:20). Eles frequentavam a Chicago Avenue Church, mais adiante conhecida como a Igreja Moody [The Moody Church], e desde muito jovem, William parecia ter um coração sensível para assuntos espirituais. Quando sua mãe pediu aos filhos que escrevessem o que queriam ser quando crescessem, William, de oito anos, escreveu: “Quero ser um homem honesto quando crescer; um homem verdadeiro, amoroso, gentil e fiel”.

Após terminar o ensino médio, Borden fez uma viagem de um ano ao redor do mundo. Essa jornada global pareceu estabelecer uma visão e direcionar sua vida para o evangelismo e as missões no mundo inteiro. Uma vez na faculdade, em pouco tempo se destacou como aluno em Yale, brilhando academicamente, no campo de futebol e nas amizades. No entanto, seus anos em uma das melhores universidades não foram desperdiçados em celebrações autossatisfatórias [egoístas]. Em vez disso, ele investiu no ministério e no serviço à sua faculdade, e à cidade de New Haven. 

Durante seu primeiro ano, Borden foi abordado sobre a possibilidade de iniciar uma missão na cidade como um ministério para os oprimidos [necessitados], o que também daria uma oportunidade para outros colegas de classe servirem fora dos muros de Yale. Ele estava mais do que ansioso para ajudar nessa missão, forneceu tanto o financiamento (equivalente a meio milhão de dólares na moeda atual), quanto a liderança administrativa para operar a missão. A Yale Hope Mission, como ficou conhecida, servia anualmente mais de dezessete mil refeições e fornecia mais de oito mil leitos noturnos, com mensagens do evangelho pregadas [pregação] diariamente a todos que eram ajudados. Borden fez tudo isso enquanto continuava sendo um dos melhores alunos de sua turma, e foi eleito presidente de sua fraternidade durante seu último ano.

Depois de Yale, ele frequentou o Seminário de Princeton em 1909 e teve aulas com professores conceituados, como J. Gresham Machen, B.B. Warfield e Geerhardus Vos. Mas mesmo no seminário, Borden não estava tão preocupado com seus estudos, a ponto de deixar de servir. Ele atuou como diretor do Instituto Bíblico Nacional na cidade de Nova York, cujo foco era equipar [instrumentalizar] homens e mulheres com uma sólida compreensão da Bíblia, teologia e habilidades práticas do ministério, como pregação diária ao ar livre, e quatro missões de resgate. Borden também atuou como administrador do Moody Bible Institute, o que exigia viagens frequentes de volta para casa, em Chicago. Seus estudos e ministério prático fizeram com que o Dr. C.R. Erdman, um de seus professores, comentasse sobre ele: “[William] se formou com honra em Yale e em Princeton; e foi considerado um dos homens mais bem treinados que já começou no campo estrangeiro”.

O campo missionário estrangeiro era o objetivo e foco de Borden, e para esse fim ele foi ordenado ao ministério do evangelho em um culto na Igreja Moody em 1912. Entretanto, antes de partir, Borden passou aquele outono viajando para diversas faculdades para falar aos alunos sobre a necessidade e a oportunidade de missões estrangeiras. Seu fervor e dedicação à obra do Senhor, além de ser chamado por muitos de “um missionário milionário”, atraiu muitos e deixou uma impressão duradoura, pois ele incentivava os alunos a considerarem, em espírito de oração, que função poderiam desempenhar na expansão do reino de Cristo ao redor do mundo. Como declarou um estudante da Universidade da Virgínia: “O aspecto mais útil e duradouro de sua visita foi a influência silenciosa e penetrante de sua personalidade e de uma vida consagrada à causa do Mestre”. Sua turnê por trinta e quatro escolas, em vários estados, em setenta e seis dias — sem a conveniência do transporte moderno — foi um feito logístico e inspirador.

Em 17 de dezembro de 1912, William Borden se despediu de amigos e familiares e embarcou em um navio que partiu do Porto de Nova York. Suas viagens o levaram ao Cairo, onde passou um ano estudando árabe e islamismo, e alugou um quarto modesto de uma família síria, para ter uma melhor imersão na cultura. Aonde quer que fosse, Borden levava consigo sua dedicação aos estudos, desejo de servir e profunda amizade com os cristãos armênios e coptas, bem como com os missionários americanos e britânicos. Como disse o diretor do centro de estudos sobre Borden: "Nunca vi um homem chegar ao Egito com os olhos mais abertos para ver o reino de Deus… Borden estava no Cairo havia duas semanas e organizou os alunos do seminário teológico para começar uma campanha de porta em porta com literatura cristã para toda a cidade de oitocentos mil habitantes".

Depois do Cairo, os planos de Borden eram passar um ano em Londres aprendendo medicina, para que pudesse ministrar às necessidades do corpo e da alma, no campo missionário. Porém, ele permaneceu no Cairo até o fim. Depois de apenas alguns meses no Egito, William Borden contraiu meningite (espinhal) e, apesar de ter lutado com coragem por mais de duas semanas, morreu aos 25 anos de idade, em 9 de abril de 1913, apenas quatro horas antes de sua mãe e irmã conseguirem chegar dos Estados Unidos. Ele foi enterrado no Cairo, enquanto inúmeras homenagens à sua inspiração e dedicação chegavam do mundo todo. Uma dessas homenagens expressou o pensamento de muitos: “William Borden viveu duas vidas em uma; pois ele fez mais em vinte e cinco anos do que muitos homens realizam em cinquenta”.

