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04 dezembro 2019

Perfil dos prêmios Nobel em 100 anos (1901 a 2000)




Dos mais de 700 prêmios Nobel concedidos nas áreas de Física, Química, Medicina, Paz, Literatura e Economia, entre 1901 e 2000, 65,4% foram concedidos para cristãos.
Se for considerado que os 14.000.000 judeus (estimativa da época) representavam 0,02% da população mundial, então é significativo que eles tenham recebido 21,1% dos prêmios Nobel em todas as áreas do conhecimento. Resumindo, 1 em cada 5 ganhadores de prêmio Nobel são judeus.

Se forem somados, os judeus e os cristãos, que juntos creem no Deus Bíblico, representam 86,5% de todos os prêmios Nobel recebidos em todas as áreas, no período de 1901 a 2000.

A tabela detalhada de todas as áreas pode ser observada abaixo:


 A segunda edição do livro pode ser encontrada também neste link.

17 dezembro 2015

Institutas 35

“… Mas é falsa sua opinião de que a eleição só começa a ser eficaz quando abraçamos o Evangelho, e que daqui toma toda sua força e vigor. É verdade que, no que nos diz respeito, recebemos do Evangelho a certeza da mesma; porque, se tentássemos penetrar no decreto eterno e na ordenação de Deus, aquele profundo abismo nos tragaria. Mas, depois de que Deus nos manifestou e deu a entender que somos seus eleitos, é necessário que subamos mais alto, para que o efeito não sufoque sua causa. Porque que há de mais absurdo e (irrazoável) que, quando a Escritura nos ensina e afirma que Deus nos iluminou à medida que nos elegeu, esta claridade cegue de tal maneira nossos olhos que nos recusemos a olhar para nossa eleição?… Devemos, pois refrear esta temeridade com a sobriedade da fé, para que Deus nos seja testemunha suficiente de sua graça oculta, que nos revela em sua palavra; contanto que este canal, pelo que corre a água em grande abundância para que bebamos dela, não impeça que a verdadeira fonte tenha a honra que lhe é devida.”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XXIV, parágrafo 3)

10 dezembro 2015

Institutas 34

“… Como o tema da predestinação é de certa forma obscuro em si, a curiosidade dos homens o torna muito perigoso, porque o intelecto humano não se pode refrear, nem, por mais limites e termos que se lhe assinalem, deter-se para não se extraviar por caminhos proibidos e elevar-se com o afã, se lhe fosse possível, de não deixar segredo de Deus sem resolver e esquadrinhar… A primeira coisa é que se lembrem de que, quando querem saber os segredos da predestinação, penetram no santuário da sabedoria divina, no qual todo aquele que entra com ousadia não encontra como satisfazer sua curiosidade e mete-se num labirinto do qual não pode sair… Os segredos da sua vontade que determinou nos fossem comunicados, no-los manifestou em sua Palavra...”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XXI, parágrafo 1)

17 agosto 2015

Institutas 33

“… No que se refere à intercessão, vimos também que é ofício peculiar de Cristo e que nenhuma outra oração agrada a Deus senão aquela que esse Mediador santifica… Além disso, vê-se claramente que essa superstição ['a intercessão dos santos defuntos'] nasceu de uma certa incredulidade, porque ou não se deram por satisfeitos com que Cristo fosse o Mediador ou o despojaram por completo dessa honra...”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XX, parágrafo 27)

“… Quanto ao sacrifício de louvor e ação de graças, não se pode fazer interrupção alguma nele sem ofendermos gravemente a divina majestade, já que Deus nunca cessa de acumular sobre nós benefícios sobre benefícios, para obrigar-nos dessa maneira a permanecer submetidos a Ele por gratidão, por mais torpes e preguiçosos que sejamos. Por fim, é tão grande e admirável sua magnificência para conosco que não temos nada que não esteja coberto com ela; tantos e tão grandes são seus milagres que, para onde quer que olhemos, jamais falta motivo suficiente para glorificá-lo e dar-lhe graças...”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XX, parágrafo 28)

“… Mas, como o fim da oração, segundo expusemos antes, é elevar nosso espírito até Deus para bendizê-lo e pedir-lhe socorro, pode-se por isso compreender que o principal da oração radica no coração e no espírito; ou, melhor dizendo, que a oração propriamente não é senão esse afeto interno do coração que se manifesta diante de Deus, perscrutador de corações...”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XX, parágrafo 29)

“… Claro que se o canto [louvor na forma musical] se acomoda à gravidade [seriedade ou reverência] que se deve ter diante do trono de Deus e dos anjos, não somente é um ornamento que confere maior graça e dignidade aos mistérios que celebramos mas serve, além disso, para incitar os corações e inflamá-los em maior afeto e fervor para orar. No entanto, guardemo-nos muito de que nossos ouvidos estejam mais atentos à melodia do que nosso coração ao sentido espiritual das palavras...”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XX, parágrafo 32)

“… Platão, vendo a ignorância dos homens nas petições e súplicas que dirigiam a Deus, as quais muitas vezes não poderiam senão lhes causar grande dano, afirma que a mais perfeita maneira de orar é, segundo o formulou um poeta antigo, rogar a Deus que nos faça o bem, quer o peçamos ou não; e que afaste de nós o mal, mesmo quando nós o pedimos [Platão, Alcebíades II, 142E 143A].”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XX, parágrafo 34)

“[Calvino discorrendo sobre as petições da oração do 'Pai nosso', encontrada em: Mateus 6:9; Lucas 11:2]… E para dar-nos maior segurança de que, se somos cristãos, Ele é nosso Pai, não somente quis que o chamemos com esse nome mas também que o chamemos expressamente 'nosso', como se lhe disséssemos 'Pai, que és tão doce para com teus filhos e tão fácil em perdoar-lhes as faltas, nós, teus filhos, te chamamos e a ti dirigimos nossas súplicas, seguros e totalmente convencidos de que não há em ti mais afeto e vontade que os de um Pai, por mais indignos que sejamos de ti'. Mas como a pequenez de nosso coração não pode receber nem compreender tão infinito favor, Cristo nos serve de fiança e garantia de nossa adoção, e, além disso, dá seu Espírito como testemunho dessa adoção, pela qual nos é conferida a liberdade de invocá-lo: 'Abba, Pai!' (Gálatas 4:6). Assim, sempre que nossa preguiça e negligência nos opuserem dificuldades, lembremo-nos de suplicar-lhe que corrija a fraqueza que nos faz tímidos e nos dê como guia seu Espírito de magnanimidade, para que oremos a Ele ousadamente.”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XX, parágrafo 37)

“… Porque, assim como todo aquele que, deveras e de coração, ama o pai de uma família ama também a todos os que a integram, da mesma maneira nós, se amamos a nosso Pai celestial e desejamos servir-lhe, precisamos mostrar nosso afeto e amor a seu povo, a sua família e a suas posses, que Ele honrou e a que chama plenitude de seu Filho Unigênito (Efésios 1:23)...”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XX, parágrafo 38)

“[Calvino discorrendo sobre a quarta petição ('o pão nosso de cada dia dá-nos hoje') da oração do 'Pai nosso', encontrada em: Mateus 6:9; Lucas 11:2]… Por essa causa, somos mandados a pedir tão só o que se requer para satisfazer nossa necessidade durante a jornada, e com a confiança de que, tendo nosso Pai celestial nos mantido nesse dia, tampouco se esquecerá de nós no dia seguinte...”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XX, parágrafo 44)

“[Calvino discorrendo sobre a quinta petição ('e perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós temos perdoado aos nossos devedores') da oração do 'Pai nosso', encontrada em: Mateus 6:9; Lucas 11:2]… Finalmente, pedimos que essa remissão nos seja outorgada como nós perdoamos a nossos devedores, ou seja, como nós perdoamos todos aqueles que nos fizeram algum agravo ou injúria, seja de palavra ou de fato. Não que possamos perdoar a culpa do delito e da ofensa – pois isso compete só a Deus –, mas a remissão e perdão que temos de fazer consiste em arrancar voluntariamente de nosso coração toda ira, ódio e desejo de vingança, e esquecer em definitivo toda injúria e ofensa que nos tenham feito, sem guardar rancor contra ninguém...”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XX, parágrafo 45)

“[Calvino discorrendo sobre a sexta petição ('e não nos deixes cair em tentação; mas livra-nos do mal') da oração do 'Pai nosso', encontrada em: Mateus 6:9; Lucas 11:2]… As tentações são muitas e de diferentes tipos. Porque todos os maus pensamentos de nossa mente que nossa concupiscência suscita ou que o Demônio atiça, que nos induzem a transgredir a lei, são tentações; e as próprias coisas que em si não são más, no entanto, por arte e indústria de Satanás, convertem-se em tentações quando se nos põem diante dos olhos a fim de nos afastarem de Deus (Tiago 1:2,14; Mateus 4:1,3; 1Tessalonicenses 3:5). Destas últimas, umas estão à direita, outras à esquerda. À direita, as riquezas, o poder, a honra e outras semelhantes, que muitas vezes, sob a aparência de bem e majestade, cegam os olhos e enganam com seus ardis, para que, apanhados em tais astúcias e embriagados em sua doçura, esqueçam-se de Deus. À esquerda, coisas como a pobreza, a ignomínia, o desprezo, as aflições e outras desse tipo, com cuja aspereza e dificuldade se desalente, perca o ânimo e toda confiança e esperança, afastando-se finalmente por completo de Deus. Assim, pedimos nessa sexta petição a Deus, Nosso Pai, que não permita sermos vencidos pelas tentações que lutam contra nós, quer aquelas a que somos induzidos pela astúcia de Satanás; mas antes que, com sua mão, mantenha-nos e levante, para que, animados por seu esforço e virtude, possamos manter-nos firmes contra todos os assaltos de nosso maligno inimigo, sejam quais foram os pensamentos a que nos queira induzir. E também que transformemos em bem tudo aquilo que nos apresenta de uma parte ou de outra; quer dizer, que não nos ensoberbeçamos com a prosperidade, nem percamos o ânimo na adversidade. No entanto, não pedimos aqui que não sintamos tentação alguma, pois nos é muito necessário sermos estimulados por elas, para não dormirmos no ócio… Entendendo ao mesmo tempo que, se o Senhor está presente e combate por nós, faremos proezas sem nossas forças (Salmos 60:12)...”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XX, parágrafo 46)

“… Em suma, concluamos que esta [se referindo à oração do 'Pai nosso'] é a doutrina da sabedoria de Deus, que ensinou o que quis e quis o que foi necessário.”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XX, parágrafo 49)

“Se, tendo exercitado nossas almas para tal obediência [se referindo ao exercício da oração como 'uma espécie de disciplina e de aprendizagem de nossa fraqueza, com que se exercite e estimule o mais possível'], deixamo-nos reger pelas leis da providência divina, facilmente aprenderemos a perseverar na oração e, dominando nossos afetos com paciência, esperemos o Senhor, seguros de que, embora não se deixe ver, está no entanto sempre conosco e que, a seu tempo, mostrará que jamais esteve surdo a nossas orações, que aos homens pareciam ser rechaçadasPorque muitas vezes podemos ver nos salmos como Davi e os demais fiéis, quando já quase cansados de orar, como que houvessem falado ao vento e que Deus, a quem suplicavam, estivesse surdo, nem por isso deixaram de orar (Salmos 22:2)...”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XX, parágrafo 51)

“… 'E, se sabemos que ele nos ouve quanto ao que lhe pedimos, estamos certos de que obtemos os pedidos que lhe temos feito' (1 João 5:15). Embora pareçam supérfluas, essas palavra são, em realidade, uma declaração muito útil para advertir-nos de que Deus, mesmo quando não condescende conosco, dando-nos o que lhe pedimos, nem por isso nos deixa de ser propício e favorável, de maneira que nossa esperança, ao apoiar-se em sua Palavra, não será jamais confundida nem nos enganará. É tão necessário aos fiéis manter-se com essa paciência que, se não se apoiassem nela, não permaneceriam em pé. Porque o Senhor põe os seus à prova com experiências árduas; e não somente não os trata com delicadeza, mas muitas vezes até os põe em gravíssimos apertos e necessidades, e, assim abatidos, deixa-os afundar na lama por longo tempo, antes de dar-lhes certo o gosto de sua doçuraNo entanto, embora eles se apoiem na segurança da esperança que têm, apesar disso não deixam de orar; porque, se em nossa oração não há constância de perseverança, nossa oração nada vale.”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XX, parágrafo 52)

25 maio 2015

Institutas 32

“… Tampouco é minha intenção – segundo já disse – citar todos os textos concernentes a esse propósito [Oração], mas somente colher alguns dos mais notáveis, para que, por eles, experimentemos quão gentilmente o Senhor nos convida a si e quão estreitamente encerrada se encontra nossa ingratidão sem poder escapar, já que nossa preguiça é tanta que, estimulada por tais convites, ainda fica imóvel. Portanto, ressoem sempre  em nossos ouvidos estas palavras: 'Perto está o Senhor de todos os que o invocam, de todos os que o invocam de verdade' (Sl. 145:18)… Recebemos este fruto singular das promessas de Deus: que não fazemos nossas orações com dúvidas e de forma apática, mas confiados na Palavra daquele cuja majestade de outra maneira nos aterraria; ousamos chamá-lo Pai, uma vez que Ele tem por bem nos ordenar que o invoquemos com esse suavíssimo nome. Só resta que nós, convidados pro tais exortações, persuadamo-nos de que temos motivos de sobra para ser ouvidos, quando nossas orações não se fundamentam nem se apoiam em nenhum mérito nosso, mas toda sua dignidade e a esperança de alcançar o que pedimos descansam nas promessas de Deus e delas depende… somente tenhamos sinceridade de coração, desgosto de nós mesmos, humildade e fé, a fim de que nossa hipocrisia não profane com uma falsa invocação o nome de Deus...”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XX, parágrafo 14)

“… Dissemos que, ainda que a oração seja um colóquio familiar para Deus, os fiéis devem-se manter respeitosos e reverentes; não devem afrouxar as rédeas a qualquer desejo e pedir quanto se lhes ocorra, e não hão de desejar além do que Ele permite; assim, para não desprezar a majestade divina, devemos elevar ao alto nosso espírito, e, abandonando as p reocupações terrenas, honrá-lo pura e castamente. Com a integridade e a perfeição que se requer, isso não foi feito por ninguém de todos que já viveram neste mundo… E até Deus suporta nosso balbuciar e perdoa nossa ignorância e tolice quando algo se nos escapa involuntariamente; pois de fato não teríamos nenhuma liberdade para orar se Deus não condescendesse conosco…
… Ocorre-lhes o mesmo nas vezes em que seu espírito anda vagando de um lado a outro, e como que extraviado; é, pois, necessário que Deus também lhes perdoe isso, a fim de que suas orações – lânguidas, débeis e entrecortadas – não deixem de ser admitidas. Deus imprimiu naturalmente na mente dos homens o que as orações não são legítimas se nossa mente não está voltada para o alto. Daqui surgiu, como já dissemos, o gestual de alçar as mãos, que usado em todos os tempos e por todos os povos, perdura até o presente...”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XX, parágrafo 16)

*** Observação: O “selo” (marca) de João Calvino é representado pelo desenho de um coração na palma da mão, junto com as palavras “Eu ofereço meu coração a Ti, Senhor, pronta e sinceramente”.
(Ver história do “selo” em http://www.calvin.edu/about/history/calvin-seal.html)


“Como não há homem algum digno de apresentar-se diante de Deus, o próprio Pai celestial, para fazer-nos perder o receito e ao mesmo tempo o temor que poderia abater nosso ânimo, deu-nos seu Filho, Jesus Cristo Nosso Senhor, como Advogado e Mediador (1Tm. 2:5; 1Jo. 2:1), por cuja majestade e orientação podemos chegar ao Pai com segurança, apoiados na certeza de que coisa alguma pedida em nome do Filho nos seja negada, uma vez que o Pai nada lhe pode negar. E a isso se deve referir tudo quanto ensinamos sobre a fé até aqui. Porque, como a promessa nos mostra Jesus Cristo como nosso Mediador, se a esperança de alcançar o que pedimos não se fundamenta sobre Ele, priva-se do direito de orar. Pois, tão logo se nos apresenta a terrível majestade de Deus, não podemos senão nos aterrar, e o conhecimento de nossa própria indignidade nos rechaça muito longe, até que Jesus Cristo nos vem ao encontro para transformar o trono de glória aterradora em trono de graça, como o apóstolo nos exorta a aproximarmo-nos 'seguros e confiantes, do trono da graça, para alcançarmos misericórdia e encontrarmos a graça do socorro no momento oportuno' (Hb. 4:16)...”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XX, parágrafo 17)

“… E quando, em outro lugar, chama-o de único Mediador entre Deus e os homens (1Tm. 2:5), porventura não o faz tendo em conta as orações que pouco antes mencionara? Porque, depois de dizer que se deve orar a Deus por todos os homens, em seguida, para confirmar a sentença, acrescenta que há só um Deus e um só Mediador para dar o acesso a Ele por todos os homens. Não de outra forma o interpreta Agostinho quando diz: 'Os cristãos se encomendam a Deus em suas orações, rogando uns pelos outros; mas aquele por quem ninguém intercede, mas sim Ele por todos, esse é o único e verdadeiro Mediador. E o apóstolo Paulo, mesmo sendo um de seus principais membros – como era membro do corpo de Cristo e sabia que o Senhor Jesus, sumo e verdadeiro pontífice, entrara por toda a Igreja no íntimo do santuário de Deus, não em figura mas em realidade –, encomenda-se também às orações dos fiéis, e não se constitui a si mesmo mediador entre Deus e os homens, mas suplica que todos os membros do corpo de Cristo orem por ele, assim como o apóstolo ora por eles, uma vez que os membros devem preocupar-se uns com os outros e que, se um membro padece, os outros hão de padecer também com ele (Rm. 15:30; Ef. 6:19; Cl. 4:3; 1Co. 12:25). Assim, as orações de todos os membros que ainda militam na terra, e que fazem uns por outros, devem subir até a Cabeça, que lhes precedeu no céu, na qual temos a remissão dos pecados. Porque se Pedro fosse mediador, sem dúvida o seriam também os demais apóstolos; e se houvesse muitos mediadores, não estaria de acordo com o que o apóstolo diz, que há `um só Mediador entre Deus e os homens` (1Tm. 2:5), no qual nós também somos uma mesma coisa se procurarmos `guardar a unidade do Espírito no vínculo da paz` (Ef. 4:3)' [Agostinho, Contra epist. Parmeniani, II 8, 16. MSL 43,60]. De acordo com essa doutrina, ele mesmo diz sobre o salmo 94: 'Se tu buscas a teu sacerdote, está nos céus; ali ora por ti, Ele que na terra morreu por ti' [Agostinho, In. Ps., 94, 6 MSL 37, 1220s]...”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XX, parágrafo 20)

“No que diz respeito aos santos, que estão mortos segundo a carne e vivem em Cristo, se lhes atribuímos alguma oração, não deliremos que eles têm outro caminho de rezar a Deus que não seja Cristo, que é o único caminho; nem que suas preces sejam aceitas por Deus em nome de ninguém mais senão Cristo. Assim, pois, a Escritura nos afasta de todos os demais, para recorrermos somente a Cristo, porque o Pai celestial quer reunir nele todas as coisas. Seria uma grande tolice, para não dizer loucura, pretender ter acesso a Deus por intermédio dos santos, afastando-nos daquele sem o qual nem eles mesmos teriam acesso. E quem pode negar que isso se vem fazendo desde já muitos anos e que atualmente se pratica onde quer que vigore o papismo?… E se é chamada como testemunha a consciência daqueles que se apoiam na intercessão dos santos, veremos que isso vem unicamente de que estão perplexos, como se Cristo lhes fosse faltar ou fosse muito severo. Como semelhante perplexidade, desonram a Cristo e o despojam do título de único Mediador; honra que, por ter-lhe sido dada como prerrogativa, não se deve atribuir a ninguém mais além dele. Obscurecem assim a glória de seu nascimento, anulam sua cruz e o privam enfim da honra de tudo o que fez e padeceu; porque todas essas coisas tendem a que seja o único Mediador, e reconhecido como tal. Além disso, tampouco levam em conta a vontade de Deus, que lhes demonstra ser um Pai para eles. Porque Deus não é seu Pai se não reconhecem Cristo como irmão; o que claramente negam se não estimam que Cristo os ama com um amor fraterno e tão terno como não pode haver outro no mundo. Por isso a Escritura no-lo apresenta singularmente, a Ele nos envia e nele se detém, sem passar adiante. Diz Ambrósio: 'Ele é nossa boca, com a que falamos ao Pai; nossos olhos, com os que vemos o Pai; nossa mão direita, com a que oferecemos ao Pai; se Ele não intercedesse, nem nós, nem nenhum de quantos santos existem, teríamos acesso a Deus' [Ambrosius, De Isaac vel anima 8, 75 CSEL 32 I, 694,6]...”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XX, parágrafo 21)

06 abril 2015

Institutas 31

“... Em seguida, demonstraremos que o Senhor, voluntária e liberalmente, mostra-se a nós em Cristo, no qual nos oferece a felicidade, em vez da miséria, e todo tipo de riqueza, em vez de pobreza, no qual nos abre os tesouros do céu, a fim de que nossa fé olhe seu amado filho, para estarmos sempre pendentes dele e toda nossa esperança apoiar-se e descansar nele...”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XX, parágrafo 1)

“... Portanto, embora Deus vele e esteja atento para conservar-nos, mesmo quando estamos distraídos e não sentimos nossas misérias, e se bem que às vezes nos socorre sem que lhe roguemos, não obstante nos importa muito invocá-lo de contínuo... Por todas essas razões, nosso Pai clementíssimo, embora jamais durma nem esteja ocioso, contudo muitas vezes dá mostras de que é assim e de que não se preocupa com nada, para exercitar-nos desse modo em rogar-lhe, pedir-lhe e importuná-lo, porque vê que isso é muito conveniente para pôr remédio à nossa negligência e ao nosso descuido...
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XX, parágrafo 3)

“... é preciso que nosso fervor para orar se inflame e acenda em nós com as angústias e os pesares, como os vemos nos santos servos de Deus, os quais asseguram que se encontravam entre grandíssimos tormentos – quanto mais entre inquietudes! –, quando dizem que, desde o profundo do abismo, clamam ao Senhor (Salmos 130:1). Mas sim, creio ser necessário arrancar de nós todas as preocupações alheias, que podem desviar nossa atenção para outro lado e fazer descê-la do céu para arrastar-se pela terra. Assim, entendo que é preciso que a alma se eleve acima de si mesma; que não deve levar à presença de Deus nenhuma das coisas que nossa cega e louca razão costuma forjar; e que não deve mantê-la restrita nos limites de sua vaidade, mas que há de elevar-se a uma pureza digna de Deus.”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XX, parágrafo 4)

“Duas coisas são dignas de nota: que todo aquele que se prepara para orar deve aplicar a tal propósito todos os seus sentidos e o seu entendimento, e que não se distraia (como costuma acontecer) com pensamentos erráticos. Porque não há coisa mais contrária à reverência que devemos a Deus que a leviandade que procede da liberdade que tomamos para andar divagando... Porque não há ninguém tão concentrado na oração que não sinta como penetram em seu espírito numerosas fantasias, que interrompem o fio da oração ou a detêm com uma espécie de rodeio...”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XX, parágrafo 5)

“A outra lei deve ser que, ao orar, sempre sintamos verdadeiramente nossa pobreza e, pensando com seriedade que temos necessidade de tudo o que pedimos, acompanhemos nossas petições de um ardente afeto... E mais ainda: até aquelas coisas que pedimos somente para a glória de Deus e que não nos parecem, à primeira vista, dizer relação com nossas necessidades, não obstante é necessário que as peçamos com não menor fervor e veemência. Como quando pedimos que seu nome seja santificado, devemos, por assim dizer, ter fome e sede dessa santificação...”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XX, parágrafo 6)

“... Se alguém tem grande abundância de vinho e trigo, não poderá desfrutar de um só pedaço de pão se a bênção de Deus não continua sobre ele; nem seus grãos o dispensarão de pedir o pão de cada dia. Além disso, se considerarmos quantos são os perigos que nos ameaçam a cada momento, o próprio medo nos ensinará que não há instante em que não tenhamos grande necessidade de orar. Podemos conhecer isso muito melhor nas necessidades espirituais. Quando tantos pecados, de que nossa própria consciência nos acusa, permitirão estarmos ociosos, sem pedir perdão humildemente? Quando as tentações farão as pazes conosco, de sorte que não tenhamos necessidade de acolher-nos em Deus, buscando socorro? Ademais, o desejo de ver o reino de Deus prosperando e seu nome glorificado deve apoderar-se de nós de maneira tão intensa e contínua, não a intervalos, que tenhamos sempre presente a oportunidade e ocasião de orar. Por isso, não sem motivo, recomenda-nos a assiduidade na oração... Assim, a legítima oração requer penitência. Daí aquilo tão recorrente na Escritura: que Deus não ouve os malvados; que suas orações lhe são abomináveis, como também seus sacrifícios. Porque é justo que encontrem fechados os ouvidos de Deus aqueles que lhe fecham seu coração; e que aqueles que, com sua dureza e obstinação, provam o rigor de Deus, sintam-no inexorável... Por conseguinte, todo aquele que se dispuser a orar, que sinta desgosto por seus pecados e se revista da aparência e do sentimento de um mendicante; o que não pode acontecer sem penitência.”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XX, parágrafo 7)