O sonho não realizado de William Borden de ministrar na China Inland Mission, entre os muçulmanos chineses, ficará para sempre oculto sob o véu do mistério divino, porém seu “dever de consagração” ["duty of consecration"], como disse um de seus professores do seminário, ainda brilha um século depois. Ao expressar seu comprometimento, Borden escreveu: “Com plena entrega e prontidão, eu me aproximo de todo o coração” [parecido com o lema de Joao Calvino], que se tornou o lema que guiou a vida de Borden. Mais adiante, seu biógrafo resumiu essa declaração com a frase amplamente lembrada que definiu a vida de William Borden: “Com plena entrega, sem recuo, sem pesar”. [nota #1] [nota #2]

A estrofe final de When I Survey the Wondrous Cross [Quando contemplo a maravilhosa cruz], de Isaac Watts, que foi o último hino cantado na ordenação de Borden, resume apropriadamente a vida e o coração deste jovem, que abandonou as riquezas deste mundo pelas riquezas de Cristo:

Se eu possuísse toda a criação,
Seria oferta de pouca expressão;
Amor tão incrível, tão profundo,
Exige meu ser, minha vida, meu tudo.'

______________________________
#Notas:

[nota #1] Ver "história apócrifa" ["apocryphal anecdote"] a respeito de: "Sem Reservas ou Sem Retenções" ["No Reserve"], "Sem Recuos ou Sem Retroceder" ["No Retreat"], "Sem Lamentações ou Sem Arrependimentos" ["No Regrets"].

[nota #2] Ver artigo publicado no devocional Nosso Pão Diário, em 31 de dezembro de 1988, intitulado "No Reserves - No Retreats - No Regrets": [tradução] "Em 1904, William Borden, herdeiro da Borden Dairy Estate, formou-se, como um milionário, em uma escola secundária de Chicago. Seus pais lhe deram de presente uma viagem ao redor do mundo. Viajar pela Ásia, Oriente Médio e Europa despertou em Borden uma profunda preocupação com os necessitados ao redor do mundo. Em uma carta para casa, ele escreveu: "Vou dedicar minha vida a me preparar para o campo missionário". Ao tomar essa decisão, escreveu duas palavras na contracapa de sua Bíblia: Sem Reservas. Recusando ofertas de emprego bem remuneradas após se formar na Universidade de Yale, acrescentou mais duas palavras à sua Bíblia: Sem Recuos. Concluindo seus estudos no Seminário de Princeton, Borden embarcou para a China para trabalhar com muçulmanos, fazendo uma parada no Egito para se preparar. Lá, foi acometido por meningite e faleceu em menos de um mês. Um desperdício, você diria! Não estava nos planos de Deus. Em sua Bíblia, abaixo das palavras Sem Reservas e Sem Recuos, ele havia escrito as palavras Sem Arrependimentos." 


06 abril 2025

Livro: "D.Martyn Lloyd-Jones: Cartas 1919 - 1981"

Trechos do livro "D.Martyn Lloyd-Jones: Cartas 1919 - 1981" (Seleção e Anotações por Iain H. Murray) [Editora PES - Publicações Evangélicas Selecionadas]:

*Trechos de DADOS BIOGRÁFICOS:
1899 - Nasce [David Martyn Lloyd-Jones] em Cardiff, Gales do Sul, em 20 de dezembro.
1916-21 - Estudante de Medicina no Hospital S. Bartolomeu.
1921 - Torna-se Assistente do Médico da Corte, Sir Thomas Horder.
1925-26 - Conflitos sobre o chamado para pregar.
1927 - Casa-se com Bethan Phillips, e se torna Ministro de Sandfields, Aberavon, Porto Talbot.
1938 - Depois de 11 anos de pastorado em Sandfields, torna-se assistente temporário do pr. G. Campbell Morgan, na Capela de Westminster, Londres.
1939 - A Segunda Guerra Mundial começa na véspera do dia em que M. Lloyd-Jones foi formalmente recebido como co-pastor da Capela de Westminster. Lloyd-Jones se torna presidente da Associação Inter-Varsity de Estudantes (Inter-Varsity Fellowship of Students).
1943 - O pr. Campbell Morgan se aposenta, e Lloyd-Jones assume o pastoreio da Capela de Westminster.
1945 - Inauguração da Biblioteca Evangélica de Londres, que tem M. Lloyd-Jones como apoiador.
1947 - M. Lloyd-Jones se torna presidente da Associação Internacional de Estudantes Evangélicos (International Fellowship of Evangelical Students - IFES).
1950 - Dá início à série sobre o Sermão do Monte.
1953 - Lloyd-Jones é atacado no Semanário Britânico (Br'itish Weekly) pela publicação do seu discurso à Associação Inter-Varsity: "Mantendo a Fé Evangélica Hoje".
1959 - "Estudos no Sermão do Monte" ("Studies in the Sermon on the Mount"), primeiro grande volume de sermões expositivos.
1968 - Após 3 décadas de ministério na Capela de Westminster, M. Lloyd-Jones se aposenta, com sua tricentésima septuagésima segunda (#372) exposição no livro de Romanos.
1969 - Última visita aos Estados Unidos [da América], com palestras sobre "Pregação", posteriormente publicadas em "Pregação e Pregadores" ("Preachers and Preaching").
1970 - Publicação do primeiro volume da sua série sobre "Romanos" ("Romans").
1971 - Última visita ao Continente, com discurso em favor da Comunidade Internacional de Estudantes Evangélicos (IFES): "Que é um Evangélico?".
1980 - M. Lloyd-Jones prega pela última vez, em junho.
1981 - Falece em Ealing, em primeiro de março.