“Acrescente-se ainda uma terceira regra: todo aquele que se apresenta diante de Deus para orar abdique de todo pensamento acerca de sua própria glória, abandone toda opinião da própria dignidade e, em consequência, arranque de si a autoconfiança, dando, em sua abjeção, toda a glória a Deus; para que não nos arroguemos alguma coisa, por pequena que seja, nem nos apresentemos diante da majestade divina com nossa soberba...”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XX, parágrafo 8)

“A quarta regra é que, assim prostrados e abatidos com verdadeira humildade, tenhamos contudo bom ânimo para orar, com a firme esperança de que seremos escutados. À primeira vista, parecem coisas bem contrárias unir com o sentimento da justa cólera de Deus, a confiança em seu favor; no entanto, ambas as coisas estão muito de acordo entre si se, oprimidos por nossos próprios vícios, somos levantados apenas pela bondade de Deus... Essa harmonia e conveniência entre o temor e a confiança, expõe-na Davi em poucas palavras: ‘Eu, pela abundância de tua bondade, entrarei em tua casa, adorarei em teu santo templo, em teu temor’ (Salmos 5:7)...”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XX, parágrafo 11)

“... Porque que tipo de oração seria esta: ó Senhor, eu certamente duvido se me quererás ouvir ou não; mas, como estou muito aflito, recorro a ti, para que, se for digno, me socorras? Nenhum dos santos, cujas orações lemos na Escritura, tinha esse hábito. Nem o Espírito Santo nos instruiu assim por intermédio do apóstolo, que ordena que nos aproximemos do trono celestial com confiança, para alcançarmos a graça (Hebreus 4:16)... E mais: o grande acúmulo de nossos pecados deve estar cheio de estímulos que nos incitem e nos obriguem a orar, como com seu próprio exemplo no-lo ensina o profeta, dizendo: ‘Cura minha alma, porque pequei contra ti’ (Salmos 41:4). Confesso que certamente as pontadas de tais aguilhões seriam mortais se Deus não nos socorresse. Mas nosso bom Pai, por sua incomparável indulgência, aplica a tempo o remédio com que, aquietando nossa perturbação, suavizando nossas opressões e tirando de nós o temor, com toda afabilidade nos atrai até Ele; eliminando ainda todos os escrúpulos e os obstáculos, para tornar-nos o caminho mais fácil.”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XX, parágrafo 12)

30 março 2015

Institutas 30

“2. A liberdade cristã, em meu entender, consta de três partes. A primeira é que a consciência dos fiéis, quando tratam de buscar confiança de sua justificação diante de Deus, levante-se por cima da Lei e esqueça-se de toda justiça legal. Porque como a Lei, conforme já provado, não deixa ninguém justo, ou devemos ser excluídos de toda esperança de ser justificados, ou é necessário nos vermos livres dela de tal maneira que não tenhamos nada que ver com nossas obras... Assim que, quando se trata de nossa justificação, é preciso, sem fazer menção alguma da Lei e abandonando toda ideia sobre as obras, abraçarmos somente a misericórdia de Deus, e, afastando os olhos de nós mesmos, olharmos somente a Jesus Cristo. Porque aqui não se pergunta de que maneira somos justos. O que se pergunta é de que maneira nós, sendo injustos e indignos, somos considerados justos. Bem, se nossa consciência quer ter alguma certeza acerca disso, não deve dar entrada nenhuma à Lei. Tampouco deve alguém deduzir daqui que a Lei seja supérflua e de nada sirva aos fiéis, pois ela não deixa de ensiná-los, exortá-los e incitá-los ao bem, ainda eu, no que se refere ao tribunal de Deus, não tenha lugar em sua consciência...
4. A outra parte da liberdade cristã, que depende da primeira, é que as consciências obedeçam à Lei não porque estão coagidas pela necessidade da Lei, mas porque, livres do jugo da Lei, obedeçam a Deus de boa vontade... Se olham para a Lei, veem que tudo o que tentam e pretendem fazer está maldito. E  ninguém pode se enganar pensando que sua obra, apesar de imperfeita, não é de todo má, e que, portanto, tudo o que há nela de bom é aceito por Deus, porque a Lei, ao exigir um amor perfeito, condena toda imperfeição, a menos que seu rigor seja de antemão mitigado. Que cada um, pois, considere suas obras, e verá que o que lhe parecia bom é transgressão da Lei, enquanto não é perfeito...
5. Eis aqui como todas as nossas obras estão sob a maldição da Lei quando examinadas ao modo da lei. Como as pobres almas sentir-se-iam alegremente dispostas às obras se acreditavam que não obteriam senão maldição? Pelo contrário, se, livres da severa disposição da Lei, ou antes liberadas de todo o rigor da Lei, ouvem que Deus as chama com suavidade e ternura paterna, respondem àquele que as chama com grande alegria e felicidade e o seguem aonde quer que Ele as leve. Em resumo: todos os que estão sob o jugo da Lei são semelhantes aos servos, aos quais seus amos cada dia lhes impõem tarefas que cumprir: eles não pensam haver feito nada nem se atrevem a comparecer diante de seus amos sem ter primeiro realizado plenamente a tarefa que lhes decretaram. Em contraposição, os filhos que são tratados mais benigna e liberalmente pelos pais não temem apresentar diante deles suas obras imperfeitas e incompletas, e até com algumas falhas, confiados que sua obediência e boa vontade serão agradáveis aos pais, ainda que não as tenham realizado com tanta perfeição quanto queriam... (Malaquias 3:17)...
7. A terceira parte da liberdade cristã é que, diante de Deus, não nos preocupemos com as coisas externas... diante de Deus, é-nos permitido realizá-las ou omiti-las indiferentemente. Decerto nos é muito necessário o conhecimento de tal liberdade, pois, de modo contrário, não conseguiremos tranquilidade de consciência nem terão fim nossas superstições... Se alguém começar a duvidar se é lícito usar linho em seus lenços, camisas, toalhas e guardanapos, depois não estará seguro nem sequer de poder usar cânhamo, e, no fim, começará até a duvidar de ser lícito usar estopa. E dará voltas ao redor de si, perguntando-se se pode cear sem guardanapos, ou não, se pode abrir mão das toalhas. Se alguém acha que parecerá ilícita uma ceia um pouco mais delicada, em breve não comerá tranquilo nem sequer pão preto ou alimentos vulgares, porque lhe virá à mente a ideia de que poderia sustentar seu corpo com alimentos ainda mais inferiores. Se hesitar quanto a um vinho mais fino, logo não beberá com a consciência tranquila nem aguapé, e finalmente não se atreverá a tocar nem a água que for mais doce e clara que outra. Em resumo: irá tão longe em sua loucura que terá por gravíssimo pecado passar por cima de uma palhinha atravessada, como se diz...”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XIX, parágrafos 2-7)

“Diz Paulo: ‘Eu sei que nada é impuro (e, por impuro, entenda-se profano) em si mesmo; uma coisa torna-se impura somente para quem a considera impura’ (Rm 14:14). Com estas palavras, coloca sob nossa liberdade todas as coisas exteriores, contanto que nossa consciência esteja segura dessa liberdade perante Deus...”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XIX, parágrafo 8)

A liberdade cristã, que deve ser considerada em todas as suas partes, é uma realidade espiritual cuja firmeza consiste totalmente em aquietar, perante Deus, as consciências atemorizadas, quer estejam inquietas e preocupadas pela remissão de seus pecados, quer estejam ansiosas para saber se as obras imperfeitas e repletas dos vícios da carne agradam a Deus, quer estejam atormentadas com respeito ao uso das coisas indiferentes...”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XIX, parágrafo 9)

“... ‘À liberdade fostes chamados; porém, não useis a liberdade de pretexto para servirdes à carne, mas servi-vos uns aos outros, por amor’ (Gl 5:13). E assim é, em verdade. Nossa liberdade não nos foi dada contra nossos próximos fracos, dois quais a caridade nos faz ser servidores; mas para que, tendo tranquilidade de consciência perante Deus, vivamos também em paz entre os homens.”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XIX, parágrafo 11)

“... ‘Tudo me é permitido, mas nem tudo me convém; tudo me é permitido, mas nem tudo edifica. Que ninguém busque seu próprio bem, mas o do outro’ (1Co 10:23-24). Não pode haver coisa mais clara que esta regra: que usemos de nossa liberdade se disso resultar proveito para o próximo; mas que nos abstenhamos dela se for prejudicial ao próximo... Portanto, é próprio de um homem pio pensar que lhe foi concedido o livre poder das coisas externas para que, assim, esteja mais preparado para realizar os deveres da caridade.”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XIX, parágrafo 12)

“... Pois a consciência é um meio entre Deus e o homem; porque o homem não é capaz de suprimir em si mesmo aquilo que sabe, mas isso o persegue até levá-lo ao arrependimento. É isto o que Paulo quer dizer quando afirma que a consciência dá testemunho aos homens, acusando ou defendendo seus raciocínios (Rm 2:15). Um simples conhecimento podia estar no homem como que sufocado. Por isso, o sentimento que coloca o homem perante o julgamento de Deus é como uma salvaguarda, concedida para surpreender e espiar todos os seus segredos, a fim de que nada fique oculto, mas que tudo venha à luz. Daí nasceu aquele antigo provérbio: a consciência é como mil testemunhas [Quintilianus, De institut. Orat. V 11, 41]...”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XIX, parágrafo 15)

04 fevereiro 2015

Institutas 29

“... Agostinho diz, em certa passagem: ‘Calem aqui os méritos humanos, que por Adão pereceram, e reine a graça de Deus por Jesus Cristo’ [Agostinho, De praedest. Sanct. 15, 31 MSL 44, 983]. E também: ‘Os santos não atribuem nada a seus méritos, mas atribuem tudo, ó Deus, à tua misericórdia!’ [Agostinho, In Ps. 139, 18 MSL 37, 1814]. E também: ‘Quando o homem vê que todo o bem que tem não o tem de si mesmo, mas de seu Deus, vê que tudo o que é louvado não vem de seus méritos, mas da misericórdia de Deus’ [Agostinho, In Ps. 84, 9 MSL 37, 1073]. Vemos que, depois de tirar do homem a faculdade de executar boas obras, rebaixa também a dignidade de seus méritos. Do mesmo modo Crisóstomo: ‘Todas as nossas obras, que seguem a gratuita vocação de Deus, são recompensa e dívida que lhe pagamos; mas os dons de Deus são graça, beneficência e grande liberalidade’ [Chrysostomus, In. Gen. Hom. 34, 6 opp IV 404 A]...”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XV, parágrafo 2)

... Portanto, só está bem fundamentado em Cristo quem sólida e firmemente tem nele sua justiça, uma vez que o apóstolo não diz que Cristo foi enviado para nos ajudar a alcançar justiça, mas para ser nossa justiça, a saber, segundo nos escolheu antes da fundação do mundo, não segundo nossos méritos, mas segundo o mero afeto de sua vontade (Ef. 1:4-5)... Mas isto não é tudo, pois, ao sermos admitidos a tal participação, ainda que em nós mesmos ainda sejamos insanos, ele é para nós sabedoria diante de Deus; ainda que sejamos pecadores, ele é justiça para nós; ainda que sejamos impuros, ele é pureza para nós; ainda que sejamos débeis e estejamos sem forças e inermes e não possamos resistir a Satanás, a potência que foi dada a Cristo no céu e na terra é nossa e, com ela, ele submete Satanás e faz saltar em pedaços as portas do inferno (Mt. 28:18; Rm. 16:20); ainda que levemos conosco um corpo sujeito à morte, ele nos é vida. Enfim, tudo que ele tem é nosso, e nele temos todas as coisas e em nós nenhuma...
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XV, parágrafo 5)

“... Porque nossa confiança, nossa glória e única âncora de nossa salvação é que Jesus Cristo Filho de Deus é nosso, e que também nós somos nele filhos de Deus e herdeiros do reino dos céus, chamados à esperança da bem-aventurança eterna; e isso não por nossa dignidade, mas pela benignidade de nosso Deus...”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XVII, parágrafo 1)

... Pois este [o homem], considerado segundo a própria natureza, não tem nada que possa mover a Deus por misericórdia; nada, senão sua miséria...
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XVII, parágrafo 4)

“... Tampouco discutirei com pertinácia com aquele que quiser atribuir aos santos o título de perfeição, contanto que a defina como o faz Agostinho: ‘... quando chamamos perfeita a virtude dos santos, para sua perfeição se requer o conhecimento de sua imperfeição, ou seja, que deveras e com humildade reconheçam quão imperfeitos são’ [Agostinho, Contra duas epist. Pelag. III 7, 19; MSL 44, 602; CSEL 60, 508, 12ss]...”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XVII, parágrafo 15)