*Trechos da INTRODUÇÃO [Iain H. Murray, Edimburgo, setembro de 1994]:
'Hoje o Dr. Lloyd-Jones é bem conhecido no mundo por seus livros e, todavia, o último papel em que ele jamais pensou para si foi o de escritor. Quando um artigo sobre a sua vida foi publicado em 1939, ele considerou esse fato com muito humor. Ele verdadeiramente pensava a seu respeito como "um mero pregador". Nunca usou uma máquina de escrever e escrevia muito pouco. Nenhum de seus trabalhos publicados veio à luz com esse fim em vista. Eles foram publicados como sermões ou palestras, e nunca teriam sido impressos, não fossem as transcrições taquigráficas e as gravações que sobreviveram, tornando isso possível. A comparação da data em que a mesma matéria [sermão/palestra] era proferida pela primeira vez, com a data da sua primeira impressão, quase sempre dez ou vinte anos mais tarde, torna isso muito claro. Pelo menos uma razão pela qual  ele nunca atendia ao pedido de uma autobiografia era que sentar-se para escrever estava fora dos seus hábitos a vida toda. Sabe-se que a sua dedicação era ao púlpito, acrescentando-se, porém, que ele sempre teve grande entusiasmo pelo recurso da palavra falada, seja na conversação pessoal ou pelo telefone. Ambos desempenharam importante papel em sua vida. Em contraparte, a caneta era seu último recurso. 
[...] O fato é que havia muitos fatores que constantemente anulavam a sua relutância em pegar a caneta. O primeiro era a sua intensa afeição por sua esposa e por sua família. Se ele ficava longe de Bethan por mais de um dia ou dois, ele sempre escrevia, e geralmente com alguma extensão. Ela era, em todos os sentidos, uma companheira em tudo o que ele fazia. Não obstante ser uma médica, ela alegremente dedicou sua vida a ajudá-lo na pregação e a cuidar do lar. A mãe dele também recebeu muitas cartas suas. Ele sempre mantinha contato com ela quando ela estava fora do seu lar em Londres, geralmente em sua amada Cardiganshire. Nessas ocasiões ele, em geral, escrevia a ela semanalmente. Desde os seus primeiros anos de vida, as suas filhas Elizabeth e Ann recebiam bilhetes dele quando ele estava fora, e quando elas se tornaram estudantes em Oxford, elas recebiam cartas praticamente cada semana. Isso continuou para Elizabeth, quando ela se casou em 1954, e se mudou para o norte da Inglaterra. Quarenta anos mais tarde, ela recorda como ficava esperando pela terça-feira, o dia em que sua carta chegava. Tenho muita esperança em que essas cartas, incluídas neste livro, revelem quanto todas essas relações familiares significavam para ele. Qualquer negligência de ministros e missionários, para com as suas famílias, ele considerava como uma falta contra o cristianismo bíblico.'
Um coração de pastor era outro fator que constantemente tornava a correspondência uma necessidade para ele. Como as páginas seguintes mostram, simpatia e interesse pelas pessoas, fossem quem fossem, transparecem em muitas de suas cartas. Ele estava sempre dando orientação e conselho, e creio que ele nunca deixou de atender a nenhum pedido dessa espécie. E, de nenhum modo, o seu aconselhamento era estereotipado. Quando ele [Lloyd-Jones] conhecia o indivíduo preocupado, a opinião que dava era sempre sabiamente relacionada com o seu agudo conhecimento da personalidade da pessoa. Ele sempre elogiava tão generosamente os pontos em que ele percebia força [no destinatário com quem estava se correspondendo] que constantemente dava às pessoas a certeza de que os seus problemas e dificuldades seriam superados.
[...] Ao longo desta coleção, [estão incluídos] extratos das quase setenta cartas que subsistiram daquelas que o Dr. Lloyd-Jones escreveu a [rev.] Philip Hughes. Conquanto não haja nenhuma coleção paralela da sua pena a ninguém mais, estas e outras que constam no presente volume [livro] são típicas das muitas que foram motivadas pelo zelo em ajudar colegas e animar os jovens. Em toda a Grã-Bretanha, e fora dela, havia homens no ministério cuja obra e constância se devia mais do que eles poderiam dizer à amizade que ele [Lloyd-Jones] lhes proporcionava. A maior parte do seu ministério, neste aspecto, era feito por meio de entrevistas pessoais e telefonemas, mas um bom número das cartas aqui impressas dá-nos uma permanente indicação da razão pela qual o seu aconselhamento significava tanto para muitos.
Na maioria, as cartas ora publicadas foram escritas à mão. Só em 1946 ele começou a fazer uso dos serviços de um secretário de tempo parcial. Aos poucos, daquela data em diante, ele passou a ditar as cartas; nunca as cartas para a família, e só de vez em quando para os amigos chegados. Não se pode deixar de admitir que, em termos de legibilidade, há um mundo de diferença entre as cartas que ele redigia e as que ele ditava! Não obstante, o seu punho era muito apreciado por seus correspondentes, entre outras coisas por causa do alto senso de realização pessoal por parte dos que dominavam, ou julgavam dominar, os seus manuscritos! Conta-se que a esposa de um ministro de Gales primeiramente tomou uma nota quase indecifrável, que lhe chegou pelo correio, como sendo um recado da lavanderia chinesa. Um exame mais cuidadoso revelou que vinha do Dr. Lloyd-Jones informando a hora em que ele ia chegar para cultos que seriam realizados celebrando um aniversário...
[...] Devo esclarecer que esta é apenas uma seleção representativa da correspondência ainda existente. Deliberadamente não utilizei todas as suas cartas já publicadas em sua biografia, todavia este volume [livro] ficaria muito empobrecido se algumas das mais importantes não fossem incluídas aqui. Ao fazer a seleção, procurei mostrar a amplitude dos seus interesses. Há, por exemplo, considerável contraste entre o conteúdo das cartas à sua mãe [que amava sua terra natal], com sua prosa sobre pessoas, lavouras, fazendas e cavalos, e as cartas enviadas a correspondentes que desejavam saber coisas como a sua opinião sobre [Karl] Barth ou [Reinhold] Niebuhr! Sempre se renova a impressão que me causa o quanto do seu caráter como cristão transparece de tantas maneiras incidentais nessas cartas. Em parte, é por essa razão que essas cartas são inalteráveis. Embora se pudesse tirar algumas sentenças sem nenhum prejuízo, preferi deixar isso ao juízo do leitor. As cartas, diversamente das biografias, prestam-se para a inclusão de coisas comuns, mas, em alguns aspectos, isso é vantagem para nós [leitores], pois, como diz Pascal: "Não se julga a virtude de um homem pelas grandes ocasiões, e sim, por sua vida comum".
Nos sermões e palestras do Dr. Lloyd-Jones, já publicados, vê-se uma prontidão à firmeza e, se necessário, a ficar sozinho pela verdade, à semelhança de [Martinho] Lutero. No entanto, aqui se vêem, de mil modos, indicações da atração exercida pela sua humanidade na vida diária, e especialmente da sua bondade e consideração para com os outros. Esta última característica chega a explicar porque tantas vezes ele conservou a amizade e a estima até daqueles dos quais divergia. O leitor verá, por exemplo, nestas páginas, uma carta em que fez críticas ao [...] professor Donald MacKay. Foi o próprio professor MacKay que nos forneceu essa carta, anexando-lhe o seu testemunho de quanto significava para ele o ministério de Martyn Lloyd-Jones.
[...] Há também nessas cartas a presença adicional de informações de considerável significado histórico. Nada teve maior impacto sobre mim [Iain H. Murray], quanto à diferença entre os dias do escritor [Martyn Lloyd-Jones] e os nosso dias, do que as referências aos cultos de meio de semana que ele dirigia em muitas partes da Grã-Bretanha. Tais cultos de meio de semana, frequentados por centenas, e às vezes, milhares de pessoas, desapareceram. Razões sociais podem explicar parcialmente a mudança, porém, fundamentalmente, a diferença está relacionada com um declínio do interesse pela pregação da Palavra de Deus. Foi-se uma era. Mas essas cartas nos fazem lembrar que quando Deus levanta um homem cujo coração está cheio de amor e cujos lábios foram tocados pelo fogo celestial, sempre haverá prontidão para ouvir...'