... Primeiro, tenhamos como certo que o reino dos céus não é um estipêndio [salário] de servos, mas uma herança de filhos, na posse da qual entrarão somente aqueles a quem o Senhor tiver eleito como tais (Ef. 1:5-18); e isso não por outro motivo senão pela adoção...
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XVIII, parágrafo 2)

“... Em primeiro lugar, que cada um considere em seu interior quão duro e difícil é abandonar e renunciar não apenas a todas as nossas coisas, mas sobretudo a si mesmo. E, no entanto, é com essa primeira lição que Cristo inicia seus discípulos, quer dizer, todos os fiéis. Depois os mantém durante o curso de toda a vida sob a disciplina da cruz, a fim de que não se afeiçoem nem ponham seu coração na cobiça e na confiança dos bens presentes. Numa palavra, trata-os de tal forma que, para onde olharem, em toda a amplitude do mundo, não vejam senão desesperação. De tal maneira que Paulo diz: ‘Se é só para esta vida que pusemos a esperança em Cristo, somos os mais dignos de compaixão de todos os homens’ [1Co. 15:19]. E, a fim de que não esmoreçam com tais angústias, o Senhor os assiste e os adverte a levantarem a cabeça e olharem para cima, para que encontrem nele a bem-aventurança, que não veem neste mundo. Chama a essa bem-aventurança ‘prêmio’, ‘salário’ e ‘retribuição’, não estimando o mérito das obras, mas dando a entender ser uma compensação por suas opressões, sofrimentos e afrontas etc. Portanto, não há perigo algum em nós, a exemplo da Escritura, chamarmos à vida eterna ‘remuneração’, uma vez que o Senhor nela recebe os seus, que passam dos trabalhos ao repouso, da aflição à prosperidade, da tristeza à alegria, da pobreza  à abundância, da ignomínia à glória. Finalmente, que Ele transmuta todos os males que padeceram em bens muito maiores. Dessa maneira, não há inconveniente algum em pensar que a santidade de vida é o caminho; não que ela seja o que nos abre a porta para entrar na glória do reino dos céus, mas que por ela Deus encaminha e guia seus eleitos à manifestação dessa glória, pois seu beneplácito é glorificar aqueles a quem santificou (Rm. 8:30)... Não há coisa mais certa e clara que promete salário às boas obras; e isso não para encher nosso coração de vanglória, mas para ajudar a debilidade de nossa carne...”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XVIII, parágrafo 4)

“... Se é verdadeiro o que diz Cristo, ‘Onde está vosso tesouro, ali estará também vosso coração’ [Mt 6:21], de igual modo que os filhos deste século têm por costume empregar todo o seu entendimento em adquirir e amontoar as coisas que podem trazer-lhes os deleites da vida presente, assim também é preciso que os fiéis, vendo que esta vida há de passar como um sonho, transfiram as coisas das que deveras querem usufruir ao lugar onde hão de viver para sempre. Devemos, pois, imitar aqueles que desejam mudar-se para outro lugar, no qual determinaram estabelecer sua morada permanente. Estes enviam por diante toda sua fazenda e tudo o que possuem, e não lhes causa pena carecer disso durante algum tempo, pois se consideram tanto mais ditosos quanto maiores bens têm no lugar onde hão de passar toda a vida. Se acreditarmos que o céu é nossa terra, para lá devemos enviar todas as nossas riquezas, e não as reter aqui, onde teremos de deixá-las de uma hora para outra, quando partirmos. E como as transportaremos? Ajudando os pobres em suas necessidades, já que o Senhor tem em conta tudo quanto lhes for dado, como se fora dado a Ele mesmo (Mt. 25:40). Daí aquela bela promessa: ‘ao Senhor empresta quem dá ao pobre’ (Pv. 19:17). E: ‘Aquele que semeia com generosidade também com generosidade colherá’ (2Co. 9:6). Porque tudo aquilo que usamos por caridade com nossos irmãos fica depositado nas mãos do Senhor... podemos concluir deles senão a pura propensão à indulgência divina para conosco, uma vez que, para animar-nos a fazer o bem, o Senhor promete que nenhuma obra nossa será perdida, embora elas sejam, em essência, indignas de comparecer diante de sua presença.”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XVIII, parágrafo 6)

“... Logo, essa justiça de Deus refere-se mais à verdade de sua promessa que à equidade de pagar-nos o que nos é devido. Nesse sentido, há um trecho notável de Agostinho. Como este homem santo não duvidou em repeti-lo muitas vezes como algo memorável, eu, da mesma forma, não o julgo indigno de o repetirmos de memória muitas vezes. Diz: ‘Fiel é o Senhor, que se fez nosso devedor, não tirando coisa alguma de nós, mas nos prometendo tudo’ [Agostinho, In Ps. 32 enarr. II serm. 1,9 MSL 36, 284; In Ps. 109, 1 MSL 37, 1445; In Ps. 83, 16, ibid. col. 1068; Serm. 111, 5; 158, 2; 245, 5. 6 MSL 38, 641.836.1184].”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XVIII, parágrafo 7)

“... Porque nenhum de nós é capaz de guardar os mandamentos. E como, por isso, ficamos excluídos da justiça da Lei, é mister nos acolhermos em outro refúgio, a saber, na fé em Cristo. Por conseguinte, assim como o Senhor remete ao doutor da Lei à mesma Lei (Mt. 19:17), porque sabia que estava cheio de vã confiança nas obras, a fim de que por ela aprendesse a reconhecer-se como pecador e sujeito à eterna condenação, igualmente o Senhor, em outro lugar, consola com a promessa de sua graça sem fazer menção alguma da Lei aos que já estavam humilhados com semelhante conhecimento de si mesmos: ‘Vinde a mim todos os que estais cansados e sobrecarregados, e Eu vos farei descansar; e encontrareis descanso para vossas almas’ (Mt. 11:28-29).”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XVIII, parágrafo 9)

“... Os leitores me perdoarão se não me demoro em refutar tais tolices, mas digo que, sem ser atacadas, quebrar-se-ão pela própria debilidade. Parece-me correto, no entanto, responder a uma objeção que formulam [os opositores], a qual, por ter certa aparência de verdade, poderia suscitar algum escrúpulo nas pessoas simples...”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XVIII, parágrafo 10)

01 janeiro 2015

Institutas 28

“... Pois, da forma como fomos formados pela natureza, é mais fácil espremer azeite de uma pedra do que uma boa obra de nós... Confessemos, pois, junto com este excelente instrumento de Deus, Paulo, que o Senhor ‘nos chamou  com um chamamento santo, não em atenção a nossas obras, mas segundo o seu propósito e a sua graça’ (2 Tm 1:9)...”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XIV, parágrafo 5)

“... Moisés escreve que ‘O Senhor olhou com agrado a Abel e a sua oferenda’ (Gn 4:4). Vês como demonstra que o Senhor foi propício aos homens antes de olhar as obras deles? Por essa razão, é preciso que a purificação do coração venha antes, para Deus receber com amor as obras que procedem de nós...”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XIV, parágrafo 8)

“... No entanto, mesmo quando, guiados pelo Espírito Santo e esquecidos de nós mesmos, caminhamos pelas veredas do Senhor, permanecem em nós certos resquícios de imperfeição, que nos dão ocasião para nos humilharmos. Não há justo, diz a Escritura, que faça o bem e não peque (1 Rs 8:46). Que justiça, pois terão os fiéis por suas obras? Em primeiro lugar, afirmo que a obra mais excelente que possam propor está manchada e corrompida com alguma sujidade da carne, como se estivesse misturada com fezes...”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XIV, parágrafo 9)

“... Porque é necessário que a justiça de Cristo (a única justiça perfeita e, portanto, a única que pode comparecer livremente perante a presença divina) apresente-se em nosso lugar e compareça em juízo à maneira de fiador nosso. Ao sermos revestidos de tal justiça, conseguimos um perdão contínuo dos pecados, pela fé. Ao sermos cobertos com sua limpeza, nossas faltas e a sujeira de nossas imperfeições não nos são já imputadas, mas ficam como que sepultadas, para que não apareçam perante o juízo de Deus até que chegue a hora em que, totalmente destruído e morto em nós o homem velho, a bondade divina nos leve com Cristo, o novo Adão, a uma paz bem-aventurada, onde esperar o Dia do Senhor, no qual, depois de receber nosso corpo incorruptível, sejamos transportados à glória celestial.”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XIV, parágrafo 12)

“Duas são as pestes que mais devem ser arrancadas de nosso espírito: uma, que ponham a confiança da justiça em nossas obras; outra, que lhes atribuam glória. A cada passo, a Escritura nos priva de toda confiança em nossas justiças, ao dizer que todas elas fedem perante Deus, a menos que tirem seu bom odor da inocência de Cristo; de nada são capazes, senão de provocar o castigo de Deus, a menos que se apoiem em sua misericórdia...”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XIV, parágrafo 16)

“Mas, se observarmos os quatro gêneros de causas que os filósofos consideram primeiro no efeito das coisas, não encontraremos nenhum que convenha à constituição de nossa salvação. Porque a Escritura ensina que a causa eficiente de nossa salvação está na misericórdia do Pai celestial e no amor gratuito que nos professa. Como causa material dela, propõe-nos Cristo com sua obediência, pela qual nos adquiriu a justiça. E qual diremos que é a causa formal ou instrumental, senão a fé?... Quanto à causa final, o apóstolo afirma que é mostrar a justiça divina e glorificar a bondade do Senhor (Rm 3:23)... Ao ver, pois, que todos os elementos da nossa salvação estão foram de nós, como confiaremos em nossas obras e delas nos orgulharemos?...”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XIV, parágrafo 17)

“... Agostinho diz o mesmo, em poucas mas admiráveis palavras, quando afirma: ‘Eu não digo ao Senhor: não desprezes as obras de minhas mãos. Eu busquei ao Senhor com minhas mãos e não fui enganado. O que digo é: eu não louvo as obras de minhas mãos, porque temo que quando Tu, Senhor, as tiver olhado, aches muitos mais pecados que méritos. O que digo é somente isto: isto é o que rogo; isto é o que desejo: que não desprezes as obras de tuas mãos. Olha em mim, Senhor, a tua obra, não a minha. Porque se olhares minha obra, Tu a condenarás; mas se olhares a tua, Tu a coroarás. Porque todas as boas obras que tenho são tuas, de ti procedem’ [Agostinho, In Ps. 137, 18 MSL 37, 1783s]. Ele coloca duas razões por que não se atreve a valorizar suas obras diante de Deus: porque, se tem algumas obras boas, não vê nelas nada que seja seu; e porque mesmo o que há de bom está como que enterrado pelo grande número de seus pecados. Daí que sua consciência sinta muito maior temor e consternação do que segurança. Por conseguinte, não quer que Deus olhe as obras que fez corretamente, mas que, reconhecendo nelas a graça de sua vocação, aperfeiçoe a obra que começou.”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XIV, parágrafo 20)

“... que a origem e o efeito de nossa salvação consistem no amor do Pai celestial; que a matéria, na obediência do Filho; que o instrumento, na iluminação do Espírito, ou seja, na fé; e, ao fim, que seja glorificada a grande bondade de Deus...”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XIV, parágrafo 21)


03 novembro 2014

Institutas 27

“... Convençamo-nos de que Ele é o nosso juiz, não como nosso intelecto o imagina segundo sua conveniência, mas como no-lo descreve a Escritura: com tal fulgor que as estrelas se obscurecem; com tal poder que os montes se derretem; com tal ira que a terra é sacudida; com tal sabedoria que os prudentes são apanhados em sua astúcia; com tal pureza que faz tudo parecer imundo; com tal justiça que nem mesmo os anjos a podem sofrer; que não torna o culpado inocente; e cuja vingança, uma vez despertada, penetra até no mais profundo do inferno. Sentar-se-á, digo, para examinar os feitos dos homens; quem comparecerá diante de seu trono com segurança? ‘Quem morará com o fogo consumidor?’, como diz o profeta. Quem de nós habitará com as chamas eternas? ‘Aquele que caminha na justiça e fala a verdade’ (Is 33:14) etc. Este, seja quem for, apresentar-se-á. Mas essa resposta faz que ninguém se apresente. Porque, por outro lado soa uma vez: ‘Se observares, Senhor, os pecados, quem poderá, ó Senhor, subsistir?’ (Sl 130:3). Certamente pereceríamos todos de imediato...”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XII, parágrafo 1)