*Trecho da conclusão [Iain H. Murray], depois da última carta:
'Estas cartas de 11 de fevereiro [1981], acima, foram provavelmente as últimas que ele [D.M. Lloyd-Jones] ditou. Sua mente continuava perfeitamente lúcida, e ele nunca ficou confinado ao leito, mas já em 24 de fevereiro ele estava tão fraco que mal podia falar. Poucos dias depois, ficou sem fala. Com mão trêmula, ele escreveu num pedaço de papel para Bethan [esposa] e família: "Não orem pedindo cura. Não me retenham da glória". Por meio de sorrisos e gestos, ele pôde continuar a expressar-se, até que na manhã de domingo, dia primeiro de março de 1981, o dia raiou e todas as sombras se foram.
"Este é o meu conforto e consolação final neste mundo. A minha única esperança de chegar à glória está no fato de que a totalidade da minha salvação é obra de Deus." [Lloyd-Jones, "Santificados pela Verdade" ("Sanctified Through the Truth")]
"É graça no princípio, graça no fim. De modo que, quando eu e você estivermos em nossos leitos de morte, a única coisa que há de confortar-nos, ajudar-nos e fortalecer-nos é a que nos ajudou no princípio. Não o que fomos, não o que fizemos, mas a graça de Deus em Jesus Cristo, nosso Senhor. A vida cristã começa com a graça, deve continuar com a graça, e termina com a graça. Graça, maravilhosa graça. <Pela graça de Deus sou o que sou> <Todavia não eu, mas a graça de Deus, que estava comigo>." [Lloyd-Jones, "Depressão Espiritual, Suas Causas e Sua Cura" ("Spiritual Depression: its Causes and Cure")]'

Glória somente a Deus, por tudo, sempre!