“... Assim, Agostinho diz: ‘Uma é a esperança de todos os fiéis que gemem sob o peso desta carne corruptível e da instabilidade desta vida: que tenhamos um Mediador justo, Jesus Cristo; e que só ele é a satisfação por nossos pecados’ [Aug.; Contra duas epist. Pelag. Ad Bonif. III 5, 15 MSL 44, 599; CSEL 60, 504, 12ss]...”
... E Bernardo [de Claraval]: ‘Onde há, deveras, repouso e segurança certos e firmes para os enfermos, senão nas chagas do Salvador? Eu habito ali, tanto mais seguro quanto mais poderoso ele é para salvar-me. O mundo grita, o corpo me oprime, o Diabo se insinua. Eu não caio, porque estou apoiado sobre uma pedra firme. Cometi um grave pecado. Minha consciência se conturba, mas não será perturbada, porque me lembrarei das chagas do Senhor’ [Bernardus, In cant. Serm. 61, 3 MSL 183, 1072 AB]... E em outro lugar: ‘Este é todo o mérito do homem: pôr toda a sua esperança naquele que salva a todo homem’ [Bernardus, In psalmum ‘Qui habitat’ sermo 15, 5 MSL 183, 246 B]. E, em outro lugar, retendo para si a paz, deixa a glória para Deus: ‘Para Ti seja toda a glória; para mim estará bem se tiver a paz. Renuncio totalmente à glória; para que não ocorra de, usurpando o que não é meu, perder também o que se me oferece’ [Bernardus, In cant. Sermo 13, 4 MSL 183, 836 B]. ”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XII, parágrafo 3)

“... As consciências exercitadas no temor de Deus sentem que esse é o único refúgio de salvação em que podem respirar com segurança, quando têm de haver-se com o juízo de Deus. Pois se as estrelas, que de noite parecem iluminadíssimas, perdem seu esplendor ao sair o sol, que pensamos haverá de ser da inocência mais rara do homem quando comparada com a pureza de Deus? Pois aquele exame será mais que rigoroso e penetrará até os mais secretos pensamentos do coração; e, como diz Paulo, ‘revelará o que estiver oculto nas trevas e manifestará as intenções dos corações’ (1 Co 4:5).”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XII, parágrafo 4)

“... a humildade é uma submissão não fingida, que procede de uma alma consternada pelo real sentimento de sua miséria e pobreza. Pois assim é descrita sempre na palavra de Deus. Em Sofonias, quando o Senhor fala assim: ‘Exterminarei de meio de ti aqueles que se entretêm em sua soberba e deixarei em teu meio um povo aflito e pobre, e eles esperarão no Senhor’ (Sf 3:11-12), acaso não mostra claramente quem são os humildes?”
“... Todas as vezes que ouvires a palavra ‘contrição’, entende uma chaga do coração que não permite ao homem prostrado na terra levantar-se. É preciso que teu coração seja ferido com essa contrição se quiseres ser exaltado com os humildes, conforme a sentença de Deus. Se não for assim, será humilhado pela mão poderosa de Deus, para tua vergonha e desonra.”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XII, parágrafo 6)

“... Pois muitos pecadores que, inebriados com a doçura dos vícios, não pensam no julgamento de Deus, jazem adormecidos, como num torpor, e não aspiram à misericórdia que lhes foi oferecida. Mas tal torpor deve ser afastado, não menos do que deve ser abandonada a confiança em nós mesmos, qualquer que seja, para, desimpedidos, apressarmo-nos em direção a Cristo, para, vazios e estéreis, sermos preenchidos por seus bens. Porque nunca confiaremos nele tanto quanto devemos, a menos que desconfiemos inteiramente de nós mesmos. Nunca alcançaremos o espírito até ele suficientemente, a menos que antes nos rebaixemos; nunca nos consolaremos nele suficientemente, a menos que nos desconsolemos em nós mesmos. Logo, somente estaremos dispostos a aceitar e alcançar a graça quando, tendo lançado fora a confiança em nós mesmos, mas apoiados somente na certeza de sua bondade e, como diz Agostinho, esquecidos de nossos méritos, abraçarmos os dons de Cristo. Porque se ele procurasse méritos em nós, não chegaríamos a seus dons. A isso Bernardo [de Claraval] responde prontamente quando compara os soberbos, que atribuem tudo a seus méritos, a servos desleais, porque retém para si, de modo indevido, o louvor da graça, que apenas passa por eles, como se uma parede dissesse ser a causa do raio de sol que recebe através da janela. Para não nos demorarmos mais nisso, basta reter esta regra, breve mas geral e certa: aquele que se esvaziou por completo, não digo de sua justiça, que é nula, mas da vã e inconstante imagem, este está preparado para participar dos frutos da misericórdia de Deus. Porque tanto maior impedimento coloca o homem à beneficência de Deus quanto mais se compraz em si mesmo.”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XII, parágrafo 8)

“... porque, enquanto o homem tem algo que dizer em sua defesa, a glória de Deus de certa forma diminui.”
“... Se estas coisas estão contidas no verdadeiro conhecimento de Deus, para que, abatidos pela consciência da própria iniquidade, entendamos que Ele nos faz o bem de que somos indignos. Para que tentamos, para nosso grande mal, roubar ao Senhor uma pequena porção do louvor dessa gratuita liberalidade? Da mesma forma Jeremias, quando clama ‘Não se orgulhe o sábio em sua sabedoria, nem o rico em suas riquezas, nem o valente em sua valentia; mas quem se orgulha, orgulhe-se no Senhor’ (Jr 9:23-24), acaso não demonstra que de certa forma a glória de Deus decai se o homem se orgulhar em si mesmo?”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XIII, parágrafo 1)

“... Por isso, convém depositar aqui toda nossa esperança e cravá-la bem fundo, por assim dizer; não olhar para nossas obras, nem pedir socorro algum por causa delas. Assim já Agostinho prescreve que o façamos, para que não penses dizermos aqui algo de novo. Diz: ‘Cristo reinará em seus servos para sempre. Deus prometeu isso; Deus disse isso; e se isso é pouco, Deus o jurou. Logo, porque a promessa dele é firme, não segundo nossos méritos, mas segundo sua misericórdia, ninguém deve anunciar com temor aquilo de que não pode duvidar’ [Aug., In Psalm. 88. Enarrat. I, 5 MSL 37, 1123].”
“... Resumindo: a Escritura demonstra que as promessas de Deus não são firmes se não são admitidas com plena confiança; onde quer que exista dúvida ou incerteza, anuncia que são vãs.”
“... Daqui vem também Cristo ser chamado ou ‘Rei da Paz’ (Is 9:6) [ou ‘Príncipe da Paz’, na versão Almeida Revista e Atualizada - ARA] ou ‘Nossa Paz’ (Ef 2:14); porque ele acalma todas as agitações da nossa consciência. Se se pergunta como, é necessário recorrer ao sacrifício com o qual Deus foi aplacado. Porque ninguém poderá deixar nunca de tremer se não souber que Deus só se torna propício pela expiação com a qual Cristo suportou sua ira. Em nenhum outro lugar, enfim, devemos procurar nossa paz, senão nos terrores de Cristo, nosso Redentor.
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XIII, parágrafo 4)

“... ‘Quem nos separará do amor de Deus, que está em Cristo?’ (Rm 8:35). Porque, enquanto não tivermos chegado a esse porto, tremeremos ao menor sopro de vento; mas estaremos seguros mesmo ‘no vale de sombras da morte’, enquanto Deus se mostrar para nós como pastor (Sl 23:4).”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XIII, parágrafo 5)

04 agosto 2014

Institutas 26

“... Pois, se é preciso viver, é preciso também que nos sirvamos dos meios necessários para isso. E não podemos evitar aquelas coisas que parecem sujeitas mais ao prazer que à necessidade. Logo, é preciso que tenhamos uma medida, a fim de usar tais coisas com a consciência limpa, seja por necessidade, seja por prazer. A medida, no-la prescreve o Senhor com sua Palavra, quando ensina que a vida presente é uma espécie de peregrinação para os seus, por meio da qual se encaminham ao reino celestial. Se é preciso ao menos passarmos p ela terra, não há dúvida de que, enquanto isso, devemos usar seus bens, a fim de que mais ajudem do que retardem nosso percurso.”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo X, parágrafo 1)

“... Ora, se pensarmos na finalidade para a qual Ele criou os alimentos, descobriremos que quis atender não somente a nossa necessidade mas a nosso deleite e satisfação. Da mesma forma as roupas, além da necessidade, atendem ao decoro e à honestidade. Nas ervas, árvores e frutas, além das várias utilidades, há a graciosidade da aparência e o prazer do perfume. Pois, se isso não fosse verdade, o profeta não incluiria, entre os benefícios de Deus, que ‘o vinho alegra o coração do homem’ e que ‘o azeite faz brilhar o rosto’ (Salmos 104:15).”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo X, parágrafo 2)

“... Logo, a questão da justificação deve ser examinada agora mais atentamente, e examinada de tal forma que recordemos que ela é o ponto principal da nossa religião, para que tenhamos aqui maior atenção e cuidado.”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XI, parágrafo 1)

“... Logo, dir-se-á de um homem que é justificado em razão de suas obras quando, em sua vida, encontrarem-se a pureza e a santidade que mereçam o testemunho de justiça diante do tribunal de Deus; ou antes, quando o homem, pela integridade de suas obras, possa responder e satisfazer ao julgamento do Senhor. Ao contrário, será justificado pela fé aquele que, excluído da justiça das obras, compreende a justiça de Cristo por meio da fé, e, vestido com ela, apresenta-se ante o olhar do Pai não como pecador, mas como justo. Assim, nossa interpretação é que a justificação é simplesmente a aceitação pela qual Deus nos recebe na graça e nos considera justos. E dizemos que ela consiste na remissão dos pecados e na imputação da justiça de Cristo.”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XI, parágrafo 2)

“... Logo, justificar não quer dizer outra coisa senão absolver do castigo o que fora feito réu, como se sua inocência tivesse sido provada. Assim, uma vez que Deus nos justifica pela intercessão de Cristo, absolve-nos não propriamente porque nossa inocência foi provada, mas pela imputação da justiça; de forma que somos reputados justos em Cristo, mas em nós mesmos não o somos.”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XI, parágrafo 3)

“... Paulo diz que Davi descreve a justiça sem obras com estas palavras: ‘Bem-aventurados aqueles cujas iniquidades são perdoadas’ (Romanos 4:7; Salmos 32:1)... mas inclui toda a justiça na remissão gratuita, declarando que é bem-aventurado o homem cujos pecados são cobertos, ao qual Deus perdoa as iniquidades e ao qual não imputa suas transgressões; por conseguinte, estima e avalia que a felicidade desse homem não está em que seja realmente justo, mas em que seja imputado como tal.”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XI, parágrafo 11)

“... O apóstolo [Paulo] diz que considerou esterco [‘skubalon’, no grego] todas as coisas, a fim de ganhar Cristo e de ser encontrado unido a Ele, não tendo sua própria justiça, que vem da Lei, mas a justiça que vem de Deus, pela fé (Filipenses 3:7-9)... Ele mesmo o mostra quando diz que nosso orgulho fica excluído não pela Lei, mas pela fé (Romanos 3:27). De onde segue que, enquanto permanecer em nós um pouquinho de justiça das obras, permanece algum motivo de orgulho. Mas, se a fé exclui todo orgulho, a justiça das obras não se pode associar, de modo algum, com a justiça da fé. Nesse sentido, Paulo fala tão claramente, no quarto capítulo aos romanos, que não há lugar a dúvidas ou a tergiversações. ‘Se Abraão foi justificado pelas obras, ele tem de que se gloriar’. E acrescenta: ‘mas não diante de Deus’ (Romanos 4:2). Por conseguinte, Abraão não foi justificado pelas obras. Apresenta depois outro argumento pelo seu contrário: quando se paga o salário pelas obras, mas ocorre por dívida, não se faz por graça. A justiça da fé, contudo, é distribuída segundo a graça. Logo, não é pelo mérito das obras. É, pois, um sonho daqueles que imaginam a justiça feita de fé e de obras.”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XI, parágrafo 13)

“Não obstante, a Escritura, quando fala da justiça da fé, nos conduz por um caminho muito diferente: que, tendo desviado o olhar de nossas obras, olhemos somente a misericórdia de Deus e a perfeição de Cristo. Com efeito, ensina ser esta a ordem da justificação: que, a princípio, Deus tem por bem, por mera e gratuita bondade, abraçar o pecador, não levando em conta nele coisa alguma pela qual se sinta movido à misericórdia para com ele, mas apenas sua miséria, já que o vê totalmente desnudo e vazio de boas obras, e de si mesmo tira a causa por que beneficiar o pecador.”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XI, parágrafo 16)

“... Não deve parecer inusitada a expressão ‘Os fiéis são justos diante de Deus não por suas obras, mas por gratuita aceitação’, já que ela ocorre na Escritura em toda a parte e que até os doutores antigos falam assim às vezes. Assim, pois, Agostinho diz em algum lugar: ‘A justiça dos santos neste mundo consiste mais na remissão dos pecados que na perfeição das virtudes’ [Aug. De civ. Dei XIX 27 MSL 41, 657; CSEL 40 II, 421, 26s].”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XI, parágrafo 22)