11 janeiro 2024

MISSÕES: Robert Murray M'Cheyne

 

O texto abaixo são trechos do capítulo 4 do livro "A Vida de Robert Murray M'Cheyne: o jovem que viveu na presença de Deus", de Andrew A. Bonar:

"Eu [Andrew A. Bonar] também tinha sido escolhido para sair nesta missão de amor a Israel; mas algumas dificuldades me impediram de deixar meu cargo em Collace. Nessas circunstâncias, o sr. M'Cheyne me escreveu, em 12 de março [de 1839], de Edimburgo: 'Meu querido A. [Andrew A. Bonar], - Recebi tantos sinais de Deus para o bem neste assunto, que seria realmente uma vergonha se não confiasse nEle para aperfeiçoar tudo o que me diz respeito. Estou feliz por você ter decidido confiar tudo nas mãos do Deus de Israel. Estou pronto para ir esta semana, ou na próxima, mas estou profundamente ansioso para ter certeza de que você será enviado comigo. Você sabe, querido A., não poderia trabalhar nesta causa [viagem missionária a Israel], nem desfrutá-la, se você não estivesse comigo nela. Você estaria pronto para dar sua palestra judaica na noite da semana do Sabbath?... E agora, ore por nós, para que sejamos enviados por Deus; e, por mais fracos que sejamos, para que nos tornemos Boanerges, para que sejamos abençoados para ganhar algumas almas e estimular os cristãos a amarem Sião. Muito interesse já foi levantado, e procuro uma bênção. Fale com seu povo como se estivesse à beira da eternidade... Espero que saiamos no Espírito; e embora limitados na linguagem, podemos ser abençoados, como Brainerd [David Brainerd] foi, por meio de um intérprete, não é mesmo? Também podemos ser abençoados em salvar alguns ingleses e estimular missionários, certo? Minha saúde está apenas tolerável; estaria melhor se já estivéssemos longe. Muitas vezes fico tão perturbado que me faz querer ir ou ficar, morrer ou viver. No entanto, é encorajador ser usado no serviço do Senhor novamente, e de uma maneira tão interessante. E se virmos a Jerusalém celestial antes da terrena? Estou levando materiais de desenho para trazer lembranças do Monte das Oliveiras, do Tabor e do Mar da Galileia'."

"A notícia de sua ausência proposta alarmou seu rebanho em Dundee. Eles manifestaram seu cuidado por ele mais do que nunca; e não poucos escreveram cartas explicando-as. A um desses protestos bem-intencionados, ele [R.M.M'Cheyne] respondeu: 'Alegro-me muito pelo interesse que você tem por mim, não tanto por mim, mas porque espero que seja um sinal de que você conhece e ama o Senhor Jesus. A menos que o próprio Deus tivesse fechado a porta de retorno ao meu povo e aberto essa nova porta para mim, eu nunca poderia ter consentido em ir. Não estou de modo algum relutante em gastar e ser gasto no serviço de Deus, embora muitas vezes tenha descoberto que quanto mais abundantemente amo vocês, menos sou amado. Mas Deus me mostrou muito claramente que posso realizar um trabalho profundamente importante para seu antigo povo [Israel] e, ao mesmo tempo, estar na melhor maneira de buscar o retorno da saúde'."

"Nesta crise na história de seu povo [igreja em Dundee], ele buscou no Senhor alguém para suprir seu lugar - alguém que alimentasse o rebanho e reunisse os desgarrados durante a ausência de seu próprio pastor. O Senhor concedeu-lhe seu desejo enviando o Sr. William C. Burns, filho do ministro de Kilsyth. Em uma carta a ele, datada de 12 e março, ocorrem as seguintes palavras notáveis: 'Você é dado em resposta à oração; e esses dons são, creio eu, sempre abençoados sem exceção. Espero que você seja mil vezes mais abençoado entre eles [igreja em Dundee] do que eu jamais fui. Talvez existam muitas almas que nunca teriam sido salvas sob meu ministério, que podem ser tocadas pelo seu; e Deus tomou este método de trazer você para o meu lugar. O nome dele é Maravilhoso'."