“... Que significa colocar nossa justiça na obediência de Cristo senão afirmar que só por Ele somos considerados justos, porque pela obediência à justiça de Cristo é aceita por nós, como se fosse nossa? Por isso me pareceu que Ambrósio estabeleceu admiravelmente um paradigma dessa justiça na bênção de Jacó. Como ele não mereceu a primogenitura por si, mas ocultando-se sob o aspecto de seu irmão e vestido com as roupas dele, que exalavam um odor excelente, aproximou-se de seu pai para, sob o disfarce de outra pessoa, receber a bênção em proveito próprio; da mesma forma, é necessário nos escondermos sob a pureza preciosa de Cristo, nosso irmão primogênito, para conseguirmos testemunho de justiça perante os olhos de Deus. As palavras de Ambrósio são: ‘Que Isaac tenha sentido o odor das roupas talvez queira dizer que não somos justificados pelas obras, mas pela fé; uma vez que a fraqueza carnal é impedimento para as obras, mas a caridade da fé, que merece o perdão dos pecados, eclipsa o erro das obras’ [Ambrosius, De Iacob et vita beata II 2,9 CSEL 32 II, 37, 5ss]. E é exatamente assim. Pois, para comparecermos diante da face de Deus para nossa salvação, é preciso sentirmos o bom perfume que Ele exala, e nossos vícios serem cobertos e sepultados por sua perfeição.
(João Calvino, Livro 3, Capítulo XI, parágrafo 23)

15 junho 2014

Institutas 25

“... Não somos nossos; logo, que nem nossa razão nem nossa vontade tenham predomínio em nossas resoluções e em nossos atos. Não somos nossos; logo, não estabeleçamos parra nós a finalidade de buscar o que nos convém segundo a carne. Não somos nossos; logo, convém que nos esqueçamos tanto quanto possível de nós mesmos e de todas as nossas coisas. Em contrapartida, somos de Deus; logo, vivamos e morramos parar Ele. Somos de Deus; logo, que sua sabedoria e vontade presidam todas as nossas ações. Somos de Deus; a Ele, pois, dediquemos todas as partes de nossa vida, como o único fim legítimo (Romanos 14:8)...”
“... E, assim, o primeiro passo é que o homem se afaste de si, para aplicar toda a força de seu intelecto ao serviço de Deus. Chamo serviço não somente o que consiste na obediência à Palavra, mas aquele pelo qual o intelecto do homem, esvaziada da sensação mesma de sua carne, converte-se inteiramente às ordens do Espírito de Deus. Essa transformação, à qual Paulo chama renovação da mente (Efésios 4:23).”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo VII, parágrafo 1)

“... É preciso o cristão estar de tal forma disposto e preparado que compreenda que seu negócio com Deus é para toda a vida. Por essa razão, da mesma forma que entregar todas as suas obras ao arbítrio e ao cálculo de Deus, assim também oferecerá a Ele, reverentemente, todo o desígnio de seu coração.”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo VII, parágrafo 2)

“... A escritura, no entanto, para conduzir-nos a isso, adverte-nos de que todas as graças que obtemos do Senhor nos foram confiadas por Ele com a condição de que contribuamos ao bem comum da Igreja; e, portanto, que o uso legítimo de todas essas graças implica a comunicação liberal e benigna delas aos demais...”
“... Logo, uma vez que tua benignidade não pode subir até Deus (como diz o profeta), ela deve ser exercitada para com seus santos, que estão na terra (Salmos 16:3).”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo VII, parágrafo 5)

“... O Senhor prescreve que se faça o bem a todos, sem exceção, ainda que eles sejam, em sua maior parte, completamente indignos, se são julgados pelos próprios méritos. Mas aqui a Escritura apresenta uma excelente razão, ao ensinar-nos que n ao devemos examinar o que os homens mereçam por si, mas sim considerar em todos a imagem de Deus, à qual devemos toda honra e amor. Ela deve ser observada ainda mais diligentemente naqueles que são ‘da família da fé’ (Gálatas 6:10), enquanto é neles renovada e restaurada pelo Espírito de Cristo.”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo VII, parágrafo 6)

“... Ora, requer-se dos cristãos muito mais além do que mostrar-se afável de rosto e tornar seus deveres amáveis pela cordialidade de suas palavras. Primeiro, devem olhar para quem carece de sua ajuda e levantar a pessoa, ao mesmo tempo em que se condoem de sua sorte, como se eles mesmos a experimentassem e padecessem, para que prestem auxílio com o mesmo sentimento de misericórdia e de humanidade, não de forma diferente do que prestariam auxílio a si mesmos.”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo VII, parágrafo 7)

“... Pois não é coisa de pouca importância arrancar de ti o cego amor por ti mesmo, para que te tornes mais cônscio de tua debilidade; que sejas ferido pela percepção de tua debilidade, para aprenderes a desconfiar de ti mesmo; que desconfies de ti mesmo, para transferires a Deus tua confiança; que repouses a confiança de teu coração em Deus, para que, apoiado em seu favor, perseveres vitorioso até o fim; e que perseveres em sua graça, para compreenderes que é veraz em suas promessas; que consideres como certa essa segurança de suas promessas, para que se consolide tua esperança a partir daí.”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo VIII, parágrafo 3)

“... Contentemo-nos, pois, mais com o testemunho de Cristo que com uma falsa opinião da carne. Assim, a exemplo dos apóstolos, regozijar-nos-emos sempre que Ele reputar dignos aqueles que soframos afronta por causa de seu nome (Atos 5:41). Quê, então? Se, inocentes e de consciência limpa, somos despojados de nossos bens por maldade dos ímpios, diante dos homens somos reduzidos à indigência, mas, diante de Deus, nossas verdadeiras riquezas aumentam no céu. Se somos separados de nossos parentes, tanto mais somos recebidos na família de Deus; se somos marcados por opróbrios e ignomínia, tanto maior nosso lugar no reino de Deus; se somos trucidados, desse modo se nos abre a porta para a vida bem-aventurada. Envergonhemo-nos, pois, de dar menos valor àquilo a que o Senhor atribuiu tão alto preço do que às ociosas e vãs seduções da vida presente.”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo VIII, parágrafo 7)

“... Se não houvesse aspereza na necessidade, se não houvesse suplício nas doenças, se não houvesse golpe na ignomínia, se não houvesse horror na morte, que fortaleza ou moderação haveria em fazer pouco caso dessas coisas? Mas, como cada uma contém em si certa amargura, com a que naturalmente morde o coração de todos nós, nisto se mostra a fortaleza do homem fiel: se, tentado pela sensação de amargura, ainda que sofra intensamente, vence, resistindo com bravura.”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo VIII, parágrafo 8)

“... Pois as próprias adversidades terão sua aspereza, com a qual nos morderão. Sim, afligidos pela doença, gemeremos e nos inquietaremos e ansiaremos pela cura; sim, oprimidos pela necessidade, seremos tocados pelos aguilhões da inquietação e da tristeza; sim, seremos feridos pela dor da ignomínia, do desprezo e da injúria; sim, derramaremos as lágrimas exigidas pela natureza nos funerais dos nossos; mas sempre chegaremos a esta conclusão: o Senhor quis assim; sigamos, pois, sua vontade. Mais ainda, é necessário que esse pensamento penetre nos próprios golpes da dor, nos gemidos e nas lágrimas, e incline nosso espírito a suportar com alegria as mesmas coisas que o entristecem.”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo VIII, parágrafo 10)

“Seja qual for o gênero de tribulação que nos aflija, devemos ter sempre em mente este fim: acostumarmo-nos ao desprezo pela vida presente, e, por isso, despertarmos para a meditação da vida futura. Pois, uma vez que o Senhor sabe muito bem até que ponto estamos inclinados pela natureza a um bestial amor a este mundo, aplica a medida mais eficaz para afastar-nos dele e despertar-nos de nosso torpor, a fim de que não nos apeguemos tão tenazmente a tal amor...”
“... Mas, se examinares as intenções, as empresas, os atos de cada um de nós, não verás ali nada mais que terra. E daí provém nossa estupidez, porque nossa mente é embotada pelo vão esplendor das riquezas, do poder e das honras, para que não vejam além. Também o coração é acabrunhado pelo peso da avareza, da ambição e do desejo, para que não se erga mais alto. Finalmente, nossa alma toda, enredada nos deleites da carne, procura sua felicidade na terra...”
“... E disso concluímos que  aqui não se deve buscar nem esperar mais do que luta; e que devemos levantar os olhos para o céu quando pensamos na coroa. Pois é certo que nosso espírito não levará a sério o desejo e a meditação da vida futura a menos que, antes, tenha sido imbuído do desprezo pela vida presente.”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo IX, parágrafo 1)

“Porque entre essas duas coisas não há meio-termo possível: ou a terra perde todo o valor para nós ou nos reterá ligados a ela por um amor destemperado. Por isso, se a eternidade significar algo para nós, devemos nos incumbir diligentemente de nos livrar desses maus grilhões. Além disso, uma vez que a vida presente dispõe de muitas seduções com que nos aliciar e muita aparência de amenidade, de graça e de suavidade com que atrair, é extremamente necessário que nos afastemos dela amiúde, para não sermos fascinados por tais encantos.”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo IX, parágrafo 2)

“Os fiéis acostumar-se-ão a tal desprezo pela vida presente, sem, no entanto, nutrir ódio e ela nem ingratidão para com Deus. Porque esta vida, por mais que repleta de infinitas misérias, consta com razão entre as irrecusáveis bênçãos de Deus. Por isso, se não reconhecemos nela nenhum benefício de Deus, já somos culpados de grande ingratidão para com Ele. Principalmente, ela deve servir de testemunho para os fiéis da benevolência divina, uma vez que está toda destinada a promover sua salvação. Pois Ele, antes de mostrar-nos abertamente a herança da glória eterna, quer declarar que é nosso Pai com demonstrações menores, que são os bens que nos confere a cada dia.”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo IX, parágrafo 3)

“... Pois, se o céu é sua pátria, que é a terra senão seu exílio? Se partir deste mundo é entrar na vida, que é este mundo senão um sepulcro? E que é permanecer nele senão estar imerso na morte? Se ser libertado do corpo é ser posto em perfeita liberdade, que é o corpo senão um cárcere? Se usufruir da presença de Deus é a suma e suprema felicidade, não será infeliz carecer dela? Certamente, enquanto não deixamos o mundo, ‘somos peregrinos, longe do Senhor’ (2 Coríntios 5:6)...”
“... mesmo desejando seu fim [vida terrena], estejamos também preparados para permanecer nela segundo a vontade do Senhor, para que nosso tédio passe longe de toda murmuração e impaciência. Pois ela é como uma moradia em que o Senhor nos colocou e que deve ser conservada por nós até que Ele nos chame de volta...”
“... é próprio do Senhor determinar o que mais convém à sua glória. Portanto, se devemos viver e morrer para o Senhor, deixemos a seu arbítrio o limite da morte e da vida...”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo IX, parágrafo 4)

“... ‘Alegrai-vos’, diz o Senhor, ‘levantai vossas cabeças, por que se aproxima vossa redenção’ (Lucas 21:28). É razoável, pergunto, que aquilo que o Senhor quis que nos fizesse saltar de felicidade e de alegria não gere em nós senão tristeza e consternação? Se é assim, por que nos vangloriamos dele, como se ainda fosse nosso Mestre? Recobremos então o juízo; e, por mais que isso repugne à cega e estúpida cobiça da nossa carne, não duvidemos de que esperar o advento do Senhor com nosso desejo, e também com gemidos e suspiros, é, entre todas as coisas, a mais feliz. Pois virá a nós o Redentor, que, tendo-nos tirado deste imenso abismo de todos os males e misérias, guiar-nos-á àquela bem-aventurada herança de vida e de sua glória.”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo IX, parágrafo 5)

“... Mais ainda: se os fiéis são golpeados pela improbidade dos ímpios, se suportam as ofensas de sua altivez, se são saqueados por sua avareza, se são atormentados por algum outro desejo deles, ainda então não lhes será difícil consolar-se mesmo em meio de tais males. Pois terão diante de seus olhos aquele dia em que o Senhor receberá a seus fiéis no descanso de seu reino, enxugará todas as lágrimas de seus olhos, vesti-los-á com a túnica da glória e da alegria, apazigua-los-á com a inenarrável suavidade de seus deleites, eleva-los-á a sua altura e honra-los-á, finalmente, com a participação em sua bem-aventurança (Isaías 25:8; Apocalipse 7:17).”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo IX, parágrafo 6)