"Em suas breves notas durante a primeira parte da viagem, ele [R.M.M'Cheyne] raramente deixou de marcar nossos momentos de oração conjunta, como aqueles na cabine do navio na passagem para Gênova; pois estes eram tempos de refrigério para seu espírito. E seus sentimentos, enquanto ele estava naquela cidade e inspecionava seus palácios, são expressos em algumas linhas, que enviou para casa do local. 'Uma terra estrangeira nos aproxima de Deus. Ele é o único que conhecemos aqui. Nós vamos a Ele como alguém que conhecemos; todo o resto é estranho. Cada passo que dou, e cada novo país que vejo, me faz sentir mais que não há nada real, nada verdadeiro, a não ser o que é eterno. O mundo inteiro jaz na maldade; seus julgamentos estão se apressando rapidamente. Os palácios de mármore, entre os quais estive vagando esta noite, em breve afundarão como uma pedra de moinho nas águas da justa ira de Deus; mas aquele que faz a vontade de Deus permanece para sempre'. Em Valetta, na ilha de Malta, ele escreveu: 'Meu coração palpita um pouco hoje, mas outra viagem me fará bem. Uma coisa eu sei, que estou nas mãos de meu Pai que está no céus, que é todo amor para mim - não pelo que sou em mim mesmo, mas pela beleza que Ele vê em Emanuel'. As costas clássicas da Itália e da Grécia são investidas de um interesse peculiar, que pode suscitar emoções profundas mesmo em uma alma santificada. 'Tentamos relembrar muitos dos estudos de nossa infância. Mas o que é o aprendizado clássico para nós agora? Considero todas as coisas como perda pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor [Filipenses 3:7-11]. E, no entanto, essas lembranças tingiram todos os objetos e nos proporcionaram um prazer mais legítimo'."

"Em casa e no exterior, ele [R.M.M'Cheyne] tinha um apetite insaciável pro toda a Palavra - tanto pelos tipos do Antigo Testamento quanto pelo texto simples do Novo... Ele agiu com base no princípio de que tudo o que Deus revelou deve merecer nosso estudo e investigação com espírito de oração."

"Ao Sr. Bonar de Lambert, ele [R.M.M'Cheyne] escreve: 'Não tinha ideia de que viajar no deserto era uma coisa tão terrível como é. A solidão que muitas vezes sentia me solenizou bastante. O sol escaldante lá do alto - dando voltas e mais voltas em um círculo de areia estéril, marcado apenas por alguns arbustos espinhosos (a erva, de que fala Jeremias), - sem chuva, nem uma nuvem, os poços muitas vezes como de Mara, e distantes entre si. Agora entendo bem as murmurações de Israel. Sinto que nossa jornada provou e testou muito meu próprio coração'."

"M'Cheyne declarou: 'Por grande parte de nossa segurança, sinto-me em dívida com as orações de meu povo, quero dizer, os cristãos entre eles, que não se esquecem de nós. Se o véu da maquinaria do mundo fosse retirado, quantas coisas encontraríamos que são feitas em resposta às orações dos filhos de Deus'."

"[R.M.M'Cheyne]: 'Use sua saúde enquanto a tem, meu querido amigo e irmão. Não jogue fora oportunidades peculiares que talvez nunca mais voltem. Você não sabe quando seu último domingo com seu povo pode vir. Fale para a eternidade. Acima de tudo, cultive seu próprio espírito. Uma palavra dita por você quando sua consciência está limpa e seu coração cheio do Espírito de Deus vale dez mil palavras ditas em incredulidade e pecado. Esta foi a minha grande falha no ministério. Lembre-se que é Deus, e não o homem, que deve ter a glória. Não é muito falar, mas muita fé, que é necessário. Não se esqueça de nós. Não se esqueça da reunião de sábado à noite, nem da ação de graças de segunda-feira de manhã'. Assim, escreveu durante o caminho para um colega de trabalho na Escócia."

"Muitas vezes nestes dias, quando nossos atendentes à noite estavam pregando as estacas de nossa tenda e esticando suas cordas, ele se deitava no chão sob alguma árvore que o abrigava do orvalho. Completamente exausto pelo longo dia de cavalgada, ficava quase sem fala por meia hora; e então, quando a palpitação de seu coração diminuía um pouco, propunha que nós dois orássemos juntos. Muitas vezes, também, ele me disse, quando esticado no chão, não com impaciência, mas com muita seriedade: 'Devo pregar novamente ao meu povo?'. Muitas vezes [Andrew A. Bonar] fui reprovado por [R.M.M'Cheyne] sua atenção inabalável à santidade pessoal; pois esse cuidado nunca estava ausente de sua mente, estivesse em casa em seu quarto tranquilo, no mar ou no deserto. A santidade nele foi manifesta, não por esforços para cumprir os deveres, mas de uma maneira tão natural que se reconhecia nele o leve fluir do Espírito que habita em nós. A fonte que jorrava para a vida eterna (João 4:14) em sua alma, jorrava suas águas vivas igualmente nas cenas familiares de sua Escócia natal tanto quanto sob as oliveiras da Palestina. A oração e a meditação na Palavra nunca foram esquecidas; e uma paz que o mundo não poderia dar guardou seu coração e sua mente. Quando fomos detidos um dia em Gaza, em circunstâncias muito tentadoras, sua observação foi: 'Jeová Jireh; estamos naquele monte novamente'. Era doce estar com ele a qualquer momento, pois tanto sua natureza quanto sua graça atraíam o coração; mas havia momentos de prazer nessas regiões da Palestina que puxavam cada corda ainda mais e criavam simpatias desconhecidas. Foi assim naquela noite em que escalamos juntos a colina de Sansão. Sentados ali, lemos as referências ao lugar na Palavra de Deus; e então ele pegou seu lápis e esboçou a cena, enquanto o sol estava se pondo no oeste. Feito isso, cantamos alguns versos de um salmo, apropriados ao local, fizemos uma oração e, descendo lentamente, conversamos sobre tudo o que vimos, e tudo o que nos foi trazido à mente pela paisagem ao nosso redor, até chegarmos à nossa tenda."

"Durante nossos dez dias em Jerusalém, havia poucos objetos ao nosso alcance que não procurávamos ansiosamente para visitar. 'Paramos na curva da estrada onde Jesus se aproximou, contemplou a cidade e chorou sobre ela. E se tivéssemos mais da mente que estava em Jesus, acho que deveríamos ter chorado também'. Esta foi sua [R.M.M'Cheyne] observação em uma carta para casa."

"E ao Sr. Bonar de Lamber ele [R.M.M'Cheyne] expressou seus sentimentos em relação ao Monte das Oliveiras e seus arredores: 'Lembro-me do dia em que o vi pela última vez, você disse que havia outras descobertas a serem feitas além das do mundo físico - que havia visões a serem vistas no mundo espiritual e profundezas a serem penetradas de importância muito maior. Muitas vezes pensei na verdade de sua observação. Mas se há um lugar na terra onde o cenário físico pode nos ajudar a descobrir coisas divinas, acho que é o Monte das Oliveiras. O Getsêmani sob seus pés leva sua alma a meditar no amor de Cristo e na determinação de sofrer a ira divina por nós. O cálice foi colocado diante Dele ali, e ali Ele disse: Não devo beber? O local onde Ele chorou faz você pensar em Sua compaixão divina, misturando-se com Sua ternura humana - Sua justiça terrível, que não pouparia a cidade, Seu amor sobre-humano, que chorou sobre sua miséria vindoura! Virando-se para o outro lado, e olhando para o sudeste, você vê Betânia [João 11:1 e 12:1], lembrando-lhe de Seu amor pelos seus - que Seu nome é amor - que em todas as nossas aflições Ele é afligido - que aqueles que estão em suas sepulturas um dia ressurgirão ao Seu comando. Um pouco mais abaixo você vê o Mar Morto, estendendo entre as montanhas as águas calmas e sombrias. Isso aprofunda e soleniza [torna solene] tudo, e faz você ir embora, dizendo: Como escaparemos nós, se negligenciarmos tão grande salvação?'."

"Ele [R.M.M'Cheyne] escreveu para outro amigo na Escócia, do Monte Sião, onde estávamos nos hospedando: 'Monte Sião, 12 de junho de 1839. MEU QUERIDO AMIGO, - Agora que estamos no lugar mais maravilhoso de todo este mundo - onde Jesus viveu e andou, orou e morreu, e voltará - não duvido que você esteja ansioso para ouvir como estamos. Sou grato por Ele ter nos dado o privilégio de vir a esta terra. Ontem ouvi falar do meu rebanho por uma carta de casa, a primeira que recebi, datada de 8 de maio... Estamos morando em uma das casas dos missionários no monte Sião. Minha janela dá para onde ficava o Templo, o belo Monte das Oliveiras se erguendo atrás. O Senhor que fez o céu e a terra, te abençoe desde Sião [Salmos 128:5]. - Seu' etc."

"Uma noite, depois de nossa visita a Sicar, ele [R.M.M'Cheyne] se referiu à Bíblia que eu [Andrew A. Bonar] havia deixado cair no Poço de Jacó. Estávamos então descansando de nossa jornada em nossas tendas. Logo depois ele escreveu em uma folha de seu caderno o seguinte fragmento:
Minha amada Bíblia, devo me separar de ti,
Companheira de minhas labutas por terra e mar;
Homem dos meus conselhos, calmante da angústia,
Guia dos meus passos através do deserto deste mundo!
Nas noites mais escuras, uma lanterna aos meus pés;
Em dias alegres, como gotas do doce mel.
Quando me separei da minha casa tranquila,
Sob teu comando, para o bem de Israel vaguear,
A tua suave voz disse 'Orai por Jerusalém,
Assim Jeová prosperará todo o teu caminho'.
Quando através do deserto solitário nos perdemos,
Suspirando em vão pela sombra refrescante das palmeiras,
Tuas palavras de conforto silenciaram cada medo crescente:
'A sombra da tua poderosa Rocha está próxima'.
E quando armamos nossas tendas nas colinas de Judá,
Ou pensativos meditamos ao lado dos riachos de Siloá;
Sempre que subíamos o Monte das Oliveiras, para contemplar
O mar, onde se erguia nos tempos antigos
A Sodoma atingida pelo céu -
Doce registro do passado, aos olhos alegres da fé,
Doce promessa de glórias ainda por surgir!
"