04 junho 2014

Institutas 24

“... Agostinho diz a este propósito [indulgências]: ‘Mesmo que, irmãos, morramos por nossos irmãos, ainda assim o sangue de nenhum mártir é derramado para a remissão dos pecados, o que Cristo fez por nós; e não o fez para que o imitássemos, mas no-lo concedeu para que agradecêssemos’ [Aug., In Ioh. Tract. 84, 2 MSL 35, 1847]. E, em outro lugar: ‘Assim como só o Filho de Deus se fez homem para consigo fazer-nos filhos de Deus, só ele, não merecedor de seus males, sofreu a pena em nosso lugar, a fim de que nós, não merecedores de nossos bens, conquistássemos uma graça indevida’ [Aug., Contra duas ep. Pelag. Ad Bonif. IV 4, 6 MSL 44, 613; CSEL 60, 526, 19ss].”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo V, parágrafo 3)

“... E, ainda que a Lei de Deus contenha em si aquela novidade pela qual se restaura em nós a imagem de Deus, no entanto, como nossa lerdeza tem necessidade tanto de muitos estímulos quanto de escoras, será útil extrair de passagens diversas da Escritura uma ordem com que organizar nossa vida, para que aqueles que desejam o arrependimento não se percam em sua intenção... Talvez haja tempo, em outra ocasião, para tais discussões; ou talvez deixe essa parte para outros, por não ser eu o mai sindicado. Por inclinação natural, agrada-me a brevidade. E talvez não conseguisse, se quisesse, falar de modo mais copioso. Mesmo que um método de ensino mais prolixo fosse muito mais plausível, dificilmente eu me permitiria experimentá-lo.”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo VI, parágrafo 1)

“Este é o lugar para dirigir-me aos que não têm nada de Cristo além de um título e um símbolo, e, no entanto, querem ser chamados cristãos. Com que cara, afinal, vangloriam-se de seu santo nome? Pois nada têm em comum com Cristo aqueles que n ao tenham recebido da palavra do Evangelho o correto conhecimento... Falsamente, pois, e também com injúria para com Cristo, afirmam que dele possuem o conhecimento, por mais que matraqueiem com eloquência e facilidade acerca do Evangelho. Pois este não é doutrina de língua, mas de vida, e não se aprende unicamente com o intelecto e a memória, como as outras disciplinas, mas, quando recebida, possui afinal toda a alma e encontra sede e receptáculo no mais profundo do coração... Concedemos prioridade à doutrina em que se apoia nossa religião, visto que dela advém nossa salvação. Entretanto, é necessário que a doutrina penetre em nosso peito e chegue a nossos costumes, e de tal modo nos transforme que não nos seja infrutífera... Evangelho cuja eficácia deveria penetrar nos afetos mais íntimos do coração, cem vezes mais do que as frias advertências dos filósofos, e assentar-se na alma e afetar o homem em sua totalidade.”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo VI, parágrafo 4)

“... Devemos ter diante de nossos olhos esse objetivo, ao qual dirigir todo o nosso empenho. Estabeleçamos uma meta, pela qual trabalhemos e nos esforcemos. Pois não é permitido repartir com Deus, para que acolhas uma parte das coisas que te foram prescritas por sua Palavra e desprezes outra, segundo teu arbítrio. Porquanto Ele sempre nos recomenda, em primeiro lugar, a integridade como parte principal de seu culto, querendo dizer com essas palavras uma sincera simplicidade de alma, desprovida de engano e de ficção, coisas a que se opõe nosso coração duplo. Como se dissesse que há um princípio espiritual de viver retamente quando o afeto interior do coração consente em servir a Deus sem ficção, em santidade e em justiça. Mas, uma vez que no cárcere terreno de nosso corpo ninguém dispõe de forças para apressar esse percurso com a devida rapidez, ao passo que uma tão grande debilidade oprime a maioria, que, vacilando e claudicando, arrastando-se dificultosamente, caminhemos cada um segundo suas pequenas possibilidades e prossigamos o caminho que começamos. Ninguém avançará tão infrutiferamente que não percorra pelo menos uma parte do caminho a cada dia. Não desistamos, pois, de fazê-lo, a fim de algo sempre aproveitar no caminho do Senhor, e não desesperemos com a pouca importância do resultado. Ainda que o resultado não corresponda a nosso desejo, o trabalho não está perdido quando o dia de hoje supera o de ontem. Miremos em nosso objetivo com sincera simplicidade e aspiremos a essa meta, sem nos adular a nós mesmos com lisonjas nem condescender com nossos vícios, mas nos esforçando sempre na tentativa de nos tornarmos melhores, até que alcancemos a bondade que realmente buscamos e perseguimos por toda a vida. Atingi-la-emos quando, despojados da fraqueza de nossa carne, formos plenamente admitidos na companhia de Deus.”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo VI, parágrafo 5)

23 maio 2014

Institutas 23

“... Se nos aprouver acomodar-nos à doutrina simples da Escritura, não haverá o perigo de algum de nós se iludir com tais artimanhas. Pois ali está prescrita uma única maneira de se confessar, a saber: uma vez que é o Senhor quem perdoa, esquece e apaga os pecados, a Ele confessamos nossos pecados, com intuito de obter seu perdão. Ele é o médico; mostremo-lhe, pois, nossas feridas. Ele é o lesado e o ofendido; peçamo-lhe paz. Ele é o conhecedor dos corações, ciente de todos os pensamentos; apressemo-nos a depositar nosso coração diante dele. Ele é, enfim, quem chama os pecadores; não demoremos a nos aproximar dele.”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo IV, parágrafo 9)

“... A tais mentiras oponho a remissão gratuita dos pecados, pois não há nada anunciado de modo mais claro na Escritura (Is 52:3; Rm 5:8; Cl 2:14; Tt 3:5). Primeiro, o que é a remissão senão um dom de mera liberalidade? Pois não se diz que ‘perdoa’ aquele credor que, em ato privado, atesta que o dinheiro lhe foi pago, mas aquele que, sem nenhum pagamento, só por sua beneficência, rompe a obrigação.”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo IV, parágrafo 25)

“... Um é próprio do juiz; outro, do Pai. Pois o juiz, quando castiga o malfeitor, olha para o próprio delito e determina a pena pelo próprio crime. O pai, quando corrige seu filho com severidade, não faz isso parra vingar-se ou para lhe impor uma multa, mas antes para ensiná-lo e fazê-lo ser mais cauteloso no futuro.”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo IV, parágrafo 31)

“... Os filhos [de Deus], por sua vez, são açoitados com varas não para pagar uma multa por seus delitos, mas para tirar proveito do arrependimento. Por isso entendemos que tais castigos se referem mais ao futuro que ao passado. Prefiro explicá-lo com palavras de Crisóstomo, mais do que com as minhas: ‘Por causa disso’, diz, ‘impõe-nos uma pena, não para obter alguma recompensa de nossos pecados, mas para corrigir-nos para o futuro’ [Pseudo-Chrysostomus, Sermo de Poenitentia ET confessione, in Ed. Erasmi Basileae 1530 t. V p. 514]. E também Agostinho: ‘Aquilo que tu sofres e por que gemes é medicina para ti, não pena; castigo, não condenação. Não repilas o açoite se não queres ser repelido da herança’ [Aug. in Ps. 102, 20 MSL 37, 1332]. E: ‘... toda esta miséria do gênero humano sob a qual o mundo geme, sabei, irmãos, que é uma dor medicinal, e não uma sentença penal’ [Aug. in Ps. 138, 15 MSL 37, 1793].”
 (João Calvino, Livro 3, Capítulo IV, parágrafo 33)

“... ele [Agostinho] mesmo o explica em outro lugar: ‘A carne de Cristo’, diz, ‘é o verdadeiro e único sacrifício pelos pecados. Não somente por todos aqueles que nos são apagados no batismo, mas por aqueles que depois se nos insinuam por fraqueza, por causa dos quais toda a Igreja clama diariamente: “Perdoai-nos nossas dívidas!” (Mt 6:12). E nos são perdoados por causa daquele único sacrifício’ [Aug. Contra duas epist. Pelagianorum III, 6, 16 MSL 44, 600; CSEL 60, 505. 5ss].”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo IV, parágrafo 38)

“... Mas, porque o meu propósito é ensinar coisas proveitosas...”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo IV, parágrafo 39)

26 abril 2014

Institutas 22

“Quanto ao que se diz, que Deus purifica sua Igreja de todo pecado e que promete a graça de sua libertação por meio do batismo e que a completa em seus eleitos (Ef 5:26-27), referimo-nos mais à acusação do pecado que à matéria dele. É certo que Deus faz isso ao regenerar os seus, para abolir neles o reino do pecado (pois lhes subministra a virtude do Espírito dele, com a qual se tornam superiores e vencedores na luta); mas o pecado somente deixa de reinar, não de habitar. Por isso dizemos assim: o homem velho é crucificado e a lei do pecado está abolida nos filhos de Deus, de tal maneira, no entanto, que neles resta resquícios do pecado (Rm 6:6), não para dominá-los, mas para humilhá-los com a consciência de sua debilidade.”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo III, parágrafo 11)

“... E igualmente também na homilia 41 sobre João, onde fala sem temor do fundo do coração: 'Se na carne serves à lei do pecado, faz o que o próprio apóstolo diz: "não reine pecado em vosso corpo mortal, para que não obedeçais a seus desejos" (Rm 6:12). Não diz "não haja", mas "não reine". Enquanto viveres, necessariamente há de haver pecado em teus membros, mas ao menos tire-lhe o reino e não se faça o que ele manda' [Agostinho, In Ioh., tract. 41, 12 MSL 35, 1698].”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo III, parágrafo 13)

“... Os fiéis sabem muito bem, por experiência, que tipo de pena é o pudor, a confusão, o gemido, o desgosto de si e os demais afetos que nascem do reconhecimento sério de nossos delitos. Lembremo-nos, não obstante, de que se deve ter medida, para que a tristeza não nos consuma, porque não há coisa a que as consciências inquietas mais estejam expostas do que cair em desespero.”
"... Mui útil é, a propósito desse tema, a admoestação de Bernardo: 'A dor por causa do pecado é necessária, contanto que não seja contínua. Aconselho-vos a que, de vez em quando, volteis as costas à recordação incômoda e dolorosa de vossos caminhos e vos retireis para a serena planície da memória dos benefícios de Deus. Mesclemos mel ao fel, para que o saudável amargor possa dar-nos saúde, quando for bebido temperado com a doçura misturada. E se provais o que é vosso na humildade, senti também o que é de Deus, na bondade' [Bernardus Cl., In cantica serm. 11, 2 MSL 183, 824 D, 825 B]."
(João Calvino, Livro 3, Capítulo III, parágrafo 15)

05 fevereiro 2014

Institutas 21

“... Logo, a menos que quisermos que a fé trema e vacile, é preciso que a apoiemos na promessa de salvação que o Senhor nos oferece de antemão e por sua liberalidade, e mais em consideração à nossa miséria que à nossa dignidade.”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo II, parágrafo 29)

“... Por conseguinte, devemos por nossos olhos em Cristo sempre que alguma promessa nos é oferecida, e não é absurdo o que Paulo ensina: que, quaisquer que sejam as promessas de Deus, em Cristo se confirmam e se cumprem (Rm 15:8).”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo II, parágrafo 32)

“... A Palavra de Deus é semelhante ao sol: ilumina a todos a quem é pregada, mas não produz fruto entre os cegos. E, nessa parte, todos nós somos, por natureza, cegos; por isso não pode penetrar em nossa mente, a não ser pelo acesso que lhe dá o Espírito, esse mestre interior, com sua iluminação.”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo II, parágrafo 34)

“... Agostinho, fiel intérprete, exclama: ‘... para que o Salvador nos ensinasse que o próprio ato de crer é um dom, e não mérito, diz “Ninguém vem a mim se o Pai não o atrai, e se não lhe for concedido por meu Pai” (João 6:44). É algo surpreendente que dois ouçam uma coisa, e um se rebaixe, e o outro se eleve. Aquele que se rebaixa, que o impute a si mesmo; aquele que se eleva, que não o impute a si mesmo’ [Agostinho, Sermo 131, 2s. MSL 38, 730]. E, em outro lugar: ‘Por que razão se dá a um e não a outro? Não me envergonho de dizê-lo: é um profundo mistério da cruz. Tudo o que podemos procede de um segredo desconhecido dos julgamentos de Deus, a que nem podemos perscrutar. O que posso, vejo-o; de onde posso, não o vejo, salvo que vejo que é de Deus. Mas por que este e não aquele? Isto é demasiado para mim, é um abismo, um mistério da cruz. Posso gritar de admiração, mas não o posso demonstrar com argumentos num debate’ [Agostinho, Sermo 165, 5 MSL 38, 905].”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo II, parágrafo 35)

“Resta que aquilo que o entendimento recebeu seja então transferido para o coração. Pois a Palavra de Deus não é admitida pela fé se girar no mais alto do cérebro, mas apenas quando finca raízes no fundo do coração, a fim de ser uma fortaleza inexpugnável, para conter e repelir todos os avanços das tentações. E se é verdade que a verdadeira inteligência da mente é a iluminação do Espírito, seu poder se mostra de forma muito mais evidente em tal confirmação do coração, na medida em que, com efeito, a desconfiança do coração é maior do que a cegueira da mente, e é muito mais difícil que o coração seja instruído pela segurança do que a mente imbuída pela reflexão. Por isso o Espírito exerce a função de selo, para selar em nosso coração aquelas mesmas promessas cuja certeza imprimiu antes em nossa mente, e ocupa o lugar do penhor, para confirmá-las e ratificá-las.”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo II, parágrafo 36)

“No entanto, não me esqueci do que disse antes, e cuja recordação a experiência renova continuamente, a saber: que a fé é impelida por várias dúvidas, de tal maneira que a mente dos homens pios raramente repousa, ou pelo menos não desfruta sempre de um estado de tranquilidade... Só mesmo essa segurança alimenta e guarda a fé quando nos persuadimos do que diz o salmo: ‘Deus é nossas proteção, nosso auxílio nas tribulações. Não temeremos, portanto, ainda que a terra trema e os montes se transfiram para o coração do mar’ (Salmos 46:2). E, em outro lugar, celebra também este suavíssimo repouso: ‘Eu me deitei e dormi, e despertei, porque o Senhor me sustentava’ (Salmos 3:5). Não porque Davi tenha sido sempre inclinado, com igual disposição, à alegre hilaridade; mas, como experimentava a graça de Deus conforma a medida da fé, vangloria-se de desprezar intrepidamente qualquer coisa que pudesse inquietar a paz de seu espírito. Por isso a Escritura, quando quer nos exortar à fé, ordena que nos aquietemos. Assim em Isaías: ‘Em esperança e em silêncio será vossas fortaleza’ (Isaías 30:15). E no salmo: ‘Guarda silêncio perante o Senhor, e espera-o’ (Salmos 37:7). A esses passos corresponde aquele do apóstolo aos hebreus: ‘É-vos necessária a paciência’ (Hebreus 10:36).”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo II, parágrafo 37)

“... Porque os mistérios de Deus, como são os pertinentes à nossa salvação, não podem ser contemplados em si, nem em sua natureza (como se diz), mas os vemos apenas na Palavra de Deus, de cuja verdade devemos estar tão persuadidos que temos de considerar realizado e cumprido tudo quanto Ele nos diz. Como, pois, elevar-se-á nosso espírito para provar o gosto da bondade de Deus, sem que, ao mesmo tempo, todo ele se acenda do desejo de amar a Deus? Pois essa abundância de suavidade que Deus traz escondida para os que o temem não pode ser conhecida verdadeiramente sem que cause profunda emoção; e por completo arrebata e traz a si aquele a quem uma vez afetou.
“... Como Bernardo está mais certo do que eles! ‘O testemunho da consciência’, diz, ‘ao qual Paulo chama a glória dos fiéis (2 Coríntios 1:12), consiste, creio, em três pontos. Antes de mais nada, é necessário que creias que tu não podes obter a remissão dos pecados a não ser pela indulgência de Deus; depois, que não podes em absoluto ter nada de boa obra, a não ser que Ele te haja concedido isso; e, por último, que tu não podes merecer a vida eterna com nenhuma boa obra, a não ser que ela também te seja dada gratuitamente’ [Bernardo de Claraval, In festo annuntiationis beatae Virginis sermo 1, 1 MSL 183, 383 AB].”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo II, parágrafo 41)

“... De maneira que, em suma, a esperança não é outra coisa que não a expectativa daquelas coisas que a fé acreditou verdadeiramente prometidas por Deus... A fé é o fundamento sobre o qual a esperança repousa; a esperança alimenta e sustenta a fé.
(João Calvino, Livro 3, Capítulo II, parágrafo 42)

“... Nós, pelo contrário, quando vemos que os oráculos de Deus ordenam que os pecadores recebam a esperança da salvação, presumimos de bom grado sua verdade, tanto que, confiados só em sua misericórdia, e descartada a confiança nas obras, atrevemo-nos a bem esperar. Não nos enganará aquele que disse: ‘Faça-se conforme a vossa fé’ (Mateus 9:29).
(João Calvino, Livro 3, Capítulo II, parágrafo 43)


31 janeiro 2014

Institutas 20

“... Resumindo: o Espírito Santo é o vínculo com que Cristo nos ata a Ele firmemente.”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo I, parágrafo 1)

“... Mais adiante, porque Deus Pai, por causa de seu Filho, nos concede o Espírito, e mesmo depositou nele toda a plenitude, para que fosse ministro e dispensador de sua liberalidade, ora é chamado Espírito do Pai, ora Espírito do Filho.”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo I, parágrafo 2)

“...  já foi explicado que há somente um caminho de libertação que nos resgata de tão infeliz calamidade: a aparição de Cristo Redentor, por cuja mão o Pai celestial, apiedado de nós conforme sua imensa bondade e clemência, quis nos socorrer, desde que abracemos essa sua misericórdia com fé sólida, e nela descansemos com esperança constante.”
“... Agostinho, que, discorrendo sobre a finalidade da fé, trata desse tema com elegância, afirma que nos é necessário saber aonde e por onde se deve ir; e conclui, em seguida, que o caminho mais seguro contra todos os erros é aquele que é Deus e é homem. Porque Deus é aquele para onde vamos, e o homem, aquele por onde vamos. E somente em Cristo se encontra um e outro [Cidade de Deus, livro 11, c.2].”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo II, parágrafo 1)

“... A cada dia, encontramos, lendo a Escritura, muitos passos obscuros, que nos convencem da nossa ignorância. Com um tal freio, Deus nos mantém na modéstia, distribuindo a cada um uma porção de fé, a fim de que até mesmo o melhor e mais douto esteja sempre pronto a aprender.”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo II, parágrafo 4)

“... A princípio, somos advertidos de haver uma relação perpétua da fé com a Palavra; e de aquela não ser separada desta, tanto quanto os raios não podem ser separados do sol de que se originam.”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo II, parágrafo 6)

“... Assim, uma vez que não se há de ter muito conhecimento da ação da bondade divina, a menos que nos faça descansar nela, deve ser excluída a inteligência mesclada com a dúvida, a inteligência que não se mantém sólida, mas que está como que em luta permanente consigo. Agora, falta muito para que a mente do homem, como é cega e envolta em trevas, penetre e eleve-se até a compreensão da vontade de Deus. Tampouco se assenta tranquilo nessa convicção o coração, uma vez que flutua em hesitação perpétua. E, assim, convém a mente ser iluminada e o coração confirmado de outra maneira, para que a Palavra de Deus produza em nós a fé plena. Portanto, chegaremos a uma definição precisa de fé se dissermos que é o conhecimento firme e certo da benevolência divina para conosco, fundado sobre a verdade da promessa gratuita feita em Cristo pelo Espírito Santo, revelada a nossa mente e selada em nosso coração.”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo II, parágrafo 7)

“... Se alguém objetar que não resta aos fiéis coisa alguma com que ter certeza de sua adoção, respondo: ainda que exista grande semelhança e afinidade entre os eleitos de Deus e aqueles aos quais se concedeu uma fé passageira, apenas nos eleitos, no entanto, é vigorosa aquela confiança que Paulo celebra, de clamar de boca cheia ‘Abba, Pai!’ [Gl 4:6].”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo II, parágrafo 11)

“... Tampouco nada impede que a notícia de seu Evangelho toque levemente a uns, e a outros penetre-os profundamente. Isto, entretanto, deve-se ter em conta: que, porque o Espírito de Deus é para os eleitos penhor infalível e marca de sua adoção, por mais que a fé seja neles exígua e débil, jamais se poderá apagar de seus corações sua imagem gravada; mas que os réprobos são apenas salpicados por tal luz, que logo se extingue. Nem por isso é o Espírito falaz, pois a semente que lança em seus corações, para que permaneça sempre incorruptível, não vivifica como nos eleitos.”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo II, parágrafo 12)

“... e Ele mesmo proclama que não havia encontrado em Israel uma fé tão grande quanto a que o centurião demonstrara [Mt 8:10]. Ora, é provável que o centurião estivesse completamente voltado para a curar de seu filho, cuidado que ocupara toda a sua atenção. Mas, porque satisfeito só com o sinal e a resposta de Cristo, não insiste em pedir sua presença corporal, e, por causa dessa circunstância, sua fé é de tal modo louvada.”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo II, parágrafo 13)

“... Razão pela qual o apóstolo deduz da fé a confiança, e desta, a ousadia. Assim, então, diz que ‘por Cristo e na fé, temos a ousadia’ [Ef 3:12], que existe pela fé nele. Com essas palavras, prova cabalmente que não há fé correta a não ser quando ousamos, de espírito tranquilo, comparecer perante o olhar de Deus. Tal ousadia não pode nascer senão de uma firme confiança em nossa salvação pela benevolência divina. Tanto isso é verdade que muitas vezes o nome de fé é usurpado como sinônimo de ‘confiança’.”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo II, parágrafo 15)

“... Claro que nós, quando ensinamos que a fé deve ser certa e segura, não imaginamos uma certeza tal que não seja tocada por  nenhuma dúvida, nem uma segurança que não seja acometida por nenhuma preocupação; mas dizemos que há de haver para os fiéis um combate eterno contra a desconfiança de si mesmos. Tão longe estamos de colocar suas consciências numa plácida quietude, nunca interrompida por perturbações de nenhum tipo! De novo, no entanto, negamos que, como quer que sejam afligidos, possam decair ou descer daquela confiança firme que conceberam acerca da misericórdia do Senhor.”
“... Em verdade, aquele que, lutando contra a própria falta de firmeza, esforça-se por entre suas ansiedades para chegar à fé, está já em grande parte vitorioso.”
“... Em contrapartida, no entanto, os fiéis, aos quais o peso das tentações encurva e quase oprime, frequentemente recobram-se, embora não sem incômodo e dificuldade. E, uma vez que são cônscios da própria fraqueza, oram como o profeta: ‘Não tires de minha boca em tempo algum a palavra da verdade’ [Sl 119:43].”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo II, parágrafo 17)

“... Para que isso seja bem entendido, é necessário voltar àquela distinção entre a carne e o espírito, que já recordamos em outro lugar [Livro 2, cap. II, paragr. 27; Livro 3, cap. I], e de modo muito claro se comprova nesta parte. Com efeito, tal divisão, sente-a em si o peito do homem pio, o qual está em parte inundado pela suavidade do conhecimento da bondade divina, e em parte apertado pela amargura da sensação da própria calamidade; em parte recosta-se na promessa do Evangelho, em parte treme com o testemunho de sua iniquidade; em parte exulta com a posse da vida, em parte se aterroriza com a morte. Essa oscilação provém da imperfeição da fé, pois, no curso da vida presente, ela jamais se porta conosco tão bem que fiquemos curados da doença da desconfiança, sejamos todos preenchidos e possuídos pela fé. Daí os conflitos, quando a desconfiança que habita no restante da carne se insurge contra a fé que foi recebida lá dentro para combatê-la.”
“... Se somos distraídos por pensamentos variados, nem por isso somos separados da fé; se somos atormentados de cima a baixo pela agitação da desconfiança, nem por isso soçobramos em seu abismo. Se somos empurrados, nem por isso perdemos o passo.
(João Calvino, Livro 3, Capítulo II, parágrafo 18)

“Em resumo: quando a menor gota de fé se instala primeiro em nossa mente, já começamos a contemplar a face de Deus, plácida e serena e propícia para conosco.”
“... Assim como um homem fechado em um cárcere, privado de realmente olhar o sol, percebe seus raios brilhantes apenas de forma indireta, através de uma janela estreita e como que pela metade, ele, embora não receba com os olhos o claro esplendor do sol, dele tira proveito; do mesmo modo nós, atados pelos vínculos deste corpo terreno, de todas as formas e por todos os lados rodeados de grande escuridão, somos, no entanto, iluminados um pouquinho pela luz irradiante de Deus para nos revelar sua misericórdia o bastante para uma segurança sólida.”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo II, parágrafo 19)

“... Logo, reafirmamos o que foi dito acima: que a raiz da fé não pode jamais ser arrancada de um peito piedoso sem que permaneça fincada no mais profundo do coração, por mais que pareça que, ao ser puxada, será de fato arrancada; que sua luz jamais é apagada ou obstruída de tal maneira que não reste ao menos algo oculto entre as cinzas; e que se desvenda por tais provas que a Palavra, que é semente incorruptível, produz fruto semelhante a si, cujo gérmen jamais seca nem se perde de todo.”
(João Calvino, Livro 3, Capítulo II, parágrafo 21)