"De Safete ele [R.M.M'Cheyne] escreve: 'Eu sentei olhando para o lago esta manhã por cerca de uma hora. Estava bem aos nossos pés - a mesma água onde Jesus andou, onde chamou seus discípulos, onde repreendeu a tempestade, onde disse: "Filhos, tendes alguma comida?" depois que Ele ressuscitou dos mortos. Jesus ainda é o mesmo'. Para seu antigo e conhecido amigo, Sr. Somerville, ele [R.M.M'Cheyne] descreve a mesma visão: 'Ó, que vista do Mar da Galileia está diante de você, a seus pés! Está a mais de três horas de descida até a beira da água e, no entanto, parece que você pode descer em alguns minutos. O lago é muito maior do que eu imaginava. É cercado por montanhas por todos os lados, dormindo tão calmo e suavemente como se fosse o mar de vidro que João viu no céu. Tentamos em vão seguir o curso do Jordão que o atravessa. É verdade que havia linhas claras, como você vê no rastro de um navio, mas elas não passavam direto pelo lago. As colinas de Basã são muito altas e íngremes, onde deságuam no lago. A certa altura, um homem nos mostrou onde estão os túmulos nas rochas, onde os endemoniados costumavam viver; e perto dele as colinas eram exatamente o que as Escrituras descrevem, "um lugar íngreme", onde os porcos desciam para o mar. No nordeste do mar, o Hermom ergue-se muito grandioso, entrecortado por muitas ravinas cheias de neve'. O dia que passamos no lago - bem à beira da água - foi memorável; era tão peculiarmente doce! Sentimos um interesse indescritível até mesmo em levantar uma concha da praia de um mar por onde Jesus andou tantas vezes."

"Ele [R.M.M'Cheyne] mesmo falou de sua doença para seus amigos em casa: 'Deixei o pé do Líbano quando mal podia ver, ouvir, falar ou lembrar; Senti minhas faculdades irem, uma a uma, e tinha todos os motivos para esperar que logo estaria com meu Deus. É uma provação dolorosa estar sozinho e morrendo em uma terra estrangeira, e isso me fez sentir, de uma maneira que nunca conheci, a necessidade de ter uma fé não fingida em Jesus e em Deus. Sentimentos, emoções naturais, fantasias brilhantes de coisas divinas, não sustentarão a alma em tal hora. Há muita autoilusão em nossa estimativa de nós mesmos quando não somos provados, e no meio de amigos cristãos, cujos sentimentos calorosos dão um brilho aos nossos, que eles não possuem em si mesmos'. Mesmo assim, ele [R.M.M'Cheyne] tinha seu povo em seu coração."

"Ao seu gentil amigo médico, Dr. Gibson, em Dundee, ele [R.M.M'Cheyne] escreveu: 'Eu realmente acreditava que meu Mestre havia me chamado para casa, e que dormiria sob os ciprestes verde-escuros de Bouja até que o Senhor viesses, e aqueles que dormem em Jesus viessem com Ele; e minha oração mais fervorosa foi pelo meu querido rebanho, para que Deus lhes desse um pastor segundo o seu coração'."

"Mas ele [R.M.M'Cheyne] continuou, como Epafras, 'trabalhando fervorosamente em oração', e procurou diariamente preparar-se para um desempenho mais eficiente de seu cargo, caso o Senhor o restaurasse novamente. Ele enviou para casa esta mensagem a um cooperados: 'Não se esqueça de continuar a obra nos corações levados ao Salvador. Eu sinto que esta foi uma das minhas falhas no ministério. Nutrir bebês; confortar os crentes abatidos; aconselhar os perplexos; aperfeiçoar o que está faltando em sua fé. Prepare-os para provações dolorosas. Temo que a maioria dos cristãos não esteja preparada para os dias de escuridão' - (Sr. Moody Stuart)."

"Em Jassy, depois de um dia profundamente interessante, passado em conversa com judeus que vieram à estalagem, ele [R.M.M'Cheyne] disse: 'Eu me lembrarei dos rostos daqueles homens perante o trono de julgamento'. Quando chegou entre os judeus mais instruídos da Europa, regozijou-se ao descobrir que podiam conversar com ele em latim. Seu coração estava empenhado em fazer o que podia (Marcos 14:8), a tempo e fora de tempo. 'De uma coisa', escreve [R.M.M'Cheyne], 'estou profundamente convencido, de que Deus pode tornar a mais simples declaração do evangelho eficaz para salvar almas. Se apenas for o verdadeiro evangelho, as boas novas, a mensagem de que Deus amou o mundo e providenciou um resgate gratuito a todos, então Deus é capaz de ferir o coração e curá-lo também. Há um significado profundo nas palavras de Paulo: "Não me envergonho do evangelho de Cristo"'."

"Em uma carta de Berlim, M'Cheyne comentou: 'Nosso Pai celestial nos trouxe através de tantas provações e perigos que me sinto persuadido de que Ele ainda nos levará até o fim. Como João, cumpriremos nosso curso. "Não há doze horas no dia?" Não somos todos imortais até que nosso trabalho seja realizado?'. Sua força estava aumentando rapidamente; a viagem havia respondido aos fins previstos em grande medida, em sua restauração da saúde